Terminou o curso de arquitetura no Porto e decidiu ir para o Brasil, onde estudou e trabalhou. Mas regressou a Portugal para fundar, com mais dois sócios, a Mass Lab. Recentemente foi nomeado Cônsul Honorário da Turquia, no Porto, e prepara-se para lançar uma empresa ligada à alimentação saudável. Conheça a história de Diogo de Sousa Rocha que tem 33 anos, mas uma mão cheia de projetos.

Depois de trabalhar na Direção Regional de Cultura do Norte e em outras empresas portuguesas e no estrangeiro, nomeadamente no Brasil, Diogo de Sousa Rocha decidiu cofundar, em 2014, a Mass Lab, um gabinete de arquitetura e urbanismo, que conta já no seu portefólio com projetos nacionais e internacionais, como o que estão a desenvolver em Loures, e que apresenta um sistema inovador de habitação por subscrição, ou outro nas Ilhas Faroé.

O jovem de 33 anos divide o seu dia a dia entre a gestão do negócio, a prática da arquitetura e, desde o ano passado, a função de Cônsul Honorário da Turquia, um convite que lhe foi endereçado pelo trabalho que tem realizado na promoção das relações culturais e económicas entre aquele país e Portugal. Mas promete não ficar por aqui: até ao final do ano tem nos seus planos lançar uma empresa, no âmbito do MBA que está a frequentar atualmente na Porto Business School.

Como surgiu a ideia de criar a Mass Lab?
A Mass Lab é uma história um pouco romântica. Somos três sócios, acabámos o curso e, na altura, há seis, sete anos, emigrar era uma questão natural. Todos estudámos arquitetura e conhecemo-nos na faculdade. A determinada altura, apesar do panorama económico não estar grande coisa, achámos romântico voltar e tentar a nossa sorte, e constituímos a empresa. Confesso que hoje, olhando para trás, não pensámos na dimensão do desafio. Havia sim mais coragem do que discernimento. Eu estava a trabalhar no Brasil e despedi-me. Um dos outros sócios estava na Dinamarca e outro na Holanda. Regressámos a Portugal e começámos o nosso escritório no Porto

Tivemos a felicidade de passados seis meses – e num dos momentos de maior stress financeiro porque não tínhamos trabalho nenhum –, conseguirmos ganhar um concurso internacional nas Ilhas Faroé que nos deu um boost financeiro e de confiança para continuar. Este concurso permitiu-nos também abrir horizontes, porque começámos a olhar não só para Portugal, mas para o mundo enquanto arquitetos. Começámos a investir na Escandinávia. Atualmente o nossos escritório trabalha essencialmente em Portugal, mas também tem uma grande componente na Escandinávia, com foco na Finlândia.

“Estamos a desenhar um sistema de casas por subscrição, em Ponte de Lousa, Loures. É um projeto que tem 55 casas, zonas de comércio, vai ter coworks, vai proporcionar uma nova forma de estar e depois tem um modelo de casa por subscrição (…)”.

Em que é que consiste o vosso trabalho?
Fazemos muitas coisas, desde edifícios a planos urbanos. Temos um gosto especial por planos urbanos porque obriga-nos a um pensamento mais disruptivo, tendo em conta novos modelos de viver. Estamos, por exemplo, a desenvolver na Finlândia a nova cidade aeroporto em Helsínquia e a repensar toda a envolvente. É um projeto que nos interessa muito.

Ao mesmo tempo também estamos cá, em Portugal. Estamos a desenhar um sistema de casas por subscrição, em Ponte de Lousa, Loures. É um projeto que tem 55 casas, zonas de comércio, vai ter coworks, vai proporcionar uma nova forma de estar e depois tem um modelo de casa por subscrição que, no fundo, agrega um conjunto de serviços e que nos permite ampliar ou diminuir as casas, diminuir ou aumentar as rendas consoante as necessidades de cada pessoa. Contamos em setembro entregar o projeto final e depois a abertura está prevista para 2022/2023.

Como carateriza o tipo de projetos que desenvolvem no gabinete?
Não somos um atelier de projetos, mas sim um atelier de ideias e de valor, ou seja, um cliente quando vem ter connosco nunca nos procura porque quer um projeto convencional. Estamos a fazer em Matosinhos um coliving com um modelo de propriedade a partir do qual as pessoas podem progressivamente aceder ao ownership do seu apartamento. Este cliente quando chegou até nós queria fazer um hotel e acabou com um coliving. Isto tem a ver com a nossa forma de pensar e também porque pomos em causa um pouco de tudo. Muitas vezes, as pessoas querem o que só conhecem e nós tentamos desconstruir essas ideias através de um processo que desenvolvemos e com muita ligação com o design thinking que coloca em causa todos os pressupostos.

Como é que dão a conhecer a Mass Lab? São os clientes que chegam a vocês?
Temos três formas: uma que gostávamos; a segunda a que acontece e a terceira a que nos esforçamos para que aconteça. A que acontece nos projetos em Portugal é que os clientes chegam até nós, ou seja, entre o passa a palavra e as nossas relações pessoais conseguimos chegar aos clientes. À medida que o escritório vai crescendo – tem cerca de cinco anos -, este processo vai mudando. O que tem acontecido é que temos ganho alguma reputação e, com a ajuda de alguns players mais institucionais, o nome vai passando e conseguimos ter uma espécie de crescimento natural.

