Opinião
Estará a Verdade perdida de vez?
Será que a verdade, base com que acredito tem de ser construída uma sociedade saudável, está perdida? Vejamos alguns exemplos, apenas uns dos tantos com que nos confrontamos dia a dia…
Para começar, os comentários de clientes nas plataformas de reservas de hotéis, e a reacção dessas mesmas plataformas. Na situação que passo a relatar um hóspede faz um comentário sobre um hotel e dá-lhe uma nota de 0 numa escala de 1 a 10.
A avaliação média do hotel, decorrente deste comentário e desta nota, passa de 9,2 para 8,9 (porque os comentários extremamente negativos têm uma grande ponderação no cálculo da avaliação média). O hotel reclama. Apresenta provas de que tudo o que o hóspede diz no seu comentário não corresponde à verdade.
Demonstra que uma das acusações feitas – que as fotografias não correspondem à verdade – é falsa, utilizando fotografias tiradas no momento e comparadas com as que estão na plataforma. E prova que, antes do check in, o hóspede tinha sido informado, na resposta a uma pergunta feita por WhatsApp, sobre o outro aspecto referido na crítica feita (não ter restaurante). Mostra, inclusive, mensagens de ameaça do hóspede quando recebe uma resposta negativa sobre um reembolso que pede decorrente das alegações falsas que faz (you’ve better review your decision or you will suffer the consequences).
E sabem o que acontece quando o hotel, depois de provar a mentira do comentário, pede para retirarem o comentário e desconsiderarem a avaliação? Nada!
Isso mesmo, nada!
Porque, segundo a plataforma, “não somos juízes e, portanto, não temos como avaliar a veracidade dos factos alegados pelos hóspedes”. Para o comentário ser retirado, segundo esta plataforma, deveria ter havido comentários sexistas, racistas ou quaisquer outros que desconsiderassem as pessoas. Mas mentira comprovada não é critério para desconsiderar o comentário!
Uma outra situação, noutro universo totalmente distinto.
Um jovem jogador de um dos clubes que jogava um jogo internacional foi, durante o jogo, acusado por um jogador bem conhecido do outro clube de insulto racista. O árbitro interrompe o jogo de acordo com o protocolo do racismo. A interrupção dura cerca de 10 minutos. E o jogo recomeça com todos os jogadores em campo. E depois, aparece um outro jogador, um dos mais famosos do mundo, que confirma o insulto e afirma ter ouvido repetido por cinco vezes.
Muitos, em Portugal e no mundo, aparecem de imediato com juízo feito, a crucificar o jogador, a insinuar que seria racista, a acusá-lo de comportamento antidesportivo… e sabe-se lá o que mais. O jogador acusado é suspenso preventivamente enquanto decorre a investigação e deliberação sobre o castigo em que incorrerá ficando assim incapacitado de jogar e proscrito por muitos e muitos “especialistas” e comentadores de futebol.
Acontece que, meses depois, este organismo apresenta as suas conclusões. Afinal sim, ele chamou um nome ao outro, mas não o que foi alegado (tal como ele sempre afirmou). Não interessa qual dos insultos é mais grave, interessa que foi castigado, correctamente, e sofreu as consequências do seu acto.
Mas o que aconteceu a quem o acusou de insulto racista? Ou a quem ouviu este insulto 5 vezes?
Ao que parede o insulto que foi ouvido e confirmado não aconteceu… mas os que o afirmaram inúmeras vezes não receberam qualquer castigo. Estará isto correcto?
Assistimos a uma aceitação tranquila da mentira, uma impunidade de quem afirma o que lhe interessa, a nunca existente preocupação em repor os factos e a sua verdade. E também a um outro fenómeno – uma repetição ad nauseam de factos que se tornam públicos, independentemente de ser verdade ou não.
Esta propagação fácil da mentira, sem uma verificação cautelosa antes de ser feita, é não só injusta como danosa. Hotéis perdem pontuação e clientes, jogadores perdem oportunidades, profissionais perdem os seus lugares, famílias entram em colapso, e tantos e tantos outros casos onde reputações são destruídas por alegações que depois se provam inexactas – mas que ninguém se interessa em esclarecer depois de ter largado as bombas noticiosas ou causado os danos nos negócios ou nas vidas das pessoas.
Todo este clima de não cuidado com a verdade, com a aceitação e repetição do que nos passa à frente, vai contra tudo aquilo em que acredito, e contra tudo aquilo que entendo deve ser a base de uma sociedade respeitadora. É isto que me incomoda. É isto que me preocupa. O respeito, que considero a base fundamental de uma convivência saudável, tem de ser assente em verdade.
E se a mentira é aceite… mal estamos!








