Entrevista/ “Crescemos porque ouvimos os empresários, porque procuramos compreender os seus desafios antes de criar soluções”
Para a fundadora e CEO da Rede do Empresário, “o crescimento acontece quando existem pessoas dispostas a colaborar, a partilhar conhecimento, a abrir portas e a construir valor em conjunto”. Teresa Esteban partilha a sua visão para esta comunidade empresarial, que nunca procurou ser a maior do país, mas sim a mais relevante.
A Rede do Empresário é uma plataforma digital composta por mais de 16 mil empresas e instituições que oferecem um amplo e diversificado leque de produtos e serviços para atender às mais variadas necessidades das empresas. Desde a primeira hora, o objetivo foi “construir uma comunidade aberta, onde empresas, instituições públicas, universidades, centros de investigação, associações e profissionais possam encontrar-se, colaborar e criar projetos com impacto e acima de tudo dialogar”, explica a sua fundadora e CEO, Teresa Esteban.
Em entrevista ao Link To Leaders fala do propósito de “criar um ecossistema onde as relações se transformam em conhecimento, inovação, oportunidades e crescimento” e do que move esta comunidade, sem deixar de frisar que “crescer em conjunto é mais inteligente do que crescer isoladamente” e que “as empresas mais resilientes são também aquelas que sabem criar parcerias”. Conclui que “o maior ativo de qualquer empresário não é aquilo que sabe, nem aquilo que possui. É a confiança que consegue construir ao longo da vida”.
O que levou à criação da Rede do Empresário e que necessidade concreta do mercado identificou na altura?
Acredito muito que os projetos com impacto não nascem por acaso. Nascem quando conseguimos transformar a nossa experiência, aquilo que observamos diariamente e aquilo em que verdadeiramente acreditamos numa resposta para uma necessidade real. A Rede do Empresário surgiu precisamente desse cruzamento. Ao longo da minha carreira tive a oportunidade de trabalhar na academia, no tecido empresarial e na administração pública. Poucas pessoas têm o privilégio de conhecer estes três universos de forma tão próxima e isso permitiu-me ter uma visão muito abrangente sobre os desafios do desenvolvimento empresarial.
Via empresas com enorme potencial, universidades a produzir conhecimento de excelência e entidades públicas empenhadas em apoiar o crescimento económico. No entanto, muitas vezes, estes mundos continuavam a trabalhar lado a lado, mas não verdadeiramente em conjunto. É preciso criar pontes, que aproximasse pessoas, ideias e organizações, que transformasse contatos em relações de confiança e relações em projetos concretos.
Foi também durante o período em que colaborei com uma associação com um ecossistema imenso nos diferentes setores, que essa perceção tornou-se ainda mais evidente. Nas conversas com centenas de empresários, sobretudo de pequenas e médias empresas, encontrava preocupações muito semelhantes: como ganhar visibilidade, como encontrar parceiros, como aceder ao conhecimento certo, como comunicar melhor e como crescer de forma colaborativa. Havia talento, inovação e vontade de fazer acontecer, mas muitas empresas sentiam-se sozinhas nesse caminho.
Quando chegou a pandemia, tudo isso tornou-se ainda mais evidente. O isolamento mostrou-nos que, mesmo num mundo altamente digital, continuamos a precisar de proximidade, de confiança e de comunidades onde possamos partilhar desafios e encontrar soluções.
Para mim, a pandemia não foi a origem da Rede do Empresário mas sim, o momento que me fez avançar com uma ideia que já vinha a amadurecer há muito tempo. Foi também uma decisão profundamente pessoal. Depois de muitos anos a trabalhar para diferentes organizações, senti que tinha chegado o momento de colocar toda a experiência acumulada ao serviço de um projeto com identidade própria e com um propósito muito claro, criar uma comunidade onde os empresários não encontrassem apenas contatos, mas relações de confiança, conhecimento, oportunidades e um verdadeiro sentimento de pertença. Hoje continuo a acreditar exatamente no mesmo que me levou a dar esse primeiro passo, nenhuma empresa cresce sozinha. O crescimento acontece quando existem pessoas dispostas a colaborar, a partilhar conhecimento, a abrir portas e a construir valor em conjunto.
É essa convicção que continua a orientar a Rede do Empresário todos os dias e que me motiva a olhar para o futuro com o mesmo entusiasmo com que comecei.
“Crescemos porque ouvimos os empresários, porque procuramos compreender os seus desafios antes de criar soluções (…)”
A Rede reúne atualmente mais de 16 mil entidades. Como explica este crescimento e o que revela sobre as necessidades dos empresários portugueses?
Já somos mais, tem sido um crescimento muito interessante, mas todas essas entidades significam para mim, não um número para celebrar, mas sim, uma responsabilidade acrescida. Cada empresa, cada instituição e cada profissional que decide integrar a Rede do Empresário deposita em nós a sua confiança. E essa confiança conquista-se todos os dias.
