A Bosch Industry Consulting tem trabalhado com empresas de setores industriais distintos, como o da mobilidade e o dos bens de consumo que representam uma parte significativa da sua atividade. Falámos com Tiago Sacchetti, responsável por esta unidade de negócio da Bosch, sobre as necessidades atuais do tecido empresarial e o impacto da pandemia no processo de transformação digital do setor da produção em Portugal.

A experiência, lições aprendidas e metodologias de planeamento digital da Bosch estão ao dispor de qualquer empresa, quer seja na definição completa de uma nova fábrica, quer seja na industrialização de produtos, na otimização de processos logísticos ou em ações de formação e transferência de conhecimento.

A Bosch Industry Consulting foi lançada há mais de um ano para servir o tecido empresarial português, espanhol e o norte de África. Este negócio, que conta com mais de 60 anos dentro do universo Bosch, engloba a consultoria e execução de projetos no domínio da engenharia de produção e logística e atua partir de Portugal.

Criar cadeias de valor resilientes, ágeis e sem desperdício é a missão desta área de negócio. “A conectividade das cadeias de valor é atualmente a questão chave que irá permitir colher os ganhos da inteligência artificial aplicada aos processos industriais. Nesta altura há efetivamente uma consciência de que é necessário fazer algo mais do que projetos i4.0 isolados. É justamente aí que a Bosch Industry Consulting pode ajudar”, defende Tiago Sacchetti, diretor da Bosch Industry Consulting para Portugal e Espanha.

Qual é o foco da Bosch Industry Consulting (BIC) e quais as mais-valias?
A BIC tem como missão criar cadeias de valor ágeis, inteligentes e sem desperdício. Os nossos clientes podem contar com a experiência da Bosch na gestão de operações industriais alicerçadas nos métodos e tecnologias continuamente desenvolvidos e melhorados nas nossas fábricas.

O que levou a Bosh a criar este serviço?
Este serviço existe dentro da Bosch desde 1962. Na sua génese tinha como missão a transferência de tecnologia da Alemanha para o exterior. Desde essa data o nosso portefólio de serviços cresce frequentemente e hoje podemos dizer que os nossos clientes têm à sua disposição uma gama de soluções completa na cadeia de valor industrial.

A que empresas se destina?
Os nossos clientes são maioritariamente empresas industriais.

“Temos uma oferta de serviços especificamente desenhada para start-ups com componente de produção. Abrange temas de desenho de operações industriais, bem como otimização de margem operacional através da engenharia simultânea de produto e processo (..)”.

Como pretendem apoiar as start-ups que procuram passar a fase de industrialização dos seus produtos?
Temos uma oferta de serviços especificamente desenhada para start-ups com componente de produção. Abrange temas de desenho de operações industriais, bem como otimização de margem operacional através da engenharia simultânea de produto e processo, e temas mais simples como liderança de chão de fábrica e melhoria contínua.

O que contribuiu para que Portugal fosse escolhido para acolher este serviço da Bosch?
A dimensão e variedade industrial do mercado ibérico foram importantes na definição desta localização como laboratório de teste para este novo negócio da Bosch no mundo.

Quais os projetos em que têm estado envolvidos através deste serviço?
A Bosch Industry Consulting tem trabalhado com empresas de setores industriais distintos. O setor da mobilidade e o setor dos bens de consumo representam uma parte significativa da nossa atividade. Fazemos projetos tão distintos quanto a experiência industrial de mais de 135 anos da Bosch. Desde a análise, definição e execução de projetos de digitalização de cadeias de valor até ao uso da tecnologia na otimização de operações diretas sempre com um cariz lean.

Sentiram os efeitos da pandemia?
Nos meses de março e abril a nossa atividade foi afetada pela impossibilidade de trabalhar com os nossos clientes, tendo em conta que a maioria fechou ou reduziu consideravelmente o tempo de trabalho. Desde maio que temos vindo a recuperar de forma sustentada e exemplo disso é o facto de setembro ter sido o melhor mês de sempre. Isto revela que estamos no caminho certo.  Os serviços que a Bosch Industry Consulting disponibiliza no mercado são únicos e muito importantes para o desenvolvimento inteligente do tecido industrial português. Como tal, temos já hoje sinais que 2021 será um ano de crescimento significativo, apesar do efeito negativo da pandemia.

