“Um dos maiores projetos que temos para o futuro é a nossa unidade de descasque e secagem de amêndoa. Prevemos que esteja a funcionar em 2023. Trata-se de um projeto de indústria 4.0, gerido com princípios de sustentabilidade e de economia circular”, revelou Filipe Rosa, sócio fundador do Grupo Veracruz, que tem em curso um investimento de 50 milhões de euros em Castelo Branco.

São mais de três milhões de amendoeiras e dois mil hectares de terra espalhados por diversas herdades localizadas no Fundão e Idanha-a-Nova. O investimento de perto de 50 milhões de euros em amendoal que o grupo luso-brasileiro Veracruz tem em curso é um dos maiores projetos agrícolas já realizados no distrito de Castelo Branco.

Quando a plantação estiver totalmente instalada e a produção a decorrer em velocidade cruzeiro, destes campos vão sair quatro mil toneladas anuais de amêndoa, todas de variedades tradicionais mediterrânicas. No futuro, e através da abertura de capital a outros investidores, a Veracruz pretende chegar aos cinco mil hectares de amendoal implantados.

Falámos com Filipe Rosa, sócio fundador do Grupo Veracruz, para saber mais sobre este investimento agrícola, a aposta na tecnologia de ponta e os projetos para o futuro que envolvem princípios de sustentabilidade e de economia circular.

Em que fase está o investimento da Veracruz na região da Beira Baixa?
O projeto da Veracruz está em pleno desenvolvimento. Temos quatro herdades (Vale Serrano, Rochoso, Presa e JoanaFaz) nos concelhos de Idanha-a-Nova e uma herdade no Fundão (Carvalhal), que perfazem, no total, 1300 hectares. Neste momento, 500 hectares já estão plantados e estimamos chegar ao final do ano com cerca de 850 hectares de amendoal, o que representa um aumento de 60% face a 2020. No ano passado colhemos também as nossas primeiras amêndoas: 50 toneladas. Um número simbólico, mas que já é fruto de uma estratégia assente em smart-farming, que cuida com enorme precisão do solo, da água e das árvores.

Quantos postos de trabalho irá este investimento criar?
Este investimento irá criar cerca de 50 postos de trabalho diretos e mais de 100 indiretos. Neste momento, temos já 29 trabalhadores na nossa equipa, 90% dos quais são da região. Damos prioridade aos trabalhadores locais e queremos que este seja um projeto estruturante para o distrito de Castelo Branco, não só em termos de atração de talento, como, por exemplo, de boas práticas de produção. Queremos atrair talento para a região e contribuir para a fixação de jovens no interior. No nosso quadro de pessoal, temos colaboradores de outras regiões e de outros países, que escolheram a Beira Interior para se fixar e viver.

“Recorremos a drones e imagens de satélite para acompanhar o desenvolvimento das plantas e temos em curso várias parcerias com universidades para acolher projetos de investigação que ajudem não só a Veracruz, mas todos os agricultores a estar na vanguarda da inovação”.

Qual a previsão de produção?
A partir de 2023 estimamos produzir quatro mil toneladas de miolo de amêndoa por ano.

De que forma promovem a produção agrícola com o menor impacto possível para o ambiente?
Apostamos em smart farming e estamos a dotar as nossas herdades com tecnologia de ponta para gerir os recursos de forma eficaz e sustentável. Temos já instaladas estações meteorológicas e sondas de medição da humidade para controlo do consumo de água, equipamentos de poda e colheita mecanizada. Recorremos a drones e imagens de satélite para acompanhar o desenvolvimento das plantas e temos em curso várias parcerias com universidades para acolher projetos de investigação que ajudem não só a Veracruz, mas todos os agricultores a estar na vanguarda da inovação. Um deles é um estudo científico com vista à melhoria dos sistemas de produção de amêndoa que está em curso, graças a uma colaboração com o Instituto Superior de Agronomia e a empresa Agromillora.

Temos um teste piloto em desenvolvimento que poderá reduzir em 20% o uso da água nos pomares. Chama-se Aqua4D e é uma tecnologia incrível, ainda não utilizada na Europa. O nosso sistema de rega já é dos mais avançados do mundo, composto por múltiplos equipamentos com tecnologia de ponta, que asseguram uma distribuição precisa da água às plantas. Mas com este sistema acreditamos que podemos chegar mais longe numa exigência fundamental e central neste projeto: usar a tecnologia disponível para cuidar do solo, da água, das árvores, o que ratifica o nosso compromisso com a sustentabilidade.

