Sócia da 500 Startups, uma das aceleradoras e firmas de capital de risco mais conceituadas do mundo, Bonnie Cheung concentra-se na procura de projetos interessantes na área da blockchain e das criptomoedas. Nesta entrevista, a VC desmistifica alguns mal-entendidos sobre esta área e fala sobre os executivos de empresas que querem, mas não sabem bem como,  implementar a blockchain em todos os setores.

Blockchain” é uma das palavras do momento no mundo dos negócios. A tecnologia, que inicialmente seria utilizada para trocar bens entre entidades que não confiam uma na outra, parece estar a ser implementada em todos os setores. Há até quem afirme que a generalização desta tecnologia nas empresas terá um impacto maior do que aquele que teve a Internet em 1994. No entanto, no meio de tanto entusiasmo, parece haver alguns mal-entendidos sobre a sua verdadeira utilidade. Conversámos sobre o tema com Bonnie Cheung, sócia de uma das aceleradoras e firmas de capital de risco mais conceituadas do mundo, a 500 Startups.

Quais são os mal-entendidos mais comuns sobre a blockchain e as criptomoedas?
As pessoas esquecem-se que a blockchain não serve para tudo. Infelizmente, acho que nos últimos dois anos houve uma grande excitação à volta do tema. Claro que os seres humanos são incentivados pelo dinheiro e pelo facto de ser um mercado tão lucrativo, mas muitas vezes chegamos à conclusão que não é isso que importa.

Veja uma história engraçada: conheci um empreendedor que me disse “tens de investir na minha empresa. Assim que souberes o que estamos a fazer vais adorar”. Perguntei-lhe o que era e ele respondeu-me que estavam a desenvolver “uma blockchain de realidade aumentada com dados de inteligência artificial para o mundo dos eSports, as competições de jogos online”. Assim que ele me diz isto pensei “não vou investir”.

Acho que o problema é que as pessoas tendem a usar este tipo de palavras quase como uma tendência, mas esquecem-se de que, na verdade, o grande avanço que tivemos com a blockchain foi ter um mecanismo que permite a duas entidades – que não confiam uma na outra – transacionar itens de valor sem um intermediário. Este é o único avanço. Toda a criptografia, os registos e etc. já existiam. Portanto, acho que este é o grande mal-entendido. A blockchain não serve para tudo. Por favor, deixem a blockchain ser a blockchain.

“O mais importante é encontrar problemas reais no mundo dos negócios que precisem de ser resolvidos.”

Quando olhamos para os intermediários de transações mais conhecidos vemos que a Visa é capaz de processar 45 mil  transações por segundo e o PayPal entre 450 e 500. Por outro lado, o bitcoin só é capaz de realizar sete transações e o ethereum 50. Será este um dos problemas principais que o mundo das criptomoedas tem de resolver?
Sim, a escalabilidade é um dos problemas. As pessoas tocam neste tema porque é algo que demora a ser desenvolvido. Mas ter escalabilidade não significa que haja adoção do sistema. Portanto, os jovens fundadores e empreendedores interessados em construir negócios não se podem esquecer que a escalabilidade é um obstáculo técnico e que, mesmo que seja resolvido, não leva o negócio a ter sucesso automaticamente. Já há muitas equipas a olhar para os diferentes aspetos técnicos da blockchain e em como trazer melhor escalabilidade para além das sete transações por segundo que o bitcoin é capaz de fazer. Mas, se olharmos para os números, nem o bitcoin, nem o bitcoin cash estão a atingir esse pico de permutas, o que significa que não há uso suficiente. O mais importante é encontrar problemas reais no mundo dos negócios que precisem de ser resolvidos. Caso contrário, bem que podemos construir uma grande autoestrada que se não houver carros não existe utilidade.

Para além das transações por segundo, que outros aspetos tornam um projeto apelativo para si, enquanto investidora de capital de risco?
Do ponto de vista técnico há duas coisas para as quais ainda não temos uma solução. Número um: claro que quero perceber – a um nível técnico – como é que estão a resolver o problema da escalabilidade e da privacidade. Isto acontece porque se não houver privacidade dos dados, dificilmente encontram alguém que queira adotar a tecnologia desenvolvida. Atualmente, nós não temos privacidade na chain.

Número dois: se não estiverem a construir uma nova chain precisamos de perceber que problema real estão a resolver. Ainda olho para os projetos para tentar perceber como combinam as infraestruturas da Internet e a tecnologia existente com a blockchain para construir uma solução que resolva um problema de uma indústria. Por norma, quando olhamos para as equipas ou lhes falta conhecimento sobre a  indústria, ou então estão tão focadas nesta que lhes falta conhecimento sobre a blockchain.

