Leia o nosso guia compreensivo o que é a blockchain, uma das palavras mais em voga na atualidade.

O mais provável é já se ter deparado com a palavra-chave deste artigo várias vezes. Empresas a tentar implementar este tipo de tecnologia nas suas organizações, associações dedicadas ao tema, alianças que pretendem aumentar o conhecimento e potenciar a utilização deste tipo de tecnologia nas empresas… São inúmeras as iniciativas dedicadas a esta temática.

Como nasce a blockchain

Apesar de haver um grande interesse por esta tecnologia, a verdade é que grande parte das pessoas ou organizações desconhece, ou omite, a sua origem.

A blockchain é a tecnologia por trás da moeda digital mais conhecida atualmente, a bitcoin. A blockchain é a rede que suporta o funcionamento desta criptomoeda. As pessoas que contribuem para o desenvolvimento desta rede recebem bitcoins em troca (este ponto é aprofundado mais à frente).

No entanto, dificilmente vai ouvir alguém a dar crédito à bitcoin – ou ao seu criador Satoshi Nakamoto – pela sua invenção. A razão para tal prende-se com o facto de a blockchain ter potencial para acrescentar valor aos negócios, que podem facilitar múltiplas tarefas. Logo, há uma conotação positiva da tecnologia.

Do outro lado da mesa, com uma conotação mais negativa, está a bitcoin. Como esta e outras moedas do seu género desafiam e competem com o tradicional conceito de dinheiro e das instituições que o sustentam, executivos do Banco Central Europeu ou do Banco Popular da China já expressaram o seu desagrado por este tipo de divisas.

Mas afinal, o que é a blockchain?

Colocando de lado os possíveis interesses à volta deste universo, ninguém melhor que o presidente da Associação Portuguesa de Blockchain e Criptomoedas, Fred Antunes, para nos responder à pergunta “afinal, o que é a blockchain?”.

Numa entrevista ao Link to Leaders, descreveu esta tecnologia como sendo: “Uma base de dados onde um administrador não consegue alterar a informação nela contida. Portanto, aquilo que distingue esta base de dados de uma base de dados convencional, ou até de uma base de dados em cloud computing [computação por nuvem], é o facto de ser imutável. Logo, toda e qualquer informação que nela esteja contida, a partir do momento que a rede de blocos vai avançando, são efetivamente inalterados e automaticamente ganha-se fiabilidade, segurança e um sistema inviolável seja por erro humano, seja por vontade humana, que muitas vezes está associado a corrupção, etc. A grande mais-valia é o facto de termos uma base de dados descentralizada e que não pode ser alterada.”

Ou seja, a blockchain é um intermediário confiável, que não lucra e que não tem qualquer interesse em mudar as regras do jogo nem deixa os seus utilizadores mudarem as regras depois destas serem acordadas.

Como é que isto funciona?

Um exemplo simples (inspirado num artigo publicado na Hackernoon) de como isto funciona pode ser uma ilha deserta com quatro habitantes que não se conhecem: Ana, Bernardo, Camila e Diogo.

Este grupo, que ficou preso na ilha, quer criar uma moeda de troca, mas não têm qualquer objeto valioso que sirva para o efeito e muito menos confiam uns nos outros para haver alguém encarregue de todas as transações. Para contornar esta situação, os quatro elementos decidem criar quatro folhas de balanços onde vão ser registados os saldos de cada um. Sendo um grupo justo, mas desconfiado, cada um começa com 100 moedas.

Depois de acordados estes termos, as quatro folhas de balanço são distribuídas entre  todos. No primeiro dia, depois de ser celebrada a nova economia da ilha e ainda não tendo havido transações, cada uma das folhas incluí a indicação de que cada membro do grupo tem 100 moedas.

Para estas folhas serem legítimas, cada um dos elementos tem de assinar a folha dos outros no final de cada dia, tendo em consideração cada uma das transações feitas.

No segundo dia, Ana e Camila não fizeram qualquer transação, mas Bernardo pagou a Diogo 25 por um peixe. O que significa que o balanço das contas expresso na folha deste dia seria:

Ana (100)
Bernardo (75)
Camila (100)
Diogo (125)

Na eventualidade de Ana, que tem um background ligado a burlas e corrupção, ter escrito na sua folha que tinha 150 moedas – em vez de 100 – os outros três náufragos podiam recusar-se a assinar, o que tornava inválida a informação contida no balanço da Ana.

Neste conceito, o importante é haver uma maioria a decidir se as alterações que estão a ser feitas são legítimas ou não. Neste caso, a maioria seria de três.

Apesar de ser um exemplo simples de como a blockchain funciona estão aqui expressas algumas das bases da tecnologia:

– As folhas de balanço de cada dia são os blocos (blocks). Assim, que pelo menos três folhas têm as mesmas assinaturas, logo a informação torna-se válida e imutável.

– Cada uma destas folhas está diretamente ligada à anterior, formando, assim, uma cadeia (chain) que, com o decorrer dos dias, vai aumentando gradualmente.

– Para verificar o estado da folha do último dia, os elementos podem recorrer ao histórico completo para ver se a informação coincide.

Em ambiente real, e no exemplo da bitcoin, cada um destes blocos seria encriptado e verificado por máquinas ou pessoas que  serviriam de auditores da rede. O retorno por terem executado este trabalho passa por receberem uma quantia de bitcoins. Estas pessoas são conhecidas como “miners” (mineiros). Em outras aplicações fora do mundo das criptomoedas, parte-se do princípio que esta encriptação será feita por máquinas.

E que outras aplicações são estas?

São inúmeros os setores que contam com a possibilidade de implementar este tipo de tecnologia. Alguns dos exemplos mais sonantes são:
– Governos: aplicar a tecnologia de forma a aumentar a eficiência de todos os processos e a transparência e, com isto, diminuir substancialmente a corrupção. Aplicada aos governos, a blockchain tornaria impossível alterar os votos de uma eleição. Também há potencial na implementação da tecnologia em hospitais e escolas.

 Transações de dinheiro: enquanto que o método tradicional de enviar dinheiro atualmente passa por ter um intermediário, que na maioria das vezes é um banco, a blockchain não só permite aumentar a eficiência das transações sem ter de haver um intermediário, como também aumenta a privacidade dos seus utilizadores.

Smart contracts: estes “contratos inteligentes” podem ter aplicações que vão desde a compra de uma propriedade a troca de ações. A sua invenção prende-se a outra criptomoeda, a Ethereum. Vejamos um exemplo: imagine que queria comprar uma casa a alguém por 250 mil euros. Em vez de pagar a um advogado para tratar do assunto, podia decidir registar o contrato na blockchain, onde diria que tinha concordado em pagar 250 mil euros pela casa. Este método cria um livro de registos públicos transparente. Desta maneira, o proprietário da casa não poderia voltar atrás com a palavra e pedir, em vez dos 250 mil, 300 mil euros. Os smart contracts não só definem as regras e as penalizações, no caso de haver incumprimentos, como também forçam os visados a cumprir o que está estipulado.

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