A dedução da acusação no caso BES/GES, o maior processo-crime financeiro de sempre no nosso país, veio lembrar-nos, se tal fosse necessário, que a ética, a transparência e a integridade são valores essenciais da atividade financeira e empresarial.

Infelizmente, Portugal tem sido pródigo em “crimes de colarinho branco”, com consequências bastante lesivas para os interesses da comunidade e para a reputação de empresários, banqueiros, sistema judicial, instituições públicas e decisores políticos.

Ora, o que o carrossel de casos económico-financeiros dos últimos anos pôs em evidência foi a necessidade de se adotarem modelos de corporate governance mais transparentes, proativos e socialmente responsáveis. Empresas e instituições financeiras devem ser geridas em benefício de todos os acionistas, e não em função de interesses individuais ou de interesses de determinados grupos de acionistas. Para evitar este tipo de situações, é fundamental instituir regras claras de governo societário, que sejam capazes de regular o funcionamento das administrações, de definir com rigor as competências orgânicas e de evitar conflitos de interesse.

Mas a observância de bons princípios de governo societário não chega: é indispensável estabelecer um compromisso social entre as empresas (ou instituições financeiras) e os seus stakeholders. Tem de existir um escrupuloso equilíbrio entre os legítimos interesses das empresas e os deveres dessas mesmas empresas perante a sociedade. Ou seja, entre o direito ao lucro e a obrigação ética de promover a redistribuição da riqueza gerada, de assegurar boas condições laborais, de contribuir para o crescimento económico do país e de mitigar a pegada ambiental. Só assim se estabelece uma plataforma de confiança e respeito mútuo entre os diferentes agentes económicos, condição essencial para o bom funcionamento do mercado livre.

Neste sentido, afigura-se pertinente uma gestão empresarial baseada nos 3 P’s (pessoas, planeta e proveitos), também conhecida por triple bottom line, em que o desempenho de uma empresa é medido considerando a sua contribuição para a prosperidade económica, para a qualidade ambiental e para o capital social. Quer isto dizer uma gestão norteada por objetivos relacionados não só com os proveitos, mas também com o bem-estar das pessoas e o respetivo contexto socioeconómico, cultural e ambiental.

De resto, a ética, a transparência e a integridade são hoje fatores de competitividade. Os cidadãos estão mais exigentes e responsáveis nas suas decisões de compra, penalizando as marcas que não cumprem princípios éticos. Os consumidores afirmam-se dispostos a pagar mais por produtos de marcas que incorporem valores como a transparência, a compliance, a responsabilidade social e a sustentabilidade. Tendência que foi fortalecida com a pandemia de Covid-19, verificando-se hoje uma maior frugalidade, ponderação e consciência político-social nos hábitos de consumo.

O desprezo pela dignidade humana, pelos direitos laborais, pelo valor do trabalho, pelas obrigações fiscais ou pelos ecossistemas naturais é cada vez mais uma via para o insucesso empresarial. Isto significa que, de facto, a competitividade também passa pelo cumprimento de princípios éticos. Quando uma empresa se preocupa com a comunidade onde está inserida, a própria comunidade reconhece essa preocupação e retribui o investimento. As empresas devem, pois, não esquecer o compromisso social que têm com a comunidade e agir em conformidade.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais