A plataforma Portugal Agora criou um Conselho Disruptivo com o intuito de apresentar propostas concretas que visem melhorar o nosso país, em setores como educação, formação e trabalho, mobilidade, lazer, habitação, ambiente e energia, política e cidadania ou saúde e envelhecimento ativo. Hoje, começa a apresentar as medidas para as áreas da educação, formação e trabalho.     

As dimensões Educação, Formação e Trabalho e suas interações estão em mudança acelerada a nível global. As competências-chave deste nosso tempo envolvem não apenas a dimensão cognitiva, mas cada vez mais as dimensões interpessoal e intrapessoal.

Destacam-se aqui o pensamento crítico, a resolução de problemas, a comunicação, a colaboração e a aprendizagem em rede, a criatividade e a inovação. Estas são competências centrais para a elevação da nossa capacidade de aprender e do nosso propósito diferenciador que, hoje e ainda mais no futuro, nos distinguirão da robotização e do desempenho das máquinas.

Neste contexto, urge mudar em Portugal o paradigma informacional e mecanicista de ensino, como plataforma de distribuição massiva de informação, para um paradigma relacional e motivacional, em que o processo de aprendizagem é fortemente interpretativo, dedutivo e coletivo, promovendo a autonomia e percursos personalizados. Isto tem clara relevância, tanto na esfera do desenvolvimento pessoal como no mundo do trabalho, onde as mudanças são aceleradas pelo ritmo da mudança.

A tecnologia dita “emergente”, associada à gestão da informação e às comunicações, começou, nas últimas duas décadas, a integrar-se com todas as áreas de atividade, mudando hábitos, rotinas e processos de trabalho. O incrementalismo gradual será cada vez mais convertido em disrupção. Tecnologias como machine learning (ML), que suportará os vários tipos de inteligência artificial (IA), com algoritmos cada vez mais sofisticados, ou blockchain (que permitirá segurança e rigor acrescidos nas transações, com registos descentralizados), ou as realidades aumentada (RA) e virtual (RV), que revolucionarão as nossas experiências – como aprendemos, desfrutamos, interagimos com os outros. Ou a IoT (Internet of Things) que permitirá conetar todos os objetos do nosso quotidiano. E muitas mais, como big data, cloud computing ou impressão 3D.

A grande questão, na nossa ótica pouco explorada em Portugal, será como desenvolver competências e um contexto que permitam a um qualquer profissional lidar com esta complexidade e inovação acelerada. Competências que sejam mais universais e transferíveis, nas várias profissões deste novo mundo do trabalho. Que, por sua vez, será marcado pela flexibilidade nas modalidades (anytime-anywhere) e vínculo a organizações (profissionais a full-time, outros em part-time ou projetos, outros freelancers).

Como podemos preparar-nos? De três formas: pugnando pela educação de base de crianças e jovens, requalificando os adultos e aperfeiçoando o ordenamento jurídico destas dimensões. Preparando todos para um mundo menos linear e mais complexo e imprevisível. Como contributo, o Conselho Disruptivo da plataforma Portugal Agora, apresenta aqui 7 desafios concretos que nos parecem pertinentes para corresponder, com sucesso, a esta nova realidade:

  • Desenvolvimento da dimensão cívica-humana e competências de empreendedorismo, liderança e sociais-relacionais, no ensino básico e secundário: conseguir-se-á assim o incremento na auto-consciência, capacidade de inovação, autonomia, literacia económica e financeira dos jovens desta geração. Neste âmbito, deixamos a proposta concreta do ensino global de Cultura e Arte: inserção, no ensino básico e/ou secundário, de um módulo de Educação Cultural e Artística, composta por conteúdos que possam promover nos mais jovens a criatividade e a inovação, o espírito crítico e incrementar hábitos de consumo e fruição cultural – nas artes performativas, música, audiovisual e artes plásticas.
    Pode e deve ser assente em conteúdos experienciais e imersivos. Consegue-se assim o incremento dos níveis de criatividade e capacidade de expressão, com reflexos positivos futuros nos contextos de vida pessoais e profissionais.
  • Digitalização dos modelos de ensino/ aprendizagem, integrando tecnologias emergentes nos programas dos vários ciclos de educação: aumento gradual de aulas em realidade virtual; utilização de Big Data, AI e ML para criação de percursos educativos personalizados para estudantes e formandos; disponibilização de serviços de acesso remoto a aulas via realidade aumentada e virtual, que permita uma efetiva colaboração à distância; neste âmbito será essencial o reforço da formação digital dos docentes, em termos técnicos e pedagógicos, em tecnologias emergentes (alavancando tecnologias já existentes na sala de aula, como quadros interativos, realidade virtual e aumentada, etc.).
  • Criação de formato standard e interoperável em Blockchain para graus académicos, certificações profissionais e outras qualificações: tal permitirá um acesso sempre disponível e inviolável dos dados académicos/ profissionais de um cidadão.
  • Criação de um observatório de automatização de profissões / novas profissões que permita a orientação de profissionais, empresas e administração pública em matéria de reskilling, upskilling ou total reconversão profissional.
  • Implementação progressiva de modelos de trabalho adaptáveis (de acordo com os condicionalismos de cada profissão/ função): como referência, semanas com uma carga de trabalho de 4 dias úteis, com regimes flexíveis em termos de local (trabalho remoto), gestão de horário diário e ausência de limite superior de idade.
  • Amplificação da conetividade, homogénea em termos de coesão territorial, facilitando contextos de estudo e trabalho: tal far-se-á com cobertura de aldeias e vilas do interior com 5G, infraestruturas de videoconferência e apoio técnico, orientadas para o teletrabalho e atração de profissionais da economia do conhecimento.
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