“A Apple foi criada em 1976 por Steve Jobs e Steve Wozniak na garagem da família Jobs em Los Altos, Califórnia. No final de 1980, a Apple já tinha desencadeado uma verdadeira revolução no setor da computação, tendo catapultado a indústria de computadores pessoais (PC) para o mítico valor de US $ 1 bilhão em vendas anuais. Rapidamente a Apple se tornou líder de mercado!

Numa tentativa de promover a sua própria “criatividade destrutiva[1]”, Jobs enalteceu a visão da Apple de “mudar o mundo através da tecnologia”. Esta visão levou ao desenvolvimento de computadores que qualquer pessoa poderia usar, pelo que foi amplamente elogiado, principalmente nas histórias contadas sobre a Apple. O desenvolvimento do PC foi verdadeiramente revolucionário – se olharmos ao computador existente até à emergência desta empresa, cujo uso estava praticamente restrito a técnicos de informática, que dominavam as operações”. Excerto retirado do Estudo de Caso de Kwak e Yoffie (1999)

Este excerto faz parte integrante de uma estória[2] que tem sido amplamente difundida entre os Norte-Americanos – e um pouco por todo o mundo – desde os anos 70 até aos nossos dias. Vale a pena enfatizar quão positiva e inovadora é esta estória: que conta acerca de uma empresa cuja tecnologia inovadora “rasgou” com o mundo informático vigente e de um empreendedor que iria transformar o mundo! Escusado será dizer que tanto esta, como outras estórias similares, contribuíram em muito para que a APPLE obtivesse as rondas de financiamento tão necessárias para se transformar na referência que é hoje! Ao mesmo tempo, foram estórias como esta que ajudaram a cultivar a “profunda lealdade” que existe em relação à marca “APPLE” e a projetar a imagem tão inovadora e disruptiva desta empresa.

Esta é apenas uma das muitas estórias inspiradoras que são contadas em relação a vários outros negócios, levando a que empreendedores como Bill Gates, Jeff Bezos ou Mark Zuckerberg sejam elevados ao estatuto de líderes e “modelos” a seguir. Nas palavras do professor de empreendedorismo cultural da Universidade de Cornell – Michael Lounsbury[3] – estas estórias são fundamentais, pois são elas que legitimam a “criação do negócio próprio” como uma boa opção de carreira e mostram as mais-valias de ser “empreendedor”. E os estudos nos E.U.A. são reveladores da importância destas estórias de empreendedorismo bem-sucedido na vontade de outras pessoas “seguirem os mesmos passos empreendedores” e criarem o seu próprio negócio.

E em Portugal, como são vistos os empreendedores? Que estórias empreendedoras são partilhadas no nosso País? Um estudo científico realizado com dados do relatório Global Entrepreneurship Monitor[4] revelou que em Portugal os empreendedores gozam de um estatuto social interessante (43%), mais elevado relativamente a países como a França, a Bélgica ou a Alemanha. Este resultado parece indiciar que em Portugal os empreendedores estão a ser cada vez mais valorizados! De facto, um olhar pelas notícias publicadas nos meios de comunicação social ou pelas redes sociais mostra bem as inúmeras estórias positivas e inspiradoras em relação a start ups e unicórnios[5] nascidos em Portugal, como a OUTSYSTEMS, a TALKDESK ou a FARFETCH, apenas para citar alguns exemplos.

Em síntese: para além da Web Summit ou da Strart Up Lisboa, Portugal está a conseguir promover o empreendedorismo através das estórias contadas, pelo que será de esperar que mais pessoas no futuro enveredam na criação do seu próprio negócio. Bem-hajam!

*Coordenadora da Escola de Liderança e Inovação do ISCSP – Universidade de Lisboa

[1] O processo criativo de geração de ideias que leva à criação de um novo produto ou de um novo serviço, tal como definido por Schumpeter.
[2] Kwak, M. & Yoffie, D. B. (1999). Apple Computer 1999. Harvard Business School Case: 9-799-108.
[3] Lounsbury, M. & Glynn, M. A. (2001). Cultural Entrepreneurship: Stories, Legitimacy, and the Acquisition of Resources. Strategic Management Journal, 22: 545-564.
[4] Fuentelsaz, L.; González, C.; Maícas, J. P. & Montero, J. (2018). How different formal institutions affect opportunity and necessity entrepreneurship. BRQ Business Research Quarterly 18 (4): 246-258.
[5]Unicórnio” tem uma avaliação de mercado superior a US$ 1 bilhão.

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Patrícia Jardim da Palma é doutorada em Psicologia das Organizações e Empreendedorismo e Professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP- ULisboa). É coordenadora das Pós-graduações “Gestão de Recursos Humanos” e “Empreendedorismo e Inovação”... Ler Mais