Há uns bons anos, numa conferência internacional, um dos palestrantes dizia que nós nunca deveríamos ter um “cliente” só.

Muito recentemente, um profissional muito qualificado partilhava comigo que tinha sido convidado para criar e implementar a estratégia de digitalização de um grande grupo económico e que o faria durante dois anos, findos os quais voltaria à gestão das suas empresas.

Esta relação “independente” entre empresas e profissionais existe há muitos anos. O que é novo é a dimensão que esta realidade está a assumir, sobretudo nos profissionais mais jovens e nos muito qualificados.

Segundo um estudo da Intuit, em 2020, 40% dos trabalhadores nos EUA serão trabalhadores independentes. E a Europa mostra sinais semelhantes no crescimento dos freelancers, hoje referenciados como os “Gig”. Apesar de Portugal manter uma baixa qualificação dos seus profissionais, esta realidade pode vir a ganhar “adeptos”, sobretudo nas gerações mais novas, ainda que a um ritmo mais lento que noutros países.

Os Gig são, então, profissionais independentes que se dedicam temporariamente a empresas, projetos ou desafios.

E surgem na conjugação de vários fatores: a escassez de trabalho permanente, a autonomia que as novas tecnologias nos trouxeram e a maior qualificação dos profissionais (que trabalham mais por objetivos e projetos do que à tarefa)

Para os mais novos, as gerações Y e Z, é uma oportunidade para:

  • Conhecer diversas realidades e ganhar múltiplas experiências;
  • Conseguir gerir o seu tempo com alguma autonomia;
  • Assumir o controlo dos seus percursos de carreira.

Para os mais velhos, uma oportunidade para colocarem ao serviço de diversas empresas a sua experiência, aportando “valor testado” às organizações.

Também as empresas beneficiam desta nova atitude perante o trabalho:

  • Tornam-se atraentes para os mais jovens (as gerações Y e Z), que procuram projetos e trabalhos com sentido;
  • Têm acesso a profissionais com muita experiência, por um período de tempo, sem terem que os admitir nos seus quadros permanentes;
  • Têm profissionais que, por não dependerem de uma só empresa, podem trazer contributos mais “out of the box” e aumentar a sua capacidade de inovação-

Depois de muitos anos com um único “cliente”, hoje o meu tempo é dedicado a diversas empresas, colocando a seu dispor o que aprendi, experienciei ao longo de muitos anos. E estou durante o tempo considerado adequado. Para mim, estas experiências têm sido um acelerador de novas aprendizagens pelo contacto com diferentes setores, desafios e novas equipas.

Os dias de hoje exigem que olhemos para as realidades com outros olhos. Encontrarmos soluções diversas, que possam coexistir, será o caminho. Uns profissionais encontrarão nos vínculos permanentes a sua realização, outros procurarão caminhos de maior independência.

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Sobre o autor

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Isabel Viegas é professora na Universidade Católica e Membro do Conselho Estratégico da Formação de Executivos da FCEE da mesma universidade. Foi Diretora-Coordenadora de Recursos Humanos do Grupo Santander em Portugal, de 2003 a 2016, bem como Diretora de Recursos... Ler Mais