Qual a previsão de faturação para este ano desta área de negócio da Bosch?
Como é natural, este ano vamos ficar abaixo do objetivo traçado inicialmente, mas muito em linha com os nossos clientes. Ainda assim, tendo em conta as circunstâncias deste ano tão atípico, o trabalho e os resultados são positivos.

“O tecido industrial português e espanhol tem necessidade e preocupações semelhantes. A conectividade das cadeias de valor é atualmente a questão chave que irá permitir colher os ganhos da inteligência artificial aplicada aos processos industriais”.

Quais as principais necessidades detetadas junto do tecido empresarial português e do espanhol?
O tecido industrial português e espanhol tem necessidade e preocupações semelhantes. A conectividade das cadeias de valor é atualmente a questão chave que irá permitir colher os ganhos da inteligência artificial aplicada aos processos industriais. Nesta altura há efetivamente uma consciência de que é necessário fazer algo mais do que projetos i4.0 isolados. É justamente aí que a Bosch Industry Consulting pode ajudar. Partilhamos as experiências de mais de 200 fábricas com distintos modelos produtivos e maturidades lean no mundo.

Qual o impacto que a pandemia pode ter no processo de transformação digital do setor da produção em Portugal?
Em 2020 teve um impacto positivo na necessidade de desenvolver sistemas que permitam o teletrabalho, mas a conetividade de pessoas é apenas um de vários aspetos da i4.0. A disrupção causada pela pandemia e a consequente focalização na liquidez e no resultado financeiro de 2020 não vieram de facto ajudar os projetos de investimento com prazos de retorno mais elevados como são tipicamente os projetos estratégicos de digitalização de operações. Conectar pessoas, máquinas e sistemas não trás por si só uma vantagem imediata, é necessário transformar dados em informação e esta em melhores decisões operacionais.

O caminho é bastante mais longo que, por exemplo, os prazos de retorno típicos dos nossos projetos de otimização de operações diretas Apesar de também utilizarmos tecnologia para agilizar o método de análise e registo, estes projetos têm um cariz marcadamente lean de observação, planeamento, execução e verificação. Utilizamos ferramentas relativamente simples, mas com um grau de excelência que não é atualmente equiparado em Portugal.

Quais são os desafios que as empresas portuguesas enfrentam atualmente?
As flutuações na procura decorrentes da pandemia têm gerado o caos nas mais variadas cadeias de valor. As necessidades de liquidez são agora mais importantes e estas acabam por ter um efeito negativo nas decisões de investimento com prazos de retorno mais alargados. O tema i4.0 surgiu no início da década passada e chegou a ser entendido como mais um “hype”. Uma moda que chegou e um dia passará. Na realidade hoje sabemos pelos setores mais avançados na IoT que o seu efeito, quando analisamos o setor como um todo, é globalmente negativo.

Parece estranho, mas na realidade há empresas que irão ganhar uma maior quota de mercado e irão ver um impacto muito positivo na margem operacional. Mas a maioria das empresas que não se preocupa ou se atrasa na conectividade digital irá sofrer uma forte erosão das vendas e resultados. No total, analisando o setor como um todo, o maior número de empresas “esquecidas” ou lentas na digitalização irá trazer a média do setor para valores de crescimento negativo. O desafio coloca-se infelizmente na negativa: quem não investir na conexão de pessoas, máquinas, sistemas e organizações da cadeia de valor não irá usufruir das vantagens que a inteligência artificial e o big data irão proporcionar, sofrendo nesse caso uma forte erosão da competitividade, vendas e resultado. Adiar investimentos na conectividade industrial é permitir que os concorrentes se tornem mais competitivos.

