O tema tem um nome pouco conhecido: cobertura ou encobrimento. No inglês “covering”. De que se trata, afinal? Simples e todos já o fizemos, provavelmente. Quer de um lado, quer de outro.

Significa ocultar uma parte de nós por receio de não sermos aceites no grupo – ou, se visto do outro lado, significa quando de forma direta ou indireta menosprezamos os traços próprios fora da norma e com isso levamos alguém a ocultá-los: representações de etnia através do vestuário, jeitos da fala como o sotaque, afiliações religiosas, pertenças a um país ou região, até a comida que trazemos para o trabalho…

São apenas alguns exemplos. Mas há mais.
O tema não é aqui tratado porque nos referimos ao contexto social de amigos de fim de semana, mas porque é um tema a refletir e tratar também no ambiente do trabalho.

Talvez nos pareça pouco problemático, num planeta com tamanhos problemas a precisarem ser resolvidos. Mas o encobrimento está na génese de grande parte dos desafios que atualmente debatemos: aceitação do outro, respeito pelo outro. Não quer com isto dizer que não poderemos mais fazer piadas sobre ingleses e franceses e alentejanos. Brinquemos, pois. Mas não gozemos. Sobretudo não de forma séria e recorrentemente.

Num ambiente de trabalho poderemos não notar, mas obrigar ao comportamento normalizado é um ato que força o encobrimento e nega a auto-expressão de cada colaborador. Nada que aqui se refira às normas de conduta éticas e respeitantes ao trabalho executado na empresa. Falamos da piada fácil sobre o piercing, sobre o sotaque do colega, da roupa “assim” que traz, da comida que é daquele país, etc. Às vezes até o fazemos em jeito de brincadeira. Até queremos potenciar a inclusão. O problema é quando a brincadeira volta muleta e a anotação é frequente. O rótulo instala-se e do outro lado a vergonha aparece e com ela o encobrimento.

Quando menos esperamos, estamos a anular o que de melhor o nosso colega tem: a sua individualidade, a sua capacidade ser ele mesmo, de com isso contribuir com ideias suas, próprias, não receando afirmar-se e intervir com opinião própria, sem medos e receios por ser “assim”. Como resultado do encobrimento o que obtemos é a mudez. E sinceramente nunca vi grandes ideias aparecerem numa reunião em que são sempre os mesmos a falar…

Talvez esse seja, afinal, o sucesso de porque as pessoas passam tanto tempo online. Basta ver os nossos filhos, e a liberdade com que escolhem avatars num mesmo jogo ou rede social – hoje são alienígenas cor-de-rosa, amanhã seres magros e altos, depois disso baixos e gordos, de barba ou sem ela, uma foto distorcida e cómica e depois disso uma realista, a preto e branco amanhã e depois uma misteriosa… o que importa é libertar a autoexpressão. Refletem que sentem. É uma aprendizagem, até. Podem com isso ver-se de várias formas e ninguém os critica por estarem assim.

Poder ser quem efetivamente somos talvez seja um luxo. O que é estranho, quando deveria ser o normal. Mas não raras vezes o normal é acharmos ter de encaixar em rótulos e por isso olhamo-nos ao espelho e rotulamo-nos antes de sair de casa, pensando qual a melhor etiqueta para pormos em nós mesmos para sermos aceites. Como dizem os ingleses, ficarmos “blended”. Com isso anulamos o melhor de cada um. Mas obtemos uma massa homogénea coerente, sem dúvida. Fica bem nas fotos.

Este é um tema pouco debatido nas empresas, creio, embora seja sentido por milhões todos os dias. Um ambiente tolerante e de abertura de espírito onde cada um possa apresentar-se como é, sem disfarçar sotaques, estilos de vida, roupa, comida, a música que ouve, a religião que pratica, o tipo de séries que vê… Talvez por isso alguns digam que gostam do seu trabalho e ao invés outros digam ao sair dele que tiveram um dia duro. Se pensarmos bem o trabalho é trabalho e nunca é isso que é particularmente difícil, é sempre mais aqueles com quem trabalhamos que podem sê-lo.

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Ricardo Tomé é Diretor-Coordenador da Media Capital Digital, empresa do grupo que gere a estratégia e operação interativa para as várias marcas – TVI, TVI24, IOL, MaisFutebol, AutoPortal, etc. – com foco especial na área mobile (Rising Star, MasterChef, SecretStory)... Ler Mais