Acredito que este crescimento resulta, antes de mais, da forma como sempre construímos a Rede. Nunca tivemos a ambição de ser a maior comunidade empresarial do país, quisemos ser uma comunidade relevante. Crescemos porque ouvimos os empresários, porque procuramos compreender os seus desafios antes de criar soluções e porque cada iniciativa nasce das necessidades reais do terreno e não de pressupostos.
Ao longo destes anos, tenho tido o privilégio de conversar com empresários de diferentes setores, dimensões e regiões do país. Apesar das suas especificidades, existe um ponto em comum, todos procuram relações de confiança, acesso a conhecimento, oportunidades de colaboração e uma rede que os ajude a crescer e a conhecer novos negócios, boas práticas. Os desafios podem mudar, mas a necessidade de partilha e de cooperação continua a ser uma constante. Atualmente como todos sabemos, existe muita informação, mas nem sempre existe orientação. Existem muitos contatos, mas nem sempre existem relações. Existem muitas plataformas, mas poucas comunidades onde as pessoas se sintam verdadeiramente ouvidas. Penso que foi esse espaço que a Rede do Empresário conseguiu ocupar.
Outro aspeto que considero determinante é o facto de nunca termos perdido a proximidade. À medida que crescemos, fizemos questão de continuar a ouvir e a ajudar quem está no terreno, de trabalhar com municípios, universidades, associações empresariais e parceiros locais e de perceber que as necessidades de uma empresa do interior podem ser diferentes das de uma empresa de um grande centro urbano. Essa proximidade permite-nos construir iniciativas com impacto real e não soluções genéricas. Se este crescimento revela alguma coisa sobre os empresários portugueses, é que existe uma enorme vontade de colaborar. Durante muitos anos falou-se muito de competitividade, mas hoje percebemos que as empresas mais resilientes são também aquelas que sabem criar parcerias, partilhar conhecimento e aprender umas com as outras. O sucesso deixou de ser um caminho solitário.
É precisamente essa mudança que mais me inspira. Ver milhares de empresas e profissionais a acreditarem que crescer em conjunto é mais inteligente do que crescer isoladamente dá-me a certeza de que estamos a construir muito mais do que uma rede de contatos. Estamos a contribuir para uma cultura empresarial onde a confiança, a colaboração e a criação de valor coletivo são fatores de competitividade.
No final, acredito que o crescimento da Rede do Empresário não diz apenas quem somos, diz muito sobre aquilo que os empresários portugueses procuram hoje, ou seja, menos relações superficiais e mais comunidades onde possam encontrar conhecimento, confiança, oportunidades e pessoas com quem vale a pena construir o futuro.
O que distingue a Rede do Empresário de outras plataformas de networking empresarial?
Acredito que Portugal precisa de mais redes, mais comunidades e mais organizações a trabalhar em prol das empresas. Nunca vi outras plataformas como concorrentes. Vejo-as como parceiros naturais na missão comum de fortalecer o tecido empresarial português. Cada organização tem a sua identidade, o seu propósito, a sua forma de atuar e o seu público. Algumas estão mais focadas na geração de referências de negócio, outras na representação empresarial, outras na formação ou na internacionalização, entre outras. Todas acrescentam valor ao ecossistema e acredito sinceramente que há espaço para todos. Aliás, quanto mais colaborarmos entre nós, mais fortes serão as empresas portuguesas.
Procuramos ocupar um espaço complementar. Desde o início, quisemos construir uma comunidade aberta, onde empresas, instituições públicas, universidades, centros de investigação, associações e profissionais possam encontrar-se, colaborar e criar projetos com impacto e acima de tudo dialogar. O nosso propósito é criar um ecossistema onde as relações se transformam em conhecimento, inovação, oportunidades e crescimento.
“Acredito profundamente que o futuro passa pela colaboração entre plataformas, associações, redes empresariais e todos os agentes do ecossistema”.
Então que vos distingue é?
Talvez o que mais nos distinga seja precisamente a forma como ouvimos a comunidade. Muitas das iniciativas que desenvolvemos nasceram porque os próprios empresários nos disseram aquilo de que precisavam. Procuramos estar muito próximos dos territórios, trabalhar com municípios, conhecer as diferentes realidades do país e adaptar as nossas respostas às necessidades concretas das empresas. Outro aspeto que considero diferenciador é a diversidade da nossa comunidade. Na Rede do Empresário convivem pequenas empresas, grandes organizações, start-ups, instituições de ensino, entidades públicas e associações. Essa diversidade cria uma riqueza enorme de perspetivas e faz com que as oportunidades surjam de forma muito mais natural.