Depois temos também os concursos públicos abertos – pelos quais temos uma paixão muito grande – e que nos dão acesso a trabalhos como aquele que estamos a desenvolver na Escandinávia e que agora estamos, por exemplo, a tentar na Alemanha. São concursos muito arriscados porque obrigam a um investimento muito grande, ou seja, temos basicamente de desenvolver um conceito sem ter a certeza se vamos ser pagos por ele. A melhor ideia ganha, mas ao mesmo tempo como é um concurso a ambição fica muito elevada e temos de rasgar padrões para podermos ganhar. E é por isso que gostamos muito. Há dois anos ganhámos cinco, no ano passado ganhámos dois. Os concursos permitem-nos, além de conquistar encomenda, construir o escritório, a reputação.

“Mas para mim o projeto mais especial de todos é o da Finlândia, o Aviapolis, a cidade aeroporto que nos deu projeção no país. Eu pessoalmente descobri com este projeto o que realmente gosto de fazer”.

Desde que está à frente da Mass Lab, qual o projeto que mais o marcou até hoje?
O primeiro que ganhámos das Ilhas Faroé, entre a Noruega e a Islândia, teve importância. Tem uma paisagem muito semelhante à Islândia, um local muito remoto, frio, ventoso, as condições de vida lá são bastante duras. Participámos no concurso que consistia na construção de 40 habitações e depois ganhámos, e passámos a visitar o sítio. Na altura até nos inspirámos – porque era um terreno muito rochoso – numa construção do Minho, os espigueiros. Este projeto deu-nos o boost inicial que precisávamos.

Mas para mim o projeto mais especial de todos é o da Finlândia, o Aviapolis, a cidade aeroporto que nos deu projeção no país. Eu pessoalmente descobri com este projeto o que realmente gosto de fazer. Os planos urbanos têm um impacto monumental, por exemplo, estamos a falar de 250 mil m2, de estratégias para fixar pessoas, de misturar uma espécie de soft skills da arquitetura com o ambiente construído, onde há relações que não são propriamente evidentes. E este tipo de construção levanta questões: Como é que se constrói num sítio onde não existe nada e se cria autenticidade? Como se cria sentido de pertença num sítio onde ninguém pertence? São tudo questões que se cruzam com a arquitetura e que nos entusiasmam.

Como é que um gabinete português chega lá fora e ganha concursos?
Temos tido muitas dificuldades lá fora. Ganhamos os concursos que são transparentes e anónimos, mas a verdade é que sentimos algum preconceito relativamente à nossa origem. A ideia de que somos todos europeus é verdade até certo ponto. A  Europa do Sul ainda gera desconfiança nos países da Europa do Norte. O nosso método de trabalho implica uma grande componente de investigação e desenvolvimento. E nós não projetamos lá fora como projetamos cá, mas adaptamos o que fazemos, as ideias e os modelos. E temos uma vantagem de virmos de fora, ou seja, quem vem de fora vê as coisas com maior clareza. E é também uma questão de ambição, vontade e de muita dedicação.

De que forma a arquitetura e o urbanismo podem criar um impacto positivo na realidade que nos rodeia? Eu acredito que criam impacto positivo. A pandemia tem “piada” porque as pessoas voltaram a olhar para a casa de forma diferente e passaram a perceber a importância do espaço exterior, da relação interior e exterior, passaram a perceber o cuidado que dão ao seu próprio espaço doméstico e o impacto que as nossas casas têm na nossa felicidade. Do ponto de vista urbanístico, o impacto ainda é maior porque põe em confronto a vida de uns e de outros.

Quando apanhamos trânsito, achamos que é por estar muita gente na rua, mas é porque não há planeamento, a questão da poluição nos centros urbanos surge, mais uma vez, porque o planeamento foi mal feito. Há vias saturadas e há sítios completamente densos de comércio e serviços que obrigam as pessoas a deslocarem-se do ponto A para o ponto B, ao invés de haver uma distribuição mais homogénea. Tudo isto tem implicações.

Estudou no Porto e depois em São Paulo. De que forma a sua formação académica em geografias distintas o ajudou a ser quem é hoje?
Ajudou-me muito. A escola do Porto é uma espécie de casa, aquilo a que chamo de alicerces, é uma escola que ensina hoje provavelmente como ensinava há 10 anos e digo isto no bom sentido do conservadorismo. Há ali uma base estrutural que, mais do que formar técnicos, forma indivíduos e isso é importante porque, no fundo, formaram-me como pessoa com vontade de aprender e com ambição. Quanto à ida para São Paulo, a escola também era ótima, mas acima de tudo foi uma espécie de processo de libertação, pois facilmente percebemos que podemos estar em qualquer lado.

