“O nosso planeta é constituído maioritariamente por oceanos e a morte deles será a nossa, pelo que temos de agir agora”. A afirmação é de Jeroen Van de Waal, cofundador e CEO da The Reef Company, empresa que decidiu tirar partido da tecnologia para ajudar a natureza e, no fundo, o homem! Portugal foi o país escolhido para o arranque do projeto.

A empresa ainda é jovem, nasceu em 2021, mas o desafio é ambicioso e a causa nobre: ajudar a regenerar a biodiversidade e absorver as emissões de carbono. Este é core da The Reef Company que vai avançar com os primeiros projetos na Comporta, em Cascais e na Madeira.

Jeroen Van de Waal lembra que “todos sabem que o nosso planeta caminha para uma situação alarmante e sem retorno, pelo que, mais que nunca, é importante reunir esforços para pensar em formas de o salvar”. Por isso, a empresa decidiu tirar partido das tecnologias emergentes para poder ajudar a natureza, a começar pelos oceanos.

O fundador da The Reef Company salienta que “há uma consciencialização e uma responsabilização cada vez maior por parte de todas as entidades para esta causa, mas ainda há um longo caminho a percorrer! Temos de colaborar todos para poder reverter em tempo recorde um problema que tem vindo a ser alimentado há anos”, afirma. Contudo, acredita também que “a resolução destes problemas começa com a educação da sociedade na temática da sustentabilidade”. Como costuma dizer o mais importante de tudo é agir: “stop talking, and start doing”.

Anunciaram recentemente a criação de uma rede inteligente de recifes para restaurar habitats e Portugal como um dos países de arranque da iniciativa. Em que consiste exatamente este projeto e porquê Portugal?
O projeto da The Reef Company assenta em colocar a tecnologia ao serviço dos oceanos, através da construção e implementação de eco recifes por todo o mundo, responsáveis por impactar positivamente a saúde dos oceanos.

Funcionado com uma espécie de “apartamentos para animais e plantas”, estes eco recifes serão incubadores de vida ao apoiar o crescimento da fauna e flora marinha, o sequestro de carbono, o rejuvenescimento de habitats e servirão como fonte de rendimento, subsistência e alimento para a comunidade local. Esta missão começa em Portugal, o “país à beira-mar plantado”. Onde outrora existiam extensas pradarias marinhas cheias de vida, hoje encontramos desertos debaixo de água. Não há falta de motivos para começar um projeto aqui.

Que ambições de expansão têm para esta iniciativa?
Cada implementação numa nova localização iniciar-se-á com uma fase de projeto-piloto. Durante a fase piloto temos como principal objetivo a testagem de várias morfologias, composições, tamanhos e disposição dos diversos módulos recifais e de novas tecnologias que tenham sido desenvolvidas por nós e/ou pelos nossos parceiros a fim de compreendermos quais são as soluções mais eficazes e adequadas para aquele local em específico. A partir daí, desenhamos um plano de expansão e comercialização do recife. A nossa visão de longo-prazo, é ter centenas de milhares de recifes implementados a nível mundial para verdadeiramente combatermos as alterações climáticas, restabelecendo o equilíbrio dos oceanos.

Como define a solução proposta pela The Reef Company?
A proposta da The Reef Company assenta em dois modelos tecnológicos que irão permitir ultrapassar três dos principais desafios que enfrentamos atualmente: a perda da biodiversidade, as alterações climáticas e a desigualdade socioeconómica.

Os eco recifes têm como objetivo criar a maior superfície de crescimento possível, bem como oferecer abrigo para a vida marinha, podendo também contribuir para a melhoria da resiliência costeira. É importante salientar que todos os materiais utilizados são de impacto de baixo carbono, consistindo num geopolímero de baixo impacto carbónico, fabricado localmente, o mais próximo possível dos locais de implantação. Os nossos eco recifes são equipados com o nosso aparelho “BluBoxx”, responsável por recolher, gravar e analisar uma série de dados marítimos.

Estes dados serão essenciais para tirar conclusões e tomar decisões estratégicas, tornando estes aparelhos essenciais para garantir que estamos no rumo certo. Os dados obtidos servirão como ponto de partida para uma série de aplicações em todo o mundo, sendo útil, por exemplo, para as indústrias de alimentos e agricultura, para o turismo, a resiliência costeira, a bio e tecnologia médica, a investigação científica e académica, entre outras.