“O desenvolvimento de competências na área da digitalização e conectividade é um dos fatores mais importantes para nos mantermos competitivos e relevantes na indústria do século XXI. Só com essas competências seremos capazes de construir e operar sistemas produtivos verdadeiramente conectados e inteligentes”.

O mercado está cada vez mais global. As empresas portuguesas percebem a necessidade de se manterem competitivas?
Não tenho dúvida alguma que as empresas portuguesas percebem muito bem a necessidade de se manterem competitivas. O esforço de inovação é um exemplo disso e podemos dizer que temos resultados bons nessa área. Acrescentaria também que o contributo dos custos de mão-de-obra está cada vez mais claro que é importante, mas não é uma vantagem competitiva sustentável no médio prazo. Será sempre possível encontrar um país com menores custos de mão-de-obra.

O desenvolvimento de competências na área da digitalização e conectividade é um dos fatores mais importantes para nos mantermos competitivos e relevantes na indústria do século XXI. Só com essas competências seremos capazes de construir e operar sistemas produtivos verdadeiramente conectados e inteligentes. Também aqui a Bosch Industry Consulting cumpre a sua missão e oferece a única formação em operações industriais digitalizadas em Portugal. Desmistificamos a conexão entre o lean e os sistemas conectados de suporte às operações, tirando partido da tecnologia atualmente disponível para melhorar postos de trabalho, resolver problemas e otimizar fluxos de informação em toda a cadeia de valor.

Tendo em conta que Portugal regista muitas empresas de base familiar, muitas vezes mais avessas à mudança, como poderá a Bosch ajudar na transformação digital destas empresas?
Não classificaria as empresas familiares como sendo avessas à mudança de uma forma geral. De facto, até trabalhamos com algumas empresas familiares que são exemplo de inovação e vontade de mudar. Podemos talvez dizer que têm estilos de liderança característicos, mas não necessariamente avessos à mudança. Focando na pergunta, posso dizer que a Bosch tem todo o gosto em trabalhar com empresas industriais familiares cujos desafios beneficiem das nossas competências e experiência. O conteúdo e sequência de trabalho dependerá sempre das necessidades do nosso cliente mas tipicamente começamos por uma análise detalhada da cadeia de valor (fluxos de materiais, informação e ciclo de vida dos dados), elaboração de visão de operações industriais, definição da próxima condição objetivo, roadmap de subprojectos e depois, dependendo das especificidades de cada projeto poderemos ou não suportar o nosso cliente na execução e estabilização das mudanças planeadas.

Quais as tendências e soluções intralogisticas na automatização de armazéns convencionais e armazéns robotizados?
Preferimos pensar e tomar decisões de desenho das cadeias de valor não com base em tendências ou modas, mas sim através de estudos fundamentados e objetivos potencialmente suportados em simulações de fluxos de materiais e informação. Listar o uso de armazéns automáticos de caixas pequenas (vulgo AKL) como sendo preferencial ao armazenamento automático de paletes não faz muito sentido. Essa afirmação irá sempre depender das características da cadeia de valor que estamos a analisar. De facto, na caixa de ferramentas Bosch de desenho de operações industriais existe um método conhecido como scalling onde adequamos a estratégia de investimento em equipamento produtivo e logístico ao ciclo de vida dos produtos. É uma ferramenta muito poderosa que permite tomar decisões de forma objetiva e conhecendo o impacto nos principais KPIs de diferentes cenários intralogisticos de movimentação e armazenamento de materiais.

Quais as suas ambições enquanto responsável por esta área de negócio da Bosch?
A Bosch Industry Consulting irá continuar a sua missão de ajudar os nossos clientes a melhorar a sua competitividade. Prevemos crescer significativamente e estender esta oferta de serviços para outras regiões do globo. Além disso, ao cumprirmos a nossa missão de criar cadeias de valor ágeis, inteligentes e sem desperdício, estamos também a assegurar um uso mais racional de recursos. Mudamos não só as operações onde nos focamos, mas também impactamos positivamente todo o ecossistema que o rodeia.

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