O que determinou a escolha de Portugal e da Beira Baixa para a instalação do amendoal?
Portugal possui um clima mediterrânico que é ideal para a produção de amêndoa. Mas mesmo assim, com todas as condições, é deficitário na produção da amêndoa. Detetámos uma oportunidade para colmatar esta falha. A Beira Baixa em particular é um local privilegiado do ponto de vista edafoclimático, dos solos e localização. De realçar que as propriedades que adquirimos estavam abandonadas há muitos anos e que, assim, contribuímos para revitalizar os terrenos e a região em redor.

Preveem exportar 70% da produção. Para que mercados?
Europa e Ásia são as geografias estratégicas, mas ainda estamos numa fase inicial do nosso projeto. Este será o primeiro ano de colheita de maior volume. O objetivo é invertermos a situação deficitária de Portugal no que toca à produção de amêndoa e contribuir para que o país seja uma referência na produção deste fruto.

Porque é a amêndoa uma cultura tão interessante para investir?
Porque é um superalimento, com caracteristicas incríveis para a saúde, desde redução de problemas cardiovasculares, a prevenção de doenças degenerativas, um ótimo substituto da lactose, e aí por diante. Além disso, é um produto versátil com múltiplas utilizações tanto na alimentação, nos seus derivados e, mais recentemente, na cosmética. Na última década, o consumo mais que duplicou, mas mesmo assim a procura continua a suplantar a oferta, ou seja, existe um déficit mundial na produção de amêndoa.

Em termos de produção, com as novas técnicas e variedades de plantas, consegue obter-se produtividades relevantes e com um certo grau de estabilidade, o que é interessante de um ponto de vista de investimento. As variedades que dominam o mercado são as amêndoas californianas (casca mole). As amêndoas mediterrânicas são de casca rija e um produto de qualidade superior em termos de sabor e caraterísticas nutricionais.

Faz parte da estratégia da empresa abrir, no futuro, o capital a outros investidores para chegar aos 5 mil hectares de amendoal implantados. Como pensam fazê-lo?
Temos muito claro onde queremos chegar e qual a estratégia para o conseguir. Acreditamos que existem ganhos de escala e que podemos beneficiar com uma área de produção maior. Posso avançar que esse crescimento passa por estabelecer parcerias com sócios que partilhem a nossa visão, missão e valores.

“Tanto eu como o meu sócio, David Carvalho, viemos do mundo das empresas de tecnologia e das start-ups. Chegamos a este meio com ferramentas de gestão muito próprias e focados em fazer evoluir a agricultura tradicional para uma agricultura 4.0”.

A agricultura portuguesa modernizou-se muito nas últimas décadas. Temos cada vez mais tecnologias e serviços capazes de dar resposta às necessidades dos produtores e agricultores. Como olha para esta mudança, que caminho falta ainda trilhar e em que ponto estamos em matéria de Agricultura 4.0.?
A Veracruz quer, precisamente, fazer parte desta mudança. O caminho é ainda longo e para o percorrer são necessários conhecimento e investimento. Tanto eu como o meu sócio, David Carvalho, viemos do mundo das empresas de tecnologia e das start-ups. Chegamos a este meio com ferramentas de gestão muito próprias e focados em fazer evoluir a agricultura tradicional para uma agricultura 4.0. É preciso adaptar as bases da indústria 4.0, tais como a Internet das Coisas, Robótica e Inteligência Artificial, e usá-la a favor da agricultura para obter uma produção mais sustentável, que usa os recursos baseada em conhecimento.

É fundamental procurar parceiros que nos possam ajudar a aplicar este know-how que vemos nas empresas de tecnologia. Na Veracruz estamos a implementar um projeto de blockchain com o qual, através da criação de uma identidade única para cada árvore nas nossas herdades, conseguimos rastrear totalmente as colheitas, o transporte, o processamento. Conseguimos saber que “aquela” amêndoa que foge das nossas normas de qualidade, pertence “àquela” árvore. É um salto gigante na qualidade e informação que conseguimos oferecer ao consumidor.

Qual acha que tem sido o contributo das start-ups na modernização da agricultura em Portugal e noutros países?
O contributo é incrível e deve ser cada vez mais apoiado. Há ainda há muito caminho para fazer. Em Portugal temos uma nova geração a chegar ao mundo da agricultura, mas estamos ainda longe de poder dizer que o setor é 4.0. Falta investimento, que será imprescindível para a preservação do setor. Nas nossas herdades, por exemplo, estamos a utilizar a ferramenta da Wisecrop, uma start-up portuguesa especializada em gestão e planeamento de trabalhos de campo. Um dos nossos objetivos é também produzir conhecimento científico que seja aplicado no terreno e, caso resulte, partilhar esse conhecimento com os outros. Queremos estar na linha da frente deste caminho.