“O nosso planeta é constituído maioritariamente por oceanos e a morte deles será a nossa, pelo que temos de agir agora”.

Como é que teve a ideia de criar a The Reef Company? O que o motivou?
Sou apaixonado pelo mar e pelos oceanos desde sempre. Lembro-me de ter cinco anos e de ver, através da televisão, as expedições que eram feitas nos oceanos. Na altura, ficava completamente fascinado com as imagens e a vontade era a de mergulhar, de navegar e descobrir o que as águas profundas escondiam.

Mais tarde, quando comecei a trabalhar na indústria da engenharia mecânica, onde desenvolvi equipamentos para a exploração de combustíveis, tive a oportunidade de ver muita da beleza da natureza, mas, infelizmente, também vi muita devastação. A certo ponto, comecei a questionar-me até quando esta situação de devastação iria continuar e porque é que continuaria a contribuir para isso. Assim, decidi que precisava de fazer alguma coisa que pudesse minimizar os impactos negativos que a natureza sofre e foi assim que The Reef Company surgiu. O nosso planeta é constituído maioritariamente por oceanos e a morte deles será a nossa, pelo que temos de agir agora.

Qual o impacto que gostaria que a vossa solução tivesse na sustentabilidade dos oceanos e na economia azul?
A The Reef Company nasceu para salvar os oceanos e conseguir ajudar a reverter a situação de devastação que a natureza enfrenta. Idealmente, a melhor forma de o fazer seria através de soluções naturais, mas infelizmente, isso nunca será 100% possível. Assim, decidimos tirar partido das tecnologias emergentes para poder ajudar a natureza e começar pelos oceanos, onde o flagelo é alarmante.

A nossa solução terá um impacto muito positivo na sustentabilidade dos oceanos e na economia azul pois irá permitir absorver dióxido de carbono, gerar oxigénio e devolver a vida aos oceanos. Ora, devolver a vida aos oceanos é tudo o que precisamos para garantir a nossa. Assim, o impacto que gostaríamos de ter é exatamente esse: o de assegurar um futuro sustentável para o planeta e para quem nele habita.

Qual o modelo de negócio da The Reef Company? Quem são os vossos clientes?
O nosso modelo de negócio baseia-se na comercialização de dados e de créditos de carbono. Os dados recolhidos têm valor para uma série de finalidades na área da agricultura, da aquacultura, do turismo, da proteção costeira, das novas tecnologias biológicas e médicas, da investigação científica e académica.

Os recifes, por sua vez, ao acelerarem o crescimento de fauna e flora marinha, tornam-se ativos interessantes para empresas, por exemplo, numa ótica de investimento circular ou para contrabalançar emissões de dióxido de carbono. O que muitas pessoas não sabem é que os oceanos são o maior sumidouro de carbono do planeta Terra, absorvendo cerca de 30% das emissões e que a flora marinha tem uma capacidade de sequestração de carbono cerca de 10 a 12 vezes superiores à das florestas tropicais.

” Infelizmente, já não conseguimos salvar o planeta só com opções naturais e por isso há que tirar o melhor partido das inovações tecnológicas desenvolvidas pelo Homem para reverter a situação”.

A evolução industrial e tecnológica tem contribuído para a degradação do meio ambiente, como é exemplo a indústria dos plásticos. Cabe agora à tecnologia fazer o inverso? “Salvar o planeta”?
Sem dúvida! Infelizmente, já não conseguimos salvar o planeta só com opções naturais e por isso há que tirar o melhor partido das inovações tecnológicas desenvolvidas pelo Homem para reverter a situação. No caso da The Reef Company, estamos a utilizar conhecimento e tecnologias provenientes das indústrias do petróleo e gás natural para o bem dos oceanos. Em colaboração com os nossos parceiros estamos também a criar tecnologias pioneiras que poderão ser adaptadas e adotadas por outras indústrias.

Qual o papel que a inovação tecnológica e o empreendedorismo das start-ups pode desempenhar nesta cadeia de preservação da biodiversidade e do meio ambiente?
A inovação tecnológica e o empreendedorismo podem ter o papel principal no que diz respeito à preservação da biodiversidade e do meio ambiente. É preciso repensar a forma como realizamos investimentos e garantir que os fazemos da forma certa, a pensar no bem a longo prazo. Ora, todas estas novas soluções são investimentos no nosso futuro.