Foi recentemente nomeado Cônsul Honorário da Turquia, no Porto. A que se deve esta nomeação?
Esta nomeação é o resultado de uma forma de estar. A minha família tem algumas relações diplomáticas e num evento diplomático conheci a antiga embaixadora da Turquia em Portugal e criámos uma relação de afinidade grande. Quando faziam eventos no Porto eu tinha a oportunidade de ajudar ou, pelo menos, de facilitar algumas coisas burocráticas que eles precisavam de ver resolvidas. Quando mudou a embaixadora para a atual, esta última queria ter um ponto de contacto real no Porto e queria formalizar a relação, pelo que me fez o convite.

“Basicamente sou um elo de contacto nas relações comerciais entre os dois países, o que pode envolver desde grande grupos económicos, como ajudar um estudante turco a resolver um problema com um visto”.

O que pensa fazer para promover as sinergias entre Porto e a Turquia?
Basicamente sou um elo de contacto nas relações comerciais entre os dois países, o que pode envolver desde grande grupos económicos, até ajudar um estudante turco a resolver um problema com um visto. Temos já algumas iniciativas pensadas para implementar, mas com a pandemia não temos tipo oportunidade. Além dos eventos para promover a cultura turca no Porto, em junho estarei de visita à Turquia para estabelecer algumas relações bilaterais e de contacto.

O potencial industrial da Turquia é enorme e as relações bilaterais entre Portugal e a Turquia podem ser um bom ponto de contacto para o resto da Europa. Estamos a falar de poder ter produtos fabricados por Portugal e pela Turquia a entrarem na Europa via Portugal, ao invés de outro país. A minha intenção agora é, nos próximos anos, conseguir que todas as empresas portuguesas que têm interesse nestas relações possam participar e possam ter um contacto mais facilitado entre os dois países. Só para ter uma ideia: a Livraria Lello produz os seus livros na Turquia e os portos em Portugal são concessionados por empresas turcas. Queremos com os eventos que iremos organizar mostrar às empresas o potencial que existe numa cooperação turco-portuguesa.

Como se concilia a vida de empreendedor/arquiteto com a de diplomata?
Acho que está a ser mais difícil – porque está a chegar ao fim – terminar o MBA do que a parte diplomática. O curso obriga a um compromisso muito grande. Eu sou uma pessoa de pessoas. Tem sido uma descoberta incrível. Eu sempre fui muito curioso e esta função de diplomata permite-me manter ligado a um mundo que não só o da arquitetura ou do imobiliário e permite ter outra visão do mundo, das relações e aumenta também o meu networking.

Projetos para o futuro da Mass Lab?
A Mass Lab é a menina dos meus olhos. É aquilo que eu mais gosto de fazer e que sempre me moveu. Temos na Mass Lab um objetivo muito grande. Não medimos o nosso sucesso pelo crescimento, o objetivo é estar ligados a projetos com impacto. Queremos estar nas grandes transições, na transformação da nossa geração. Não queremos crescer em número de pessoas ou faturação, mas sim em ambição dos projetos que podemos abraçar. No ano passado, por exemplo, faturámos meio milhão de euros e a previsão para este ano é chegar a um milhão de euros.

Temos escritório no Porto e hoje somos 23 pessoas. Há dois anos criámos um fundo de investimento porque percebemos que as pessoas, os nossos clientes, tinham vontade de investir, mas não sabiam como e confiavam em nós. Então o que nos propusemos fazer foi: procurar a oportunidade, montar os negócios e cobrar um fee.

“Pegámos numa tendência de consumo e estamos a lançar uma empresa de alimentação saudável plant-based [derivados de plantas e vegetais], a Vegic, que vai entrar no mercado até ao final do ano com uma gama de molhos saudáveis, ou seja, molhos que fazem bem”.

O que gostaria de fazer e ainda não conseguiu?
No âmbito do MBA, juntei-me a um conjunto de pessoas fantásticas, com experiências diferentes da minha, para um projeto final que à partida seria de consultoria a empresas. Mas como somos mais empreendedores do que consultores decidimos criar um projeto de raiz. Pegámos numa tendência de consumo e estamos a lançar uma empresa de alimentação saudável plant-based [derivados de plantas e vegetais], a Vegic, que vai entrar no mercado até ao final do ano com uma gama de molhos saudáveis, ou seja, molhos que fazem bem. São molhos que são ricos nutricionalmente. Detetámos uma falha no mercado. De repente estamos a comer um hambúrguer fantástico com grande tecnologia, mas não temos nenhum molho para lá colocar.

A ideia inicial era desenvolver plant-vegan meets, mas com os primeiros estudos percebemos que o mercado já estava bastante competitivo e havia barreiras à entrada porque o investimento era bastante elevado. A ideia é entrar agora com os molhos e depois lançar outros conjuntos de produtos. Já temos protótipos e ainda é necessário obtermos um documento de aprovação dos nossos molhos. Queremos fechar os protótipos nos próximos dois meses e começar o processo de fabrico. Possivelmente teremos de levantar capital, até porque iremos precisar de um parceiro especializado.

Qual o mercado prioritário da Vegic?
Vamos entrar pelo Reino Unido e queremos estar nos principais canais de distribuição online.

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