Quais os desafios que ainda se colocam aos empreendedores agrícolas?
Ter tecnologia que seja acessível para todos. Falta dar este salto na área tecnológica para que os empreendedores agrícolas possam ter ferramentas que ajudem a gerir melhor as aplicações do solo. Faz todo o sentido, nos dias que correm, que assim seja. Este é também um dos nossos objetivos: criar um ecossistema empreendedor agrícola. Um espaço de partilha de conhecimento, de ferramentas, de métodos.

Queremos posicionar-nos nessa área para que seja mais fácil para os novos agricultores. Outro desafio recente tem por base a desinformação sobre determinadas práticas agrícolas. Temos de ajudar a desmistificar essas opiniões infundadas, em relação aos métodos de produção mais modernos.

Quais as formas de continuar a convencer os portugueses a consumir o que é nacional?
Há uma expressão que gosto particularmente: igual, até pode haver. Melhor não há! Portugal tem produtos de excelência e não é preciso muito para perceber como se diferenciam em sabor, cor, cheiro. Somos o país da Europa com maior número de horas de sol e, juntamente, com os benefícios da dieta mediterrânica deveríamos ser referência mundial na produção de produtos saudáveis. É fundamental consumir o que produzimos, não só porque esse ato consciente tem impacto direto na economia e na vida dos agricultores que todos os dias se dedicam a produzir o que comemos, como é um privilégio viver num país com tanta diversidade de oferta alimentar.

Penso que é muito importante haver transparência nos processos de produção e mostrar como chega a comida às nossas casas. O novo consumidor é cada vez mais informado e exige essa mesma informação. Na Veracruz temos uma política clara de transparência para que, quando tivermos as nossas amêndoas no mercado, o consumidor saiba exatamente o que está no seu prato.

Quais as previsões de faturação para este ano?
Sendo o preço da amêndoa uma espécie de commodity, o nosso resultado em parte depende da colheita dos Estados Unidos, que acaba por determinar o preço de venda, já que eles são responsáveis por mais de 80% da produção mundial.

Para além da amêndoa, faz parte da estratégia da empresa apostar noutros frutos secos?
Estamos a avaliar outros produtos que fazem sentido na nossa visão estratégica, mas ainda é cedo para avançar com mais detalhes. Com certeza, existirão.

“Não é por acaso que estamos em Idanha-a-Nova, a primeira bioregião de Portugal, reconhecida pela Comunidade Europeia, com foco no incentivo e crescimento de produção biológica e sustentável”.

Projetos para o futuro?
Um dos maiores projetos que temos para o futuro é a nossa unidade de descasque e secagem de amêndoa. Prevemos que esteja a funcionar já em 2023. Trata-se de um projeto de indústria 4.0, gerido com princípios de sustentabilidade e de economia circular. Por exemplo, a casca da amêndoa será utilizada para gerar energia dos fornos de secagem. Acreditamos que é um investimento industrial emblemático que irá reforçar a fileira dos frutos secos da Beira Interior. Numa fase inicial, vai criar 30 postos de trabalho e envolve um investimento total de 15,3 milhões de euros.

Além disto, temos também em vista um projeto piloto de amendoal biológico. Um verdadeiro desafio que estamos ainda a estudar. A amêndoa tem características muito próprias que dificultam este processo, mas com os parceiros certos vamos com certeza dar mais este passo. Não é por acaso que estamos em Idanha-a-Nova, a primeira bioregião de Portugal, reconhecida pela Comunidade Europeia, com foco no incentivo e crescimento de produção biológica e sustentável.

Que mensagem gostava de deixar aos jovens agricultores portugueses?
Há duas mensagens que considero essenciais. A primeira passa pelo trabalho em rede. Trabalhar sem nos focarmos só em nós. Olhar para o que os outros estão a fazer, aprender com eles, contribuir também com o que sabemos. Conhecimento gera conhecimento. Ainda há uma cultura enraizada de medo de partilhar informação, com receio que os outros façam melhor que nós. Essa cultura em nada ajuda o mundo empresarial. Partilhar conhecimento, criar parcerias produtivas, é a melhor forma de evoluirmos de forma estruturada.

A segunda mensagem, passa pela visão de longo prazo. Numa época em que tudo é tão instantâneo e imediato, gerir o negócio com foco no longo prazo, de forma sustentável, é o que nos pode diferenciar. Queremos que o projeto da Veracruz seja uma mais valia para a região, para as pessoas e para a comunidade.

Respostas rápidas:
O maior risco: deixar de fazer!
O maior erro: não aprender com as lições do passado!
A maior lição: nada é impossível…. basta ter fé, dedicação e foco.
A maior conquista: a próxima, que ainda está por vir!

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