A inovação tecnológica irá permitir recolher os dados que precisamos para trazer conclusões e tomar decisões, além de poder ajudar a restaurar a biodiversidade e a salvar a economia. A grande maioria da população vive dos bens que os oceanos nos dão e por isso está na hora de retribuir. Só com boas soluções, bons investimentos e muita consciência e vontade humana é que poderemos ser bem-sucedidos nesta missão.

“Todos sabem que o nosso planeta caminha para uma situação alarmante e sem retorno, pelo que, mais que nunca, é importante reunir esforços para pensar em formas de o salvar”.

O que é que eventos como a Conferência dos Oceanos podem efetivamente fazer pela preservação e defesa deste património ambiental mundial?
Eventos como a Conferência dos Oceanos são absolutamente cruciais para nos obrigar a todos a parar, refletir e a pensar em soluções em conjunto. Todos sabem que o nosso planeta caminha para uma situação alarmante e sem retorno, pelo que, mais que nunca, é importante reunir esforços para pensar em formas de o salvar.

A Conferências dos Oceanos é exemplo de um evento onde podemos estabelecer contactos, discutir soluções e decidir os próximos passos e, por isso, foi uma mais-valia para nós enquanto empreendedores da economia azul e enquanto cidadãos comuns preocupados com a preservação e defesa dos oceanos.

Quais são na sua opinião os maiores desafios que sustentabilidade e preservação que o século 21 enfrenta?
Segundo as Nações Unidas, as alterações climáticas, a destruição de habitats e a perda de biodiversidade e a desigualdade socioeconómica são dos principais problemas que o mundo enfrenta. Acredito que a resolução destes problemas começa com a educação da sociedade na temática da sustentabilidade.

Esta educação a nível mundial (ainda inexistente) é o que nos permitirá valorizar o capital natural, como as florestas tropicais, as pradarias marinhas e os recifes. Esta educação é também o que influenciará a mudança de mentalidade nos governos, nas empresas, nas instituições financeiras, para uma visão de longo prazo que tenha a sustentabilidade no seu centro e que terá um impacto positivo nas gerações futuras.

Temos também que ultrapassar o problema da falta de financiamento na área e, para isso, é necessário mudar a forma como avaliamos investimentos em termos de risco e de retorno financeiro, olhando para o impacto gerado pelos mesmos como uma das principais métricas de avaliação. Por fim, sabendo que estamos numa corrida contra o tempo, precisamos de desenvolver soluções e modelos de negócio escaláveis, enquanto trabalhamos em colaboração com parceiros que aceleram essa escalabilidade.

As empresas, os governos, as entidades oficiais… já estão mobilizados para esta causa? O que falta fazer?
Há uma consciencialização e uma responsabilização cada vez maior por parte de todas as entidades para esta causa, mas ainda há um longo caminho a percorrer! Temos de colaborar todos para poder reverter em tempo recorde um problema que tem vindo a ser alimentado há anos. Não nos resta muito tempo e, por isso, todas as ideias que ajudem a salvar os nossos oceanos são bem-vindas! Como eu costumo dizer, o mais importante de tudo é agir: “stop talking, and start doing”.

A The Reef Company está presente na Holanda, Portugal e Singapura. Até onde ambicionam chegar?
Queremos chegar a todo o mundo! Para conseguirmos impactar verdadeiramente as alterações climáticas precisamos de escalabilidade e rapidez. As soluções, o modelo de negócios e as parcerias que estamos a desenvolver têm sempre em vista essas duas necessidades. Após esta fase piloto, pretendemos expandir e implementar a nossa tecnologia em todos os continentes.

Quais os projetos em agenda para o desenvolvimento da vossa solução?
Temos três projetos em território português: na Comporta, em Cascais e na Madeira. Os projetos da Comporta e de Cascais estão neste momento a transitar da fase de planeamento para a fase de implementação. O projeto da Madeira ainda se encontra em fase de planeamento com as entidades locais, assim como outros dois projetos que iremos desenvolver na Malásia. Para além destes, já recebemos demonstrações de interesse do Brasil, da Costa Rica e do Médio Oriente, que são possibilidades para futuras implementações.

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