Recuperação é, talvez, a palavra mais repetida nos últimos meses. Recuperação que vislumbramos no verão do ano passado, mas que depressa se desvaneceu sob o impacto do agravamento da pandemia para dar lugar a novas quedas da atividade económica; recuperação que ressurge, agora, ainda tímida.

No entanto, recuperar não chega, Portugal precisa de mais. Depois de duas décadas em que alternámos crises e crescimento anémico, o objetivo não pode ser apenas o regresso ao passado. O objetivo é abrir um novo ciclo de desenvolvimento sustentado.

De facto, Portugal, mesmo antes da pandemia já apresentava claros sinais de resistência ao crescimento, resistências que têm contribuído para que, teimosamente, não consigamos convergir com a União Europeia e, assim, ano após ano, acabamos suplantados por outros países no ranking europeu do PIB per capita.

Portugal não pode perder mais uma década.

Não esqueço as fragilidades e os constrangimentos que resultam do desafio ambiental, da evolução demográfica, do elevado endividamento ou do nível médio de formação, mas nas empresas portuguesas temos potencial e ambição para os ultrapassar.

A materialização desse potencial e dessa ambição será condicionada pela consistência e eficácia da estratégia económica que agora for acionada.

Este é o momento em que com as fragilidades que sentimos, com o enquadramento europeu que temos e com os desafios globais que identificamos, temos de pôr de pé uma estratégia económica capaz de abrir um novo ciclo de desenvolvimento sustentado.

A competitividade, alavancada pela produtividade, é condição indispensável ao sucesso.

Importa, para isso, relançar o investimento, indispensável à incorporação de inovação tecnológica nos produtos e nos processos. Importa, também, promover um ambiente de negócios impulsionador da inovação e que permita às empresas concentrarem os seus recursos na criação de valor.

Destacaria, assim, algumas linhas orientadoras para uma estratégia de desenvolvimento e competitividade:

  • Lançar urgentemente soluções, há muito prometidas, mas sempre adiadas, que promovam a capitalização das empresas e facilitem o acesso ao financiamento;
  • Inverter a tendência de aumento da carga fiscal e corrigir os aspetos em que o sistema fiscal português se mostra mais desfavorável, tornando-o mais competitivo, mais previsível e simples e, consequentemente, mais favorável à atração de investimento, nacional e estrangeiro;
  • Travar o contínuo surgimento de novas obrigações legais que implicam mais custos para as empresas e libertá-las dos custos de contexto que constituem ainda um evidente fator de perda de competitividade.
  • Promover um enquadramento sócio laboral que contribua para a melhoria da produtividade e competitividade da economia portuguesa, num clima de paz social.

Além disso, a captação e retenção de talentos e o desenvolvimento de competências são, a par do investimento, condições necessárias para que a transformação tecnológica e digital possa impulsionar um salto significativo na produtividade das empresas e no bem-estar económico dos portugueses. Essa transformação tecnológica e digital implica, por seu turno, um exigente processo de reconversão da força de trabalho.

Se formos capazes de trilhar este caminho e de valorizar o papel da economia de mercado e da iniciativa privada, no quadro de uma nova forma de relacionamento entre o Estado e os agentes económicos, esta crise terá sido verdadeira oportunidade de renovação.

Se não o fizermos, após um período de recuperação, mais ou menos fugaz, voltaremos a ritmos de crescimento medíocre, que nunca poderão satisfazer as aspirações das novas gerações.

Em suma, a opção de Portugal é simples: crescer ou empobrecer.

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António Saraiva nasceu em novembro de 1953 em Ervidel. Diretor da Metalúrgica Luso-Italiana desde 1989 e administrador a partir de 1992, adquiriu a empresa ao Grupo Mello em 1996, sendo atualmente presidente do conselho de administração. Começou a sua carreira... Ler Mais