Acredita num futuro em que as cryptocurrencies são a única moeda de troca?
Gostava de ver isso a acontecer e espero que seja antes de morrer. Mas, enquanto divisa, o meu ponto de vista baseia-se totalmente na confiança. Temos de perceber os pontos fortes das moedas digitais. São boas em termos de portabilidade e também porque permitem que pessoas que não confiam umas nas outras troquem bens.

Os seres humanos não conseguiriam viver sem confiança. Tem de haver sempre algum nível e confiança. E isso é uma coisa boa. Muitas vezes deixamo-nos empolgar com a confiança que a blockchain nos traz, mas devemos sentir o mesmo com algumas pessoas. Portanto, num mundo ideal, espero ver alguns governos em que ainda possamos confiar. Que façam um bom trabalho e que confiemos na divisa que eles estabeleceram no mercado.

Além disto, não tenho qualquer tipo de problema em usar dólares americanos ou ienes japoneses. Posso garantir que 95% das pessoas que vivem nos Estados Unidos não têm qualquer tipo de problema com a moeda de troca oficial. As únicas alturas em que acho que são uma ferramenta muito boa, e em que já são usadas, é em casos como o do Zimbabué e da Argentina, onde as criptomoedas são utilizadas como um mecanismo de balanço. Portanto, os governos sabem que estão a ser observados e que, se não conseguirem gerir bem as suas políticas monetárias e fiscais, as pessoas abandonam a moeda que foi estabelecida por eles.

Portanto, por agora, vê estas moedas a serem utilizadas como uma ferramenta de gestão de crise?
Por agora, sim. Porque apesar de haver muitos projetos e conceitos a tentarem resolver o problema da volatilidade das criptomoedas, eu não vejo isso como algo de resolução fácil. Não é tão simples quanto as pessoas pensam e em grande parte é tudo muito conceptual.

“O que o mundo das criptomoedas precisa de encontrar é um caso de estudo estável e não um valor estável porque esse valor encontra-se na vontade das pessoas.”

É difícil confiar numa moeda tão volátil – que num dia vale 20 mil dólares e no outro já só vale 7 mil. Essa estabilidade não traria mais confiança às pessoas?
Não vejo as pessoas a oporem-se. Porque, se olharmos para as commodities, vemos que o ouro também é volátil a longo-prazo. É volátil dependendo do ambiente macro. Digamos que entramos em modo de crise e, no pior dos cenários, amanhã começa a Terceira Guerra Mundial. Neste caso, tudo se vai tornar volátil. Não tem a ver com a commodity em si – ou as divisas. O que o mundo das criptomoedas precisa de encontrar é um caso de estudo estável e não um valor estável porque esse valor encontra-se na vontade das pessoas.

Existe sempre a questão do valor das criptomoedas e eu pergunto “qual é o valor dos dólares americanos ou de uma ação na Amazon?”. Porque se a Amazon fechar hoje, as ações não vão valer nada. Portanto, isso vai ser sempre um problema de confiança, que só é ganho com a observação. A bitcoin está a ganhar alguma segurança atualmente porque já está a ser utilizada há oito anos e, apesar de já ter havido trocas que foram alvo de pirataria, a rede nunca o foi.

Portanto, esta confiança é ganha junto das pessoas que estão a fugir do seu próprio governo, que não é prudente com as suas políticas monetárias. Estas pessoas olham para a bitcoin e dizem: “isto funciona como os dólares americanos. Não confio no governo do Zimbabué porque eles imprimem dinheiro, mas sei que esta moeda tem oito anos e que tem provas dadas de que não se pode imprimir ou minar mais”. O que significa que na perspetiva de fornecimento é estável.

Parece que num futuro não tão distante vai haver blockchain em tudo: desde bancos, a governos, seguradoras, distribuidores de energia… Estas redes vão ter de estar ligadas entre si. É possível fazer isto com a tecnologia que existe atualmente?
Se no início dos anos 90, na última onda tecnológica, alguém em tivesse vindo dizer que ia criar uma plataforma como o YouTube eu dir-lhe-ia que estaria louco. Porque apesar de parecer uma grande ideia, não havia infraestruturas prontas. Acredito que com a blockchain estejamos a chegar a uma fase a que se chama de “vale do desapontamento”. Neste âmbito, há dois grupos de pessoas:

– As que estão focadas na tecnologia porque há muito para construir. Porque os engenheiros gostam de olhar para as coisas e pensar “ainda ninguém resolveu isto, portanto, vou ser eu a fazê-lo”;

– E as que têm uma abordagem ao mundo dos negócios. Em que de repente “blockchain” é algo trendy a ser dito. Se fossem mulheres, a blockchain seria os sapatos que estão na moda. A questão é que este grupo não consegue ter uma visão total das ferramentas disponíveis. Querem construir as soluções, mas não têm ferramentas.

