Diz-se que decisões de gestão devem ser tomadas mais com a razão do que com a emoção – algumas, todavia, carecem de uma boa dose de inspiração ou intuição, mesmo que suportadas por fatos ou informações concretas.

Sempre gostei de escrever. Desde os meus tempos de infância que me lembro de gostar de o fazer. Aprecio a liberdade (de expressão) que a escrita me confere, do privilégio de poder comunicar quando, como e sobre o que me apetece, sem filtros e à minha maneira, sem qualquer regularidade pré-definida e sem pretensão de agradar a alguém, mas apenas de desfrutar de algo que gosto genuinamente de fazer.

Quem acompanha os meus textos sabe que gosto de recorrer a acontecimentos e experiências que a vida me vai proporcionando para, a partir daí, desenvolver lições ou perceções que considero serem úteis a outros, mesmo que em contextos distintos daqueles em que eu os vivenciei. É por isso que quando, um dia, perdi o meu emprego, a minha pequena filha foi sujeita a uma complexa cirurgia ao coração, ou me mudei com a minha família para o Brasil, procurei, em cada uma dessas (e de outras) situações, interpretar os respetivos ensinamentos e relacioná-los com aspetos práticos do quotidiano das pessoas ou das organizações.

Procuro, através da escrita, partilhar ideias, pensamentos ou sentimentos, de forma genuína, simples e despretensiosa. Como um artista – que não sou – faz em relação às suas obras de arte, apenas dou um texto por concluído quando sinto que o mesmo “está no ponto”, i.e., que representa fielmente aquilo que pretendo efetivamente transmitir. Por vezes, tal “ponto” é atingido rapidamente, noutras nem tanto, dependendo do nível de inspiração.

Quando fui desafiado para colaborar com o Link To Leaders, o que, diga-se, muito me agradou, coloquei-me, pela primeira vez, na situação de ter de criar e redigir textos de forma algo condicionada, no que respeita, entenda-se, à sua periodicidade, dimensão ou temas, idealmente relacionados com os conteúdos que ali são habitualmente veiculados.

O exercício da escrita, como outros, exige inspiração e intuição e há dias em que a nossa mente parece ser inundada de ideias ou pensamentos. Há outros, porém, que são um autêntico deserto de ideias, fruto do eventual cansaço ou saturação, ou, quiçá, da mera incapacidade em desfocar dos assuntos que ocupam ou invadem a nossa mente.

Ora, no âmbito da nossa atividade profissional, somos chamados, com maior ou menor regularidade, a participar em processos, mais ou menos complexos, de tomada de decisão – em alguns casos com o peso da responsabilidade acrescida de termos a “última palavra” e, não raramente, dessas decisões poderem impactar de forma significativa a vida das organizações e, por conseguinte, das pessoas que nelas trabalham ou delas possam depender.

Tomar decisões com informação limitada e em prazos aleatórios e não necessariamente alinhados com momentos de inspiração ou intuição constitui um fator de pressão a que gestores e líderes de organizações estão sujeitos. Costuma dizer-se que “dormir sobre um assunto” ajuda a clarificar as nossas dúvidas ou indecisões, mas nem sempre isso é possível ou aplicável.

Dir-me-ão que decisões de gestão devem ser tomadas primordialmente com a razão, com base na análise de fatos concretos, em detrimento da emoção, mormente assente na intuição ou inspiração, e sendo isso verdade na maioria das situações, não o é em todas. Há, efetivamente, decisões de natureza pessoal ou profissional que têm de ser tomadas com recurso a uma boa dose de inspiração ou intuição, mesmo que devidamente suportadas, se e quando disponíveis, com dados ou informações relevantes para o efeito.

Por exemplo, aquando da minha mudança para o Brasil, por muita informação que tivesse – e tinha – na minha posse, a intuição foi crucial para essa tomada de decisão. O mesmo sucedeu nas várias transições ocorridas ao longo da minha carreira ou em determinadas decisões pessoais ou familiares. Nem sempre a intuição me conduziu pelo melhor caminho, ou pelo mais fácil, mas foi seguramente de grande utilidade na larga maioria das vezes.

Inspiração e intuição têm sido parte integrante dos meus processos de tomada decisão, não necessariamente como “o” fator decisório, mas antes como uma espécie de pêndulo na construção, por vezes complexa, da minha opinião ou posição sobre um determinado assunto ou decisão. E você, caro leitor, também intui nas suas decisões?

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Sobre o autor

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Tiago Rodrigues conta com mais de dez anos em funções executivas e de gestão em empresas de energia, infraestrutura, turismo e imobiliário e oito anos como consultor, tendo experiência de vida, profissional e académica em Portugal, Brasil, Reino Unido e... Ler Mais