Opinião

Coronavírus, o terrível criador de um mundo novo

Paulo Caldas, coordenador científico da licenciatura em Economia do ISG*

O Coronavírus 2 (SARS-coV-2) corre o mundo de forma indiscriminada e aloja-se inteligentemente nas células, tirando partido das nossas fragilidades para nos destruir.

Altamente contagioso, é mais mortífero nos idosos e homens. As estratégias de maior ou menor contenção têm variado de País para País mas, até hoje, esta epidemia universal fez 34 mil mortos, cerca de 715 mil infetados em mais de 180 países, sendo impossível estimar a evolução desta pandemia que afeta países desenvolvidos e, seguramente com maior gravidade, os países em desenvolvimento.

Ecuménico. Silencioso. Mortal.

Esta pandemia, decretada como tal a 11 de março pela Organização Mundial de Saúde, compara favoravelmente com outras doenças contagiosas a nível mundial: a peste negra da Idade Média (25 milhões de mortes), a gripe “espanhola” de há um século (50 milhões de mortes), a SIDA (25 milhões), mas aproxima-se da mortalidade de epidemias recentes, como o SARS (2002; 774 mortes em 8 mil infetados), a gripe asiática (2009; 575 mil mortes) e o Ébola (2014-16; 111 mil mortes).

Um estado de emergência global, primeiro ao nível da saúde pública, depois na economia e sociedade, mas também ao nível da política, cultura e idiossincrasia dos povos.

O combate a esta pandemia é feito no terreno, evitando o contágio, testando a infeção e a imunidade, rastreando e tratando os doentes. Só será amplamente mitigada com a descoberta de uma vacina contra o vírus (prevista para daqui a 1 ano /2 anos).

A eficácia das políticas de contenção e de supressão do vírus (quarentena e distância social), a par da organização e capacidade de cada sistema de saúde nacional (equipamentos e recursos humanos), são os principais fatores que determinarão a dimensão da mortalidade e da nossa desgraça coletiva.

Esta é, no meu entendimento, a primeira grande transformação que nos é imposta pelo Coronavírus 2 rumo a um Mundo Novo – o primado absoluto da saúde pública e das condições de vida urbi et orbie.

Economia e sociedade 

O impacto nas economias a nível mundial está a ser tremendo, indo da recessão à depressão económica (estima-se em 2020 uma forte queda do crescimento da economia mundial para os 0,5%, na ordem dos 2 biliões de euros).

Ainda que haja setores mais afetados (turismo, aviação, energia, automóveis, produtos de consumo, eletrónica de consumo e semicondutores) a desestruturação produtiva e as disrupções em toda a cadeia de valor são totais. Vai pagar-se um preço muito elevado pela enorme dependência comercial da China, cultivada nas últimas duas décadas.

Com o choque simultaneamente da oferta e da procura, o desemprego vai crescer significativamente, fruto da paralisação do investimento e do decréscimo significativo do consumo. A falência de empresas será inevitável (em Portugal é previsível que o desemprego regresse a taxas acima dos 10% e as empresas encerradas acima das 150 mil, número da última crise de 2008).

Nenhum país tem dimensão e capacidade para responder a esta crise sozinho. Terá de existir uma resposta coordenada. Os auxílios dos Estados e dos Bancos Centrais, injetando liquidez na economia e apoiando a tesouraria das famílias e das empresas, através de moratórias dos créditos, novas linhas de empréstimos, alívio das responsabilidades fiscais e contributivas, flexibilização laboral e apoios contratuais, entre outras medidas, são o único paliativo para evitar a desgraça total.

A estes pacotes de emergência seguir-se-ão, obrigatoriamente, ‘Planos Marshall’ de recuperação das economias moribundas, promovendo novos investimentos e a criação de negócios.

Temo que, nesta economia de guerra, a agilidade e a prontidão de resposta dos EUA, Reino Unido, China e da Ásia e Pacífico seja significativamente superior à da Velho Continente, com danos irreversíveis no modo de vida dos europeus e na posição da Europa dentro da nova ordem económica mundial que vai nascer desta crise.

Numa ótica mais positiva, o crescimento do isolamento social (pelo menos no curto prazo) e a predominância de tudo o que é digital, na escola como no trabalho e lazer, vai conduzir-nos a um novo modelo de sociedade que já está a ser trilhado com sucesso pelas universidades (Home schooling e tutorias online, via softwares de conferência) e por grande parte das empresas (teletrabalho). Esta mudança será menos significativa nos trabalhadores industriais, do retalho, lazer, construção, transportes e de outras utilities, impedidos deste tipo de interação, embora também seja previsível que estas áreas tenham igualmente de se reinventar em formas de trabalho e colaboração.

Estas mudanças vão exigir, quer da parte dos colaboradores quer das lideranças, novas formas de comunicar, motivar e delegar. Mais criatividade e pensamentos fora da caixa. Mais flexibilidade. Mais responsabilidade e controle. Maior compromisso de gestão e social.

Os avanços tecnológicos e a economia digital vão ser afinal, ao invés de destruidor de empregos, os maiores garantes e criadores de novas formas de emprego.

Já estão a sê-lo, no apoio emergente às condições de saúde pública, com a utilização das nossas competências científicas e tecnológicas.