A realidade é que estamos a construir um comboio em cima de um carril e não sabemos que direção devemos seguir. Atualmente, diria que estão a pensar bem, mas para voltarmos à realidade. O mundo dos negócios está demasiado excitado porque, no princípio, as pessoas simplesmente pensavam que a blockchain poderia fazer tudo, mas no fim do dia acabamos por encontrar uma lacuna. Agora temos é de ver o próximo passo.

E que passo é esse?
O de elevar a tecnologia ao potencial máximo para que se atinja algo que nunca se conseguiu antes, como ser dono dos seus próprios registos médicos, da identificação – que será bastante mais multifacetada e não apenas um simples passaporte -, do ADN e dos hábitos de compra, por exemplo. Estas características, e a forma como deixamos que as pessoas as usem, é o que nos identifica. Ninguém deveria ser dono delas para além da própria pessoa. No entanto, atualmente, não existe nenhuma tecnologia que me permita fazer isto.

“Algo que já reparámos na blockchain é que, desde o ano passado, que equipas altamente qualificadas nem pensam nos investidores como opção de financiamento – simplesmente levam a cabo uma ICO.”

Em relação aos ICOs, que problemas podem levantar na profissão dos investidores?
Enquanto investidores, não podemos esperar fazer a mesma coisa durante 20 anos. Acontece o mesmo com todas as indústrias. Talvez tenhamos sido um pouco mais sortudos, visto que o modelo de investimento tem sido estável durante muito tempo. E é por isso que a 500 Startups é bastante recetiva a aprender e a crescer em diferentes aspetos porque sempre fomos investidores em fase seed.

Algo que já reparámos na blockchain é que, desde o ano passado, que equipas altamente qualificadas nem pensam nos investidores como opção de financiamento – simplesmente levam a cabo uma ICO.

O que nos apercebemos é que é um risco que temos de aprender a gerir e a mitigar. Enquanto venture capitalist, diria que todos os investidores da minha área precisam de aprender. E é por isso que a 500 Startups se têm debruçado sobre este tema, de forma a ter a certeza que somos capazes de investir não só em equity, como também em tokens.

E é tão simples quanto o investimento em equity?
Em alguns aspetos estamos a aprender algumas coisas porque isto é um espaço onde há uma mistura de firmas de capital de risco de investimentos em fases embrionárias, private equity e outro tipo de investidores. O investimento em tokens é algo que só é feito uma vez. Ou seja, todo o investimento a que vão ter acesso é levantado de uma única vez. Portanto, temos de agir como um investidor de fases mais avançadas e pensar “será que a equipa sabe como utilizar o dinheiro, como criar uma empresa maior ou como gerir o financiamento?”. Depois temos de saber agir como investidores em mercados secundários [que investem em mercados públicos]e, de repente, temos de gerir o nosso portefólio todos os dias. Isto dá-nos imenso trabalho.

Portanto, não têm medo dos ICOs…
Não temos medo, mas estamos super entusiasmados porque há muito para aprender e ninguém é um especialista na matéria. Por outro lado, a verdade é que nos Estados Unidos já ninguém fala de ICOs. Desde 2018 que, devido à pressão das entidades reguladores, a maioria dos projetos de alto potencial não faz uma venda pública. Grande parte deles faz vendas privadas, que se assemelham mais ao investimento de firmas de capital de risco.

Vê a 500 Startups como um intermediário destes ICOs ou talvez a educar as pessoas sobre estes investimentos?
Há certas responsabilidades que temos de ter. A 500 não se importa se investe ou não. Queremos que o ecossistema seja saudável e a única forma de tal acontecer é dar às pessoas a informação de que precisam. Uma das coisas mais comuns que temos reparado acontece nos projetos não-asiáticos. Muitas vezes, estas equipas pensam que são apenas uma start-up à procura de capital e acham que, em vez de pedirem 500 mil dólares a um investidor, podem simplesmente levantar 20 milhões com uma ICO. No entanto, o que percebemos é que estas equipas não sabem criar mercado nem fazer a gestão da tesouraria e das reservas. Pensam que são uma start-up, mas se o fossem levantariam uma ronda seed, colocariam o dinheiro no banco e teriam 18 meses para desenvolver o projeto. Mas agora não, porque podem simplesmente levantar criptomoedas.

Portanto, existe um risco aliado à divisa. É quase como levantar uma ronda de investimento em rúpias da indonésia e ter de pagar salários em dólares norte-americanos. Estes empreendedores precisam de ter a certeza de que estão conscientes do risco da divisa porque o tipo de moedas que entram e que saem da empresa não estão diretamente ligados. Ninguém pensa nisso e a maioria das equipas peca neste aspeto.

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