Mas, acima de tudo, gostava de deixar uma mensagem muito clara, queremos crescer com todos. Acredito profundamente que o futuro passa pela colaboração entre plataformas, associações, redes empresariais e todos os agentes do ecossistema. Se cada um trabalhar isoladamente, todos perdemos. Se conseguirmos unir esforços, partilhar conhecimento e criar sinergias, quem ganha são as empresas, os empresários e, em última análise, o país. Essa tem sido, aliás, a filosofia da Rede do Empresário desde o primeiro dia. Não construir muros, mas pontes. Porque acredito que o verdadeiro sucesso não está em sermos a única rede, mas em contribuirmos para um ecossistema empresarial mais colaborativo, mais inovador e mais forte.
De que forma conseguem transformar contactos e relações em oportunidades reais de negócio?
Acredito que existe uma ideia errada sobre o networking. Muitas pessoas pensam que basta reunir empresários numa sala para que os negócios aconteçam. A minha experiência diz exatamente o contrário. Os negócios não nascem de um aperto de mão, nascem da confiança, do conhecimento mútuo e da capacidade de identificar valor entre as partes. O primeiro passo é conhecer profundamente quem faz parte da nossa comunidade.
Procuramos compreender a história de cada empresa, o seu propósito, os seus desafios, as suas competências e aquilo que procura. Só quando conhecemos verdadeiramente as pessoas e as organizações conseguimos criar ligações que façam sentido. Há situações em que a sinergia é imediata e as empresas identificam rapidamente oportunidades para desenvolver projetos em conjunto. Noutras, a relação constrói-se ao longo do tempo. E isso é perfeitamente natural. A confiança não tem calendário. Há parcerias que nascem num primeiro encontro e outras que precisam de meses, ou até anos, para se transformarem em oportunidades de negócio. O importante é que exista uma relação genuína e uma vontade mútua de colaborar.
E isso é suficiente?
Também acreditamos que quem integra um ecossistema empresarial deve assumir um papel ativo. A Rede do Empresário cria o contexto, promove os encontros, facilita as ligações e aproxima as pessoas, mas o verdadeiro valor nasce do envolvimento de cada membro. Partilhar conhecimento, comunicar aquilo que fazemos, estar disponível para colaborar e contribuir para a comunidade são atitudes que fortalecem todo o ecossistema.
Ao longo dos anos, temos desenvolvido uma capacidade muito interessante de identificar oportunidades antes mesmo de elas serem evidentes para as empresas. Porque acompanhamos diferentes setores de atividade, conseguimos muitas vezes perceber desafios comuns e aproximar organizações que, de outra forma, dificilmente se cruzariam. É frequentemente dessas pontes que surgem novos projetos, parcerias estratégicas e oportunidades de negócio.
Os nossos eventos e iniciativas são outro exemplo disso. Mais do que momentos de networking, são espaços de aprendizagem, de partilha de conhecimento e de reflexão sobre os desafios da economia. Muitas das oportunidades que hoje existem na nossa comunidade nasceram de uma conversa informal, de um debate ou da identificação de um problema comum que várias empresas decidiram resolver em conjunto. No fundo, o nosso trabalho não é criar negócios, mas sim as condições para que eles aconteçam de forma natural, sustentada e baseada na confiança. Acreditamos que as melhores oportunidades não surgem da pressão para vender, mas da capacidade de construir relações autênticas que, com o tempo, geram valor para todas as partes.
Pode partilhar exemplos concretos de negócios, parcerias ou projetos que tenham surgido através da Rede?
Ao longo dos últimos anos têm surgido inúmeros projetos, parcerias e oportunidades de negócio através da Rede do Empresário. A nossa missão é precisamente criar ligações entre pessoas e organizações que dificilmente se encontrariam de outra forma, funcionando como um catalisador de colaboração e inovação. Um dos exemplos mais relevantes é a constituição de consórcios para projetos europeus, onde identificamos entidades com competências complementares e promovemos a sua integração em candidaturas internacionais, potenciando o acesso a financiamento e a novos mercados.
Temos igualmente promovido a ligação entre empresas, especialistas e instituições de ensino no âmbito de programas de mentoria, formação e capacitação, aproximando conhecimento académico e experiência empresarial para responder a desafios concretos das organizações. A colaboração com municípios e entidades públicas tem sido outra vertente importante do nosso trabalho. Desenvolvemos iniciativas conjuntas na organização de eventos, disponibilização de espaços, identificação de oradores e promoção de projetos que reforçam a ligação entre o setor público e o tecido empresarial.
Outro exemplo foi o desenvolvimento de um projeto inovador que integrou a arte no contexto empresarial, através da criação e implementação de um protótipo desenvolvido ao longo de um ano, demonstrando como áreas aparentemente distintas podem gerar valor quando trabalham em conjunto. No âmbito do networking, organizamos encontros empresariais que já vão na quarta edição, graças às parcerias estabelecidas com diferentes espaços e empresas. Estes eventos têm dado origem a novas relações comerciais, colaborações estratégicas e projetos conjuntos entre participantes.
Também temos aproximado empresas especializadas em ESG (Environmental, Social and Governance) de organizações privadas e públicas que procuravam implementar práticas mais sustentáveis, facilitando projetos de diagnóstico, formação e consultoria nesta área. Na área da comunicação e desenvolvimento empresarial, temos criado pontes entre empresas e parceiros especializados em comunicação, marketing, posicionamento estratégico e gestão, permitindo às organizações encontrar soluções ajustadas às suas necessidades de crescimento.
Outro projeto de que nos orgulhamos é a criação da Plataforma de Mentores da Rede do Empresário, construída com o contributo de empresários e especialistas de diferentes setores, disponibilizando conhecimento prático e experiência a empreendedores e empresas em fase de desenvolvimento. Também temos acompanhado processos de investimento e desenvolvimento de novos negócios, colocando em contacto empreendedores, investidores e parceiros estratégicos que permitiram acelerar projetos empresariais e abrir novas oportunidades de mercado.
Mas, acima de tudo, aquilo que melhor caracteriza a Rede do Empresário é o trabalho diário que desenvolvemos. Todos os dias fazemos apresentações entre empresários, identificamos sinergias, aproximamos empresas, resolvemos desafios concretos e ajudamos a transformar contactos em relações de confiança e oportunidades de negócio. Muitas destas ligações não chegam a ser públicas, mas representam o verdadeiro impacto da Rede, criar valor através das pessoas e das relações que conseguimos construir.
Como avalia o impacto da plataforma junto das empresas e que indicadores utilizam para medir resultados?
Areditamos que o verdadeiro impacto de uma comunidade empresarial mede-se pelo valor que consegue gerar para os seus membros. É por isso que avaliamos continuamente os resultados da nossa atividade através de cinco eixos estratégicos.
O primeiro está relacionado com o crescimento e a retenção da comunidade. Acompanhamos a evolução do número de empresas associadas, a taxa de crescimento anual e a permanência dos membros na Rede. No entanto, o indicador que consideramos mais relevante é a participação continua, quando um empresário regressa aos nossos eventos, participa nas iniciativas e mantém uma ligação ativa à comunidade, significa que encontra valor naquilo que fazemos.
O segundo eixo centra-se na qualidade da comunidade, ou seja, mais do que reunir empresas, procuramos fomentar relações de confiança e colaboração. Para isso, avaliamos o nível de envolvimento dos membros na plataforma, a participação nos eventos, as interações geradas entre empresários e o grau de satisfação através de indicadores como o Net Promoter Score (NPS).
A terceira dimensão diz respeito aos programas de desenvolvimento empresarial, como ações de mentoria, formação e workshops. Nestes casos, analisamos as taxas de participação e conclusão, a satisfação dos participantes e, sobretudo, a forma como estes programas contribuem para o desenvolvimento de competências e para a tomada de decisões mais informadas nas empresas.
Outro indicador essencial é o impacto da Rede nos resultados das próprias empresas. Procuramos perceber de forma concreta quais os benefícios obtidos pelos nossos membros, nomeadamente a criação de novas parcerias, a conquista de novos clientes, o crescimento do negócio ou a definição de estratégias que resultaram do contacto estabelecido através da Rede do Empresário.
Por último, avaliamos o desempenho da nossa estratégia de comunicação e conteúdos, analisando indicadores como o alcance das publicações, o nível de interação, a conversão e o posicionamento da marca Rede do Empresário junto do tecido empresarial. No final, o nosso principal indicador de sucesso continua a ser a capacidade de criar ligações que geram oportunidades reais de negócio, promovem conhecimento e contribuem para o crescimento sustentável das empresas que fazem parte da nossa comunidade.
Quais são atualmente as principais necessidades das empresas que integram a Rede?
As necessidades das empresas mudaram muito nos últimos anos. Continuam a existir desafios estruturais, como a burocracia, a dificuldade em recrutar talento ou a necessidade de aumentar a competitividade, mas aquilo que sentimos diariamente, no contacto com os empresários, é que o maior desafio é conseguir crescer de forma sustentada num contexto de enorme exigência e constante mudança.
Na Rede do Empresário temos uma grande vantagem, estamos muito próximos das empresas. Ouvimos os empresários todos os dias, promovemos encontros em diferentes regiões do país, realizamos questionários, trabalhamos com municípios, universidades e associações empresariais. Essa proximidade permite-nos compreender aquilo de que as empresas realmente precisam e transformar essas necessidades em soluções concretas.
Um exemplo muito claro foi a criação do GetLeads. Em inúmeras conversas percebemos que muitos empresários, sobretudo das PME, tinham um problema comum, passavam grande parte do tempo a gerir a operação da empresa e sobrava muito pouco tempo para aquilo que é essencial ao crescimento, ou seja, desenvolver negócio. A prospeção comercial acabava por ficar para segundo plano e marcar reuniões qualificadas era um processo moroso e exigente.
Foi dessa necessidade que nasceu o GetLeads…
O objetivo não era apenas ajudar as empresas a gerar contatos, mas permitir-lhes ter na agenda reuniões de negócio previamente qualificadas, com potenciais clientes ou parceiros alinhados com os seus objetivos. No fundo, devolvemos tempo aos empresários para fazerem aquilo em que são realmente bons: criar valor para os seus clientes e desenvolver o seu negócio.
Outra realidade que encontrámos foi a dificuldade de muitas empresas em comunicar. Portugal tem empresas extraordinárias, com produtos, serviços e equipas de enorme qualidade, mas muitas continuam a ser pouco conhecidas. Não por falta de mérito, mas porque não dispõem de tempo, recursos ou conhecimento para construir uma estratégia de comunicação consistente.
Percebemos que comunicar já não significa apenas publicar nas redes sociais. Significa saber posicionar uma marca, contar a sua história, criar notoriedade, estabelecer relações com os meios de comunicação, produzir conteúdos relevantes e chegar aos públicos certos. Por isso, desenvolvemos serviços que ajudam as empresas a estruturar a sua comunicação de forma estratégica, aumentando a sua visibilidade e reforçando a sua credibilidade no mercado.
Mas talvez haja outra grande necessidade, criar ligações com propósito. Muitas empresas procuram clientes, mas acabam por encontrar parceiros. Outras chegam até nós à procura de visibilidade e acabam por desenvolver projetos com universidades, municípios, centros de investigação ou outras empresas da comunidade. É esta capacidade de cruzar diferentes competências e diferentes realidades que torna a Rede do Empresário um verdadeiro ecossistema de colaboração.
Costumo dizer que “o nosso trabalho não é apenas aproximar empresas. É identificar necessidades, antecipar oportunidades e criar as pontes certas para que a colaboração aconteça.” É essa a nossa missão desde o primeiro dia.
Acredito profundamente que o futuro das empresas dependerá cada vez menos daquilo que conseguem fazer sozinhas e cada vez mais da qualidade do ecossistema que conseguem construir à sua volta. É exatamente isso que procuramos fazer todos os dias, criar um ambiente onde conhecimento, confiança, inovação e colaboração se transformam em oportunidades reais de crescimento para todos.
A Rede procura aproximar academia, empresas e poder público. Porque continua a ser tão difícil criar uma colaboração efetiva entre estas três dimensões?
Durante muitos anos ouvimos dizer que era difícil aproximar a academia, as empresas e as entidades públicas. A nossa experiência demonstra precisamente o contrário. Quando existe um propósito comum, confiança e alguém que faz a ponte entre os diferentes intervenientes, a colaboração acontece e traduz-se em resultados muito concretos.
Acreditamos que as melhores oportunidades não acontecem por acaso. Criam-se quando colocamos as pessoas certas a conversar, no momento certo e com um propósito comum. Hoje, vemos essa missão concretizar-se diariamente. A academia deixou de estar apenas focada na investigação e passou a ser um parceiro ativo das empresas. Em conjunto desenvolvemos estudos que ajudam os empresários a compreender melhor o mercado e a tomar decisões mais informadas, partilhamos conhecimento científico aplicado à realidade empresarial, envolvemos investigadores e docentes nas nossas conferências e mesas-redondas e promovemos a divulgação de boas práticas que aproximam a inovação das necessidades reais das organizações.
Esta ligação tem produzido resultados muito concretos. Recebemos regularmente alunos em estágio, muitos dos quais acabam por integrar a nossa equipa ou empresas da comunidade. Participamos em projetos europeus que permitem trazer inovação, conhecimento e novas oportunidades para Portugal e estamos atualmente a estruturar uma rede multidisciplinar de mentores para apoiar empresas em áreas estratégicas, nomeadamente na preparação e acompanhamento de candidaturas a programas de financiamento e desenvolvimento empresarial.
E a relação com as entidades públicas?
Tem sido igualmente muito positiva. Os municípios recebem-nos, acolhem os nossos eventos, colaboram na realização dos estudos que desenvolvemos junto das empresas locais e ajudam-nos a compreender as necessidades específicas de cada território. Graças a essa proximidade, conseguimos criar iniciativas mais ajustadas à realidade económica de cada região e aproximar o tecido empresarial das oportunidades existentes. Temos igualmente contado com a participação de Secretários de Estado e de outros responsáveis governamentais nas nossas iniciativas. Esta proximidade permite criar um diálogo aberto entre quem define políticas públicas e quem vive diariamente os desafios de gerir uma empresa. Mais do que transmitir informação, estas iniciativas têm permitido gerar entendimento, identificar necessidades e criar oportunidades de colaboração entre todos os intervenientes do ecossistema.
O resultado está à vista. Hoje assistimos a projetos conjuntos entre empresas e universidades, negócios que nasceram através das ligações criadas pela Rede, empresas que encontraram parceiros estratégicos, municípios que ativaram oportunidades para o tecido empresarial local e organizações que descobriram novas formas de inovar e crescer em conjunto. No final do dia, o nosso maior ativo nunca foi o número de empresas que integram a Rede do Empresário. Sempre foi a confiança que conseguimos construir entre pessoas e organizações que, sem esta comunidade, provavelmente nunca se teriam conhecido. E é dessa confiança que nascem os melhores projetos, as parcerias mais duradouras e os negócios que verdadeiramente fazem a diferença.
É por isso que acredito que o futuro da competitividade portuguesa passa menos por trabalharmos isoladamente e muito mais pela capacidade de construirmos ecossistemas colaborativos, onde empresas, academia e entidades públicas deixam de atuar em paralelo e passam, verdadeiramente, a criar valor em conjunto
“O empresário português acumula demasiados papéis (…) e muitas vezes, acaba por não ter tempo para pensar estrategicamente no futuro da empresa.
Quais são hoje os maiores desafios enfrentados pelos empresários portugueses?
Os desafios dos empresários portugueses são hoje muito diferentes daqueles que existiam há dez ou quinze anos. Se antes a principal preocupação era garantir a sobrevivência da empresa, hoje o grande desafio é conseguir crescer de forma sustentável num mercado cada vez mais competitivo e imprevisível. Naturalmente, continuam a existir temas estruturais que preocupam as empresas, como a excessiva burocracia, a complexidade regulatória, a dificuldade em atrair e reter talento qualificado, a pressão sobre a produtividade, a necessidade de acelerar a transformação digital e de acompanhar a evolução tecnológica e principalmente para muitas pagar as contas ao final do mês.
Estes desafios surgem de forma consistente nos estudos realizados em Portugal e refletem aquilo que também ouvimos diariamente junto dos empresários. No contato permanente que temos com a nossa comunidade, percebo que existe um desafio ainda mais transversal, ter tempo. O empresário português acumula demasiados papéis. É gestor, comercial, financeiro, responsável pelos recursos humanos, acompanha clientes, resolve problemas operacionais e, muitas vezes, acaba por não ter tempo para pensar estrategicamente no futuro da empresa. E quando não existe tempo para planear, inovar, comunicar ou criar novas parcerias, o crescimento torna-se muito mais difícil.
Outro desafio, que considero decisivo é a produtividade. Portugal tem empresários extremamente resilientes e equipas muito competentes, mas precisamos de criar mais valor com os recursos que temos. Isso implica apostar mais na inovação, na digitalização, na inteligência artificial, na formação das pessoas e, sobretudo, na colaboração entre empresas, universidades e entidades públicas. A produtividade deixou de depender apenas do esforço, depende cada vez mais do conhecimento, da tecnologia e da capacidade de trabalhar em rede.
Há ainda uma mudança que considero muito positiva, cada vez mais os empresários percebem que pedir ajuda não é um sinal de fragilidade, mas de inteligência estratégica. Procuram mentores, parceiros, universidades, especialistas e comunidades onde possam aprender, partilhar experiências e encontrar respostas para desafios que são comuns a muitas empresas. É precisamente aí que acredito que podemos fazer a diferença. Não porque tenhanos todas as respostas, mas porque conhecemos profundamente o ecossistema e conseguimos ligar pessoas, conhecimento e oportunidades.
Considera que as empresas portuguesas ainda trabalham de forma demasiado isolada?
Sim, considero que muitas empresas portuguesas ainda trabalham de forma demasiado isolada, embora essa realidade esteja a mudar. Durante muito tempo, existiu uma cultura empresarial muito centrada na proteção do conhecimento, na desconfiança e na ideia de que colaborar significava expor demasiado o negócio. Em muitas PME, o empresário continua a acumular decisões, relações comerciais e conhecimento estratégico, o que torna a empresa muito dependente de uma única pessoa e reduz o tempo disponível para procurar parceiros, inovação ou novas oportunidades.
Hoje, há mais empresas disponíveis para partilhar experiências, desenvolver projetos conjuntos, procurar parceiros complementares e colaborar com universidades, municípios e outras entidades. A complexidade dos desafios atuais, desde a transformação digital à internacionalização, ao talento, à sustentabilidade ou ao acesso a financiamento, tornou evidente que nenhuma empresa consegue ter internamente todas as competências de que necessita.
