Há um par de meses lancei um livro inovador sobre liderança. A ideia base do livro é que cada um de nós tem uma voz de liderança. Que o nosso valor como líderes não vem da nossa capacidade de aplicar as melhores práticas de liderança. Vem da nossa capacidade de criar as nossas próprias práticas de liderança.

No dia a dia pode ser difícil de fazer ouvir a nossa voz de liderança. O quotidiano das empresas é de rotinas e regularidades, embrulhadas na cadência dos relatórios trimestrais e dos objetivos anuais. Mas há momentos que funcionam como megafones para a nossa voz de liderança. São momentos em que o que fazemos e o que dizemos diz alto e a bom som às pessoas lá da empresa quem somos e o que somos enquanto líderes. Estes momentos são encruzilhadas para a nossa relação com quem lideramos. Mas também são encruzilhadas para a nossa relação connosco próprios.

O que fazemos e o que dizemos em momentos como esta crise da Covid dão aos outros uma imagem profundamente transparente de quem somos enquanto líderes. Mostram aos outros como nos vemos, e como vemos as pessoas que lideramos. São um teste à nossa liderança. Um teste cujos resultados as pessoas que lideramos nunca vão esquecer. Podemos acabar como o Boris Johnson, que recentemente disse que o confinamento tinha sido uma espécie de férias em part-time para que trabalha no Reino Unido.

Tenho a certeza que há muitos líderes que pensam o mesmo e que por isso falharam o teste da Covid. Falharam porque disseram alto e bom som exatamente o que pensam das pessoas que lideram. Disseram alto e bom som quem são enquanto líderes. Mesmo que não tenham dito nada, porque exprimimos a nossa voz de liderança em cada decisão que tomamos e em cada ferramenta que escolhemos para decidir.

O que fazemos e o que dizemos em momentos como esta crise da Covid também tem consequências para nós. A ideia de que temos uma personalidade ou identidade estável que determina as nossas ações não é uma boa teoria. O que fazemos também determina quem somos, ou pelo menos quem achamos que somos. Isso é especialmente verdade em situações excecionais, como a que temos vivido desde março de 2020. O nosso discurso e as nossas decisões enquanto líderes não exprimem a nossa voz de liderança para os outros, mas também para nós mesmos. Não é só por causa dos outros que devemos ter atenção à generosidade, humanidade e bondade do que fazemos e dizemos a quem lideramos durante este momento difícil. É também por nossa causa. Para continuarmos a ser quem queremos ser, quem devemos ser.

O momento é difícil. Todos os lugares vazios da incertidão e da turbulência que fazem parte da introdução de todos os livrinhos da gestão hoje são mesmo verdade. É fácil cair na tentação de pensar que o nosso principal desafio é descobrir a estratégia que vai tirar a empresa da crise que atravessamos. Mas não é. A estratégia é o que as pessoas fazem todos os dias. Por isso, mais do que uma análise SWOT brilhante e uma visão inspiradora, precisamos de fazer ouvir uma voz de liderança genuína. Uma voz de liderança que passe o teste. Uma voz de liderança que crie as condições para fazer futuro. Vamos a isto.

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João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais