Opinião
Crédito na era digital: uma revolução para consumidores e empresas
O crédito sempre desempenhou um papel central no crescimento económico. Permite às famílias concretizar projetos de vida e às empresas acelerar investimentos, muitas vezes decisivos para a sua competitividade. Contudo, estamos a viver uma transformação profunda: o acesso ao crédito entrou definitivamente na era digital.
O que antes exigia deslocações a balcões, análises demoradas e processos burocráticos, hoje pode ser feito em minutos. O setor financeiro está, aliás, entre os mais impactados pela digitalização. A emergência das fintechs, a aposta dos bancos em plataformas online e a crescente utilização de inteligência artificial nos processos de análise trouxeram uma mudança radical. Mas será esta transformação um avanço inequívoco ou há riscos a considerar?
Os efeitos que não podemos (nem devemos) ignorar
Pedir crédito tornou-se, em muitos casos, tão simples como comprar um bilhete de avião ou encomendar uma refeição. Os formulários digitais, a análise automática de risco e a assinatura digital criaram um ecossistema de agilidade que vem responder às necessidades de consumidores e empresas: rapidez, conveniência e simplicidade. Para muitas PME, esta agilidade pode até significar que têm o capital necessário para investimento de forma imediata, um fator que pode ser decisivo num contexto competitivo.
Além disso, a digitalização trouxe maior democratização do acesso. Pessoas que antes estavam afastadas do sistema financeiro por questões de distância ou falta de tempo conseguem hoje aceder a soluções de crédito 100% online e simulações em poucos cliques.
Mas o mesmo mecanismo que facilita o acesso abre também espaço a novos desafios. Ao disponibilizar dados sensíveis sem confirmar se as plataformas digitais utilizadas são seguras, o risco de cibercrime é real e crescente. É, por isso, muito importante confirmar sempre o devido registo na base de dados de entidades autorizadas pelo Banco de Portugal. Mas há outra questão, ainda mais imperativa: a responsabilidade financeira. Isto porque a aprovação em minutos pode conduzir a decisões impulsivas, sem a devida ponderação da capacidade de pagamento.
A tecnologia retirou barreiras, mas não substitui o conhecimento
A tecnologia veio para ficar. E isso são boas notícias. Mas a resposta tem de passar pela capacitação dos consumidores. É fundamental investir em literacia financeira, ajudando consumidores e empresários a compreenderem as implicações das suas decisões. E, infelizmente, em Portugal esta é uma área em que ainda existem fragilidades significativas.
De acordo com um estudo realizado pela Bruegel e apresentado em 2024, Portugal está em penúltimo lugar na média da União Europeia em literacia financeira, com apenas 42% da população (menos 10% do que a média europeia) a responder corretamente a pelo menos três de cinco perguntas básicas sobre finanças. E esta conclusão é preocupante, já que saber comparar ofertas, compreender a diferença entre uma taxa fixa e variável, avaliar o impacto de custos adicionais ou identificar sinais de uma proposta pouco transparente são competências que não podem ficar em segundo plano.
Mas a literacia não deve ser responsabilidade exclusiva dos consumidores. As instituições financeiras e as fintechs têm também um papel determinante. A digitalização deve ser acompanhada de transparência acrescida, com simuladores claros, linguagem simples e mecanismos de comparação imediata. Mais do que disponibilizar crédito em minutos, é fundamental garantir que o utilizador compreende as condições a que se está a vincular.
A literacia financeira é, em última análise, a chave que permite transformar a conveniência digital numa oportunidade real de crescimento económico sustentável – em vez de num risco de endividamento silencioso. Mais do que nunca, consumidores, reguladores e instituições financeiras devem caminhar lado a lado. Só assim será possível garantir que a digitalização do crédito é, de facto, uma revolução positiva








