Opinião

Eu não te acompanho mais

Pedro Alvito, professor de Política de Empresa da AESE Business School

Que estranha forma de vida, levamos hoje-em-dia. Vivemos num mundo global, dizem-nos. De facto, cada vez mais entristecemo-nos com quem está triste, assumimos em nós as guerras dos outros e até nos aceitamos, muitas vezes, como tendo responsabilidade pela desgraça dos outros. Tudo afeta todos e todos afetam tudo.

Há uma espécie de corda que une toda a humanidade e que, se a puxamos de um lado, o efeito sente-se do outro. Não vou discutir aqui a teoria do efeito borboleta, mas é um facto que a rapidez da informação nos leva a sentir os outros perto. Existe um tremor de terra no Médio Oriente e, amanhã, tememos que nos aconteça a nós. Se há cheias na América Latina, tememos pelo nosso país e aí por diante. De facto, sentimos, cada vez mais, o mundo como algo global.

Por outro lado, Paris não é igual a Luanda, que não é igual a Pequim, que também não é igual a Moscovo, nem a Buenos Aires. Confirmei-o por mim mesmo. As diferenças são totais na cultura, na forma de viver do seu povo, no desenvolvimento económico e também no modo como cada povo encara o seu futuro. Até na alimentação são diferentes. Quantos problemas tive eu em me entender com essas diferenças, no meu relacionamento internacional.

Diz a psiquiatria que para haver sanidade mental as pessoas têm que ver o futuro como linear, como se não fosse mudar. Todos sabemos que não é assim, mas precisamos que mentalmente seja assim. Talvez por isso existam hoje tantos problemas de ansiedade, esgotamento e depressão.

Isto leva-nos, obrigatoriamente, a uma nova forma de ver o mundo porque, enquanto a tecnologia avança a uma velocidade estonteante, a mentalidade dos povos demora gerações a mudar. Existe também o efeito recente das redes sociais que, rapidamente, viraliza comportamentos e atitudes, e semeia, muitas vezes, confusão e desinformação.

Hoje, ao ouvir um fado da Amália, percebi, mais uma vez, como a verdadeira arte antecipa o sentir futuro da humanidade. “Se não sabes onde vais, porque teimas em correr, eu não te acompanho mais”. É talvez o melhor conselho para o grande problema das doenças mentais, nas empresas e no mundo. Que adianta correr, se não sabemos o destino? O planeamento estratégico define que, antes de se avançar, temos de saber o que queremos atingir e quando. Na presença de objetivos concretos e concretizáveis todos nós respondemos positivamente.

Custa-me ver como, hoje-em-dia, tantas empresas correm em busca de nada, gerando desmotivação e stress. Stephen Covey disse e bem que: “se você deseja pequenas mudanças, trabalhe os seus comportamentos; mas se você deseja mudanças realmente significativas, trabalhe os seus paradigmas.” Quantas vezes nos escondemos atrás de comportamentos mecânicos e desajustados perante a realidade e não paramos para pensar no que estamos realmente a fazer. Temos que ser capazes de dizer “eu não te acompanho mais”.


Pedro Alvito é, desde 2017, professor na AESE, onde leciona na área de Política de Empresa, tendo dado aulas também na ASM – Angola School of Management. Autor de duas dezenas de case studies publicados pela AESE e de dois livros publicados pela Editora Almedina – “Manual de como construir o futuro nas empresas familiares” e “Um mundo à nossa espera, manual de globalização”. Escreve regularmente em vários órgãos de comunicação social especializada. Desde 2023 é presidente do Conselho de Família e da Assembleia Familiar do grupo Portugália e membro do Conselho Consultivo da GWIKER.

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