A diversidade é, nos dias de hoje, uma necessidade absoluta das organizações e uma demonstração de competência e cumprimento dos critérios fundamentais de boa gestão: diversidade, precisa-se! Simples, só isso…

Num estudo realizado pela FCLTGlobal, dedicado aos factores de previsão de sucesso das empresas e investidores no longo prazo (“Predicting Long-term Success for Corporations and Investors Worldwide”, FCLTGlobal, September 2019), a diversidade de género ao nível das administrações das empresas é apontada como um dos factores claramente identificáveis como potenciador da criação de valor para as empresas, expresso pelo indicador de Retorno sobre o Capital Investido (ROIC – Return On Invested Capital).

Segundo esse estudo, esse factor, traduzido na percentagem de elementos femininos nas administrações das empresas, tem um peso de 8% na explicação da obtenção de um ROIC superior. Este poder de explicação é idêntico ao da diferenciação gerada pelo atingimento de níveis superiores de crescimento das vendas, só superado pelo grau de investimento em activos fixos (17%) e pelo incremento do investimento em R&D (12%).

Se a governança das organizações é comum e plenamente entendida como fundamental para o seu sucesso, assegurar a correta composição dos seus conselhos é um primeiro passo para o conseguir. Mais ainda quando sabemos que existem factores estudados e demonstrados que, se considerados, são um catalizador de desempenhos distintivos. A diversidade é um deles (sendo que a diversidade de género é uma, mas não a única das suas múltiplas expressões), pelo seu potencial direto de criatividade e disrupção inovadora, de recrutamento de talento diferenciador, complementar e independente, de aquisição de novas experiências e formas de abordar os temas.

Indiretamente, uma composição diversificada dos conselhos, órgãos diretivos e de gestão, dá às próprias organizações e ao mercado sinais afirmativos de competência, inclusão e produtividade num contexto de normalidade cultural. Em si mesma, esta dinâmica de normalidade da diversidade é factor de atratividade de talento, transmitindo uma mensagem de ambiente seguro, de estímulo e valorização do contributo. Já no que diz respeito aos acionistas e investidores, uma organização caracterizada pela normalidade da diversidade é geralmente entendida como um sinal de competência e maturidade da gestão, com consequências evidentes na transmissão de confiança no investimento.

Uma diversidade estritamente forçada por contextos normativos e regulatórios é parca no seu poder de criação de valor porque, sendo limitada ao cumprimento de uma obrigação, não explora nem aproveita eficazmente as capacidades disponibilizadas. Ainda assim, a experiência vivida demonstra que, para acelerar o processo de mudança, vencer as resistências, o conforto e defesas instaladas, é fundamental a existência de um quadro regulatório e normativo dessa realidade, seguido e coordenado por um sistema dinâmico de reforço e garantia da sua implementação.

No nosso caso, mais do que de normas, precisamos de reforço positivo do seu cumprimento, da monitorização e interpretação interessada dos resultados, seguidas de uma empenhada divulgação que leve, no longo prazo, ao aligeiramento do quadro normativo por excesso contextual e, nalguns casos (como no das quotas), à eliminação de imposições pela sua não necessidade.

Num contexto de limitação de recursos, a não utilização dos melhores meios disponíveis, com um valor de acesso cujo diferencial comparativo é inexistente ou quase nulo, é um desperdício e, do ponto de vista da governance, uma quebra do mais elementar dever de zelo e defesa dos superiores interesses da organização e dos seus stakeholders.

Simples, só isso…


Ana Paula Reis é, desde junho de 2018, membro do Conselho de Administração e do Comité Executivo da Bynd Venture Capital SCR. É ainda administradora não-executiva de três empresas na área do Real Estate, presidente do Comité de Investimento da Startup Discoveries e presidente do Conselho Consultivo de uma média empresa do setor alimentar.

Foi cofundadora do Grupo SelPlus/Seldata, operando nas áreas de marketing, vendas e tecnologia que, com início em 2002, vendeu em 2017 à Advantge Smollan Ltd., uma joint venture entre a Advantage Solutions (EUA) e o Grupo Smollan (África do Sul).

Desenvolveu uma carreira corporativa durante 12 anos, 10 dos quais em diversas funções de direção de primeira linha em Portugal e Espanha, em empresas do Grupo Mars Incorporated, tendo-lhes sucedido cerca de dois anos como directora de Marketing e Vendas do forumB2B.com. É licenciada em Organização e Gestão de Empresas, pelo ISCTE, possui um MBA, pelo IESE Business School. Em 2017 efetuou o Women on Boards – Succeeding as a Corporate Director Program, da Harvard Business School.

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