Neste momento já assistimos, felizmente, a empresas portuguesas a reconverter, de um dia para o outro, as suas linhas de produção (indústria de moldes) para produzir zaragatoas, necessárias para os testes de diagnóstico do Instituto de Medicina Molecular. Empresas 3D a produzir em larga escala viseiras necessárias para os profissionais de saúde. Unidades de investigação nas Biociências que, para além da imunologia, estão a estudar de forma mais intensa o necessário campo da virologia. Empresas de dispositivos médicos que estão a especializar-se em novos processos de triagem SMART, facilitando a prevenção da propagação do vírus. O CEiIA – Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produtos que, em parceria com a escola de Medicina da universidade do Minho se reconverteu da aeronáutica para o desenvolvimento de ventiladores invasivos. O CITEVE – Centro Tecnológico das Indústrias Têxtil e Vestuário de Portugal, que reorientou a sua atividade para o desenvolvimento e produção de equipamentos de proteção individual e utilização médica (luvas, máscaras, batas, fatos isolantes). A FCT que está a apoiar a Direção Geral de Saúde na preparação de uma plataforma de dados de acesso aberto (facilitando o seu tratamento com ferramentas da Ciência dos dados, tão essencial nesta fase de evolução da pandemia).

Esta é, no meu entendimento, a segunda grande transformação económica e social que o Coronavírus 2 nos traz rumo a um Mundo Novo. O primado do local em detrimento do global, em linha com um desenvolvimento mais sustentável. Da vida em comunidade em detrimento da vida privada. Da cooperação em desfavor da competição desenfreada. Da economia social e do desenvolvimento em detrimento da monetária e financeira.

As aldeias e as cidades humanizam-se, adaptando a sua estrutura habitacional e os espaços públicos a uma qualidade de vida superior exigida pelos seus cidadãos. Valorizando o bairro, as hortas e as comunidades.

Com o grande objetivo de reforçar a estrutura familiar alargada e o sentido coletivo da vida.

Isto representa um salto qualitativo na nossa forma de estar em sociedade, só possível pela quantidade e qualidade de informação hoje existente, pela maior abertura e habilitações das novas gerações e pelo aproveitamento dos avanços da ciência e tecnologia, numa sociedade cada vez mais inovadora.

É este o caminho inexorável deste Mundo Novo. Mais igual nas oportunidades de educação e de vida. Mais solidário na criação e na distribuição de riqueza.

Política e cultura

As grandes mudanças estruturais da nossa economia e sociedade vão exigir uma mudança igualmente radical da nossa praxis política, em Portugal, na Europa e no Mundo.

Acredito que a nova ordem mundial resultante da crise económica e social vai determinar, progressivamente, o primado da integração dos objetivos estratégicos e dos recursos das Nações entre si e, dentro de cada país, das regiões e das comunidades.

O poder de concertação e gestão de equilíbrios é o único caminho possível para combater o clima de medo e desconfiança global imposto pelo Coronavírus 2 bem como o caos económico e social que resultará desta crise. Será mais fácil, estou convicto, fazer impor aos partidos políticos, doravante e sempre que necessário, uma agenda comum de salvação ou pactos de regime a nível nacional ou até mesmo entre Estados-Nação.

Por outro lado, o objetivo de desenvolvimento sustentável que norteia a nossa ambição coletiva é também a fórmula ideal para potenciar a mudança completa de costumes e das novas formas de viver que o Coronavírus nos trouxe.

As ameaças à desestabilização serão, todavia, muitas.

Este vírus, como já alguém bem frisou, é um agente patológico amoral, embora tenhamos sempre tendência para o transformar no agente do mal, através de metáforas políticas e espirituais, como retrata Susan Sontag, em “A Doença como metáfora”. Já o fizemos anteriormente com a tuberculose, que atacava sobretudo os românticos, com o cancro, que incidia sobre as pessoas reprimidas, ou com a SIDA, que castigava o comportamento lascivo dos gays. Ainda, com a cólera oitocentista que era vista, tal como este vírus, como uma doença chinesa e asiática.

Como sabemos, não faz sentido. As epidemias e as catástrofes naturais simplesmente acontecem. A Natureza não é boa nem má. Não nos recompensa ou pune. Vai haver quem defenda (os situados numa esquerda mais radical) que este vírus apareceu para nos castigar pela forma como conduzimos a nossa sociedade moderna, capitalista e poluente. Os situados numa direita mais radical, por outro lado, vão exigir permanentes estados de emergência, contra os chineses, os refugiados e contra os terroristas islâmicos.

Ambos estão errados e é por isso que temos de lutar, desde já, contra estes radicalismos.

Como dizia Mahatma Mohandas Gandhi, “temos de nos tornar na mudança que queremos ver no Mundo”.

Com um propósito fundamental: um pacto universal de defesa da liberdade e da abertura, mantendo a ordem mundial das Nações Unidas, vigente nas últimas décadas, e que foi a responsável pelo maior período de paz e prosperidade da Humanidade, apesar de diversos focos regionais de guerra e miséria que ainda existem no mundo.

E, se refletirmos bem, é neste primado do Homem sobre a coisa, que estamos a encontrar a coragem, a força e a esperança, para combater esta pandemia e para construirmos um Mundo Novo. Diferente e, desejavelmente, melhor.

O Coronavírus 2 pode assim transformar-se no Schumpeteriano destruidor criador de um Mundo Novo, assente nos primados da saúde pública e condições de vida, da economia social e do desenvolvimento, e dos valores éticos e morais construídos sob a égide das Nações Unidas e sincreticamente aceites pela Humanidade.

Nota: As opiniões expressas neste artigo são da minha única e inteira responsabilidade e não comprometem as Instituições de que faço parte.

*Docente no ISG – Instituto Superior de Gestão


Paulo Caldas, é diretor de Economia, Financiamento e Inovação da Associação Industrial Portuguesa (AIP-CCI). Professor auxiliar no Instituto Superior de Gestão (ISG), onde é coordenador da licenciatura em Economia e professor auxiliar convidado do Instituto Superior Técnico (IST) – Universidade de Lisboa, onde leciona a cadeira de Gestão Estratégica do Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial. É doutorado em Economia pela University of New England, Austrália, e pelo Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), Universidade de Lisboa.

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