Na Rede do Empresário comprovamos isso diariamente. Muitas empresas entram na comunidade a pensar sobretudo em encontrar clientes, mas acabam por descobrir parceiros, fornecedores, especialistas, universidades ou entidades públicas com quem podem desenvolver soluções. Temos assistido a negócios concretizados, projetos colaborativos e relações entre empresas, academia e municípios que dificilmente surgiriam se cada organização permanecesse fechada no seu próprio espaço.
O isolamento nem sempre resulta de falta de vontade. Muitas vezes, resulta de falta de tempo, de informação ou de alguém que faça a ligação. As empresas podem ter necessidades compatíveis e competências complementares, mas não se conhecem ou não encontram o contexto certo para iniciar uma conversa. É precisamente aí que uma rede empresarial pode acrescentar valor, dar a conhecer profundamente as organizações, identificar complementaridades e criar pontes com propósito.
Acredito que Portugal tem empresas extraordinárias, mas pode tornar-se muito mais competitivo se conseguirmos substituir uma cultura de isolamento por uma cultura de colaboração. Colaborar não significa perder identidade, autonomia ou conhecimento, mas sim reconhecer que podemos chegar mais longe quando combinamos competências, recursos e experiências. O futuro não será das empresas que tentam fazer tudo sozinhas. Será das que souberem escolher os parceiros certos, construir relações de confiança e crescer dentro de ecossistemas fortes.
O tecido empresarial nacional está preparado para uma cultura de maior colaboração e partilha de conhecimento?
Acredito que sim. Aliás, essa mudança já está a acontecer. Vejo empresários muito mais disponíveis para colaborar, partilhar experiências e construir projetos em conjunto do que há alguns anos. Existe uma maior consciência de que os desafios atuais, da inovação à internacionalização, da digitalização à atração de talento, dificilmente se resolvem de forma isolada.Também noto uma abertura crescente ao conhecimento que vem de fora. As empresas portuguesas estão cada vez mais disponíveis para trabalhar com parceiros internacionais, acolher profissionais de outras nacionalidades, participar em projetos europeus e aprender com diferentes culturas e mercados. Essa diversidade traz novas perspetivas, desafia a forma como fazemos as coisas e ajuda-nos a evoluir.
Portugal tem todas as condições para consolidar uma cultura de maior colaboração. O importante é continuarmos a criar espaços onde as empresas possam partilhar conhecimento, boas práticas e experiências, porque é dessa partilha que nascem as melhores soluções e as organizações mais competitivas.
Que apoio concreto disponibilizam às empresas que pretendem entrar em novos mercados?
A internacionalização continua a ser um dos maiores desafios para muitas PME. Não por falta de qualidade dos seus produtos ou serviços, mas porque, muitas vezes, não sabem por onde começar, que mercados privilegiar ou com quem falar. Na Rede do Empresário temos vindo a estabelecer parcerias com especialistas e organizações que apoiam empresas na entrada em novos mercados, proporcionando acesso a conhecimento, aconselhamento estratégico e uma rede de contactos qualificados em diferentes continentes. Esta proximidade permite-nos facilitar o contacto com parceiros locais e tornar o processo de internacionalização mais ágil e mais seguro.
No entanto, acredito que ainda existe uma lacuna importante. Falta um ponto de entrada mais estruturado para as empresas que pretendem internacionalizar-se e, da mesma forma, para empresas estrangeiras que querem investir ou estabelecer-se em Portugal. Muitas vezes, os empresários perdem demasiado tempo à procura da informação certa, dos procedimentos necessários ou dos contactos adequados. É precisamente por identificarmos esta necessidade que queremos reforçar esta área no próximo ano.
O nosso objetivo é desenvolver uma resposta mais integrada, que reúna informação prática, contatos de confiança, parceiros especializados e orientação para os diferentes mercados, permitindo às empresas encarar a internacionalização com maior conhecimento, segurança e rapidez. Acreditamos que a internacionalização não deve ser um percurso solitário. Tal como acontece noutras áreas, o nosso papel é criar as pontes certas entre empresas, especialistas e mercados, para que cada organização possa crescer de forma mais estratégica e com menos barreiras.
“Outra aposta estratégica será a criação de uma área dedicada às start-ups. Portugal tem um enorme potencial empreendedor e queremos aproximar esse ecossistema das empresas já consolidadas”.
Está prevista a criação de novos serviços, programas de aceleração ou modelos de acompanhamento empresarial?
Sem dúvida. Aliás, acredito que uma organização como a Rede do Empresário só faz sentido se estiver em permanente evolução. As necessidades das empresas mudam, os mercados transformam-se e nós temos a responsabilidade de acompanhar essa mudança, antecipando desafios e criando respostas que gerem valor real. Sabemos que não vale a pena criar serviços porque são tendência. Cada iniciativa que desenvolvemos tem de nascer de uma necessidade identificada junto das empresas e tem de contribuir para o seu crescimento, para a sua competitividade e, naturalmente, para a criação de valor económico.
Temos vários projetos que queremos consolidar. Um deles passa por reforçar o apoio à internacionalização, apoio em feiras internacionais, criando um modelo mais estruturado que facilite a entrada das empresas portuguesas em novos mercados e, ao mesmo tempo, apoie empresas estrangeiras que pretendam investir ou estabelecer parcerias em Portugal. Outra aposta estratégica será a criação de uma área dedicada às start-ups. Portugal tem um enorme potencial empreendedor e queremos aproximar esse ecossistema das empresas já consolidadas. Acredito que quando uma start-up encontra uma empresa com experiência e quando uma empresa encontra a inovação e a agilidade de uma startup, ambos crescem. A Rede pode e deve ser esse ponto de encontro.
Estamos igualmente a estruturar uma rede multidisciplinar de mentores, que permitirá acompanhar empresas em áreas como estratégia, inovação, candidaturas, financiamento, comunicação, internacionalização e desenvolvimento de negócio. Mais do que aconselhar, queremos estar ao lado dos empresários nas diferentes fases do seu crescimento.
Existe uma prioridade, tornar a própria Rede do Empresário cada vez mais colaborativa. Queremos que os nossos membros tenham um papel ainda mais ativo, que partilhem conhecimento, apresentem casos de sucesso, divulguem boas práticas, criem projetos em conjunto e sintam que esta comunidade também é construída por eles. Queremos dar mais voz às empresas e fazer com que a comunicação da Rede reflita, acima de tudo, o talento, a inovação e o impacto de quem faz parte deste ecossistema.A visão que temos para o futuro é muito clara. Queremos que a Rede do Empresário deixe de ser vista apenas como uma comunidade de networking e seja reconhecida como uma verdadeira plataforma de crescimento empresarial. Um espaço onde qualquer empresa, independentemente da sua dimensão ou setor, encontre conhecimento, parceiros, mentores, comunicação, oportunidades de negócio, inovação e apoio para crescer de forma sustentada.
Onde gostaria de ver a Rede do Empresário nos próximos três a cinco anos?
O meu maior desejo não é que a Rede do Empresário seja a maior. É que seja a mais útil. Que cada empresa que faça parte desta comunidade sinta que encontrou conhecimento, parceiros, oportunidades e pessoas que contribuíram verdadeiramente para o seu crescimento. Gostaria que, daqui a cinco anos, a Rede fosse reconhecida como uma plataforma de referência para o desenvolvimento empresarial em Portugal, mas, acima de tudo, como um ecossistema onde empresas, academia, municípios e entidades públicas trabalham de forma colaborativa para criar soluções, gerar inovação e fortalecer a competitividade do país.
Se conseguirmos que mais empresas cresçam, inovem, criem emprego e inspirem outras a fazer o mesmo, então estaremos a cumprir a nossa missão. Porque continuo a acreditar que o crescimento de uma empresa nunca beneficia apenas essa empresa. Beneficia colaboradores, famílias, comunidades e, em última análise, contribui para uma economia nacional mais forte, mais sustentável e mais preparada para os desafios do futuro
Que mensagem gostaria de deixar aos empresários que ainda veem o networking apenas como uma troca de contatos?
Se ainda acredita que networking é apenas trocar cartões de visita ou adicionar contactos ao LinkedIn, está provavelmente a perder uma das maiores oportunidades de crescimento do seu negócio. Tenho aprendido a verdadeira importância de uma conversa, de relações de confiança que nos fazem crescer. Nunca conheci uma empresa verdadeiramente bem-sucedida que tenha crescido sozinha. Todos precisamos de pessoas que nos desafiem, nos inspirem, nos abram portas e nos ajudem a ver mais longe.
O verdadeiro networking não é perguntar: “O que é que esta pessoa me pode dar?” É perguntar: “Como podemos crescer juntos?” Quando mudamos esta forma de pensar, tudo muda. Os contatos transformam-se em relações. As relações transformam-se em confiança. A confiança transforma-se em colaboração. E é dessa colaboração que nascem as melhores ideias, as parcerias mais sólidas e os negócios que deixam marca.
Por isso, deixo apenas um desafio a todos os empresários, da próxima vez que entrar numa sala cheia de pessoas, não procure distribuir cartões de visita. Procure conhecer histórias, ouvir desafios e criar ligações genuínas. Pode ser que, nessa conversa de cinco minutos, encontre muito mais do que um cliente. Encontre um parceiro, um mentor, um amigo ou até a oportunidade que vai transformar o futuro da sua empresa. Porque, no final, o maior ativo de qualquer empresário não é aquilo que sabe, nem aquilo que possui. É a confiança que consegue construir ao longo da vida. E é dessa confiança que nascem os projetos que verdadeiramente fazem a diferença.








