No passado dia 18 de março de 2020 foi decretado o “Estado de Emergência” em Portugal, que implica fortes restrições aos direitos de circulação e às liberdades económicas, de pessoas, bens e empresas. Trata-se, obviamente de uma medida que está a ser tomada um pouco por toda a Europa e pelo mundo, como forma de conter a pandemia da COVID19.

Em termos de impacto, prevêem-se implicações profundas do modus operandi do mundo, nas esferas económica, financeira e do próprio estilo de vida das pessoas. Em termos económicos, para além do número assombroso de falências esperadas, só a OIT prevê que cerca de 25 milhões de postos de trabalho sejam perdidos, o que levou a dretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) a admitir que a economia mundial vai crescer menos que no ano de 2019.

Também em termos sociais é expetável uma mudança radical. As fortes restrições provocadas na mobilidade, no trabalho tradicional, no ensino presencial ou nas interações sociais estão a desencadear mudanças profundas nas formas de trabalho, aprendizagem ou convivência social. E tais mudanças prometem ser relativamente duradouras, dado que estamos a assistir à aquisição de novos hábitos, que muitos acreditam ser mais seguros e saudáveis.

Mas assistimos, também, a transformações positivas, a uma verdadeira “onda de solidariedade” entre países – veja-se o caso do Governo Chinês que vai doar material para combater a pandemia global a diversos países. Mas também entre empresas, associações e pessoas – como o caso de algumas empresas do setor têxtil que começaram a produzir máscaras e fardas para hospitais[1].

E pensando no empreendedorismo, que reflexão podemos fazer? Como podem os empreendedores lidar com este contexto de depressão económica e fechamento social?

Num cenário imediato, e olhando para o decréscimo económico global, podemos hipotetizar uma realidade dramática de forte encerramento de empresas, pelo que as sugestões se orientam para o baixo crescimento dos novos negócios empreendedores. No entanto, e tal como tantos autores de renome e a praxis de muitas empresas nos têm mostrado, há que “dar a volta” à adversidade e procurar ver uma oportunidade. Tomando por base o proeminente psicólogo da cognição humana, Richard Lazarus, perante as situações, podemos apresentar dois focos: um orientado para o “problema” – para ações de mudança radical –, e um outro foco orientado para a gestão da “emoção”.

Adotando o foco no “problema”, poderíamos sugerir aos empreendedores que, considerando o presente contexto de falências e contração económica e social, o seu negócio deve sofrer uma “mudança radical”, por forma a adaptar-se às reais necessidades das empresas e dos clientes hoje.

O foco na “emoção”, contudo, leva-nos a um pensamento distinto. Tendo por base o atual contexto, as competências de resiliência, ponderação ou visão de longo-prazo levam o empreendedor a refletir sob a realidade, ponderando a adoção de pequenos “ajustamentos” apenas, mas sem alterar a verdadeira “essência” do negócio, para a qual todo o know how, competências e mais-valias dos empreendedores e equipas são canalizadas.

Em suma, o contexto de pandemia global coloca grandes entraves económicos e sociais, mas oferece também a possibilidade de “dar a volta”, de ver uma oportunidade e retirar aprendizagens. Para tal, as competências soft empreendedoras revelam-se essenciais para uma leitura ponderada e resiliente da situação, com vista à adaptação do negócio às reais necessidades, fazendo-o crescer e prosperar para além da crise.

[1] A título de exemplo, salienta-se o Grupo têxtil Sonix, em Barcelos, tal como noticiado a 20 março 2020, pela Rádio Renascença.

*Coordenadora da Escola de Liderança e Inovação do ISCSP – Universidade de Lisboa

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Sobre o autor

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Patrícia Jardim da Palma é doutorada em Psicologia das Organizações e Empreendedorismo e Professora no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP- ULisboa). É coordenadora das Pós-graduações “Gestão de Recursos Humanos” e “Empreendedorismo e Inovação”... Ler Mais