No ano em que celebra o seu 15.º aniversário e em que espera atingir os 13,5 milhões de euros de faturação, a Multivision continua a defender “com unhas e dentes” o trabalho presencial. Com projetos desenvolvidos para software houses, operadores de telecomunicações e empresas com necessidades de talento qualificado e especializado na área das TI, a tecnológica portuguesa quer manter a sua estratégia de expansão em solo nacional e internacional.

Multivision anunciou em maio que quer contratar 300 novos profissionais altamente qualificados na área das tecnologias da informação (TI) até ao final do ano e até 2025 duplicar a equipa.

A tecnológica portuguesa cresceu nos últimos quatro anos, de forma consecutiva, entre os 35 e os 40%, um crescimento liderado pelos projetos de outsourcing especializado no domínio das TI, que representam cerca de 90% do negócio global. A expectativa é chegar aos 13,5 milhões de euros em faturação em 2022, ligeiramente abaixo da previsão inicial.

Com uma oferta baseada em serviços de Sourcing, Nearshore e SW Development, e ainda com o sistema de planeamento, otimização e gestão de redes METRIC – uma plataforma SaaS (Software as a Service), cuja propriedade, desenvolvimento e respetiva gestão é exclusiva da Multivision -, a empresa está presente em países como Holanda, Noruega, Fiji e Angola, mas em breve espera chegar também ao Brasil, onde estão já a decorrer negociações.

A Multivision foi criada em 2007. Qual é o balanço da empresa nestes anos?
É, sem dúvida, uma empresa com um grande balanço! A vida das PME…bom, na verdade de todas as empresas, é sempre feita de altos e baixos, de dias de euforia na celebração de vitórias, alternados com dias de tristeza causados pelos receios e dissabores. Por vezes, nem são dias, são tardes alternadas com manhãs e vice-versa. Adicionalmente, muitas (mesmo muitas) noites sem dormir.

Com regularidade, assolam-nos pensamentos únicos de sobrevivência e manutenção. Depois disso, e felizmente que pouco duram, entendemos não ser suficiente apenas sobreviver e que estamos mesmo capazes de mais: crescer e tornar-nos mais fortes. Mas estamos “aqui” há 15 anos! Sem investidores externos e sendo uma sociedade 100% portuguesa. Olhando para trás e para onde nos encontramos, posso afirmar que, apesar de todas as dores, conseguimos criar uma empresa bonita, com personalidade, bom caráter e propósito. E isso é raro. Assim, claro que só posso dizer que é positivo o balanço. Não digo muito positivo, mas apenas porque sei que o melhor está para chegar.

“Processos de recrutamento e seleção muitas vezes apressados e superficiais, bem como contextos de trabalho remoto só têm vindo a construir uma geração desligada, descomprometida e, por vezes, arrogante”.

Como empresa tecnológica, que desafios enfrenta a Multivision na contratação de talentos?
São vários os desafios e sob vários prismas. Vou tentar afunilar a minha leitura do assunto de forma sintética e honesta, embora entendida por alguns como brutalmente honesta. Por um lado, existem poucos profissionais qualificados (formados) face às necessidades dos projetos existentes e da quantidade de profissionais requisitados. Dos formados para a indústria, existe uma redução natural, que resulta em ainda menos os competentes para os projetos em específico. Sendo muito honesto, importa adicionar (ou subtrair) que dos competentes poucos são “talentos”. Por fim, na extremidade deste funil, há a referir a atitude “rockstar” dos qualificados, a que se tem vindo a dar respaldo de forma generalizada com a injeção de capitais na indústria de forma inorgânica e não decorrente do crescimento das operações.

Processos de recrutamento e seleção muitas vezes apressados e superficiais, bem como contextos de trabalho remoto só têm vindo a construir uma geração desligada, descomprometida e, por vezes, arrogante. É preciso que aqueles que têm mais quota de voz (HRDs – Support to human rights defenders de grandes empresas) deem a cara e abordem o tema de forma realista, apresentando os seus números e preocupações. Tenho falado com inúmeras pessoas da indústria e na sua maioria demonstram algum desespero em conseguir garantir a resposta aos compromissos que estabelecem. Estamos todos um tanto aflitos, sobretudo pela ausência de consciência, regulação, articulação e comunicação honesta. Contratar não está mais difícil do que em tempos anteriores. Reter é que sim.

O que mais privilegiam na contratação de talentos?
São, na verdade, uma série de características que temos em consideração, indicando apenas algumas: instituições de ensino onde os profissionais se formam e resultados obtidos. Existem instituições que temos como melhor referência do que outras; tempo de permanência em projetos anteriores, pois sabemos que nada de relevante se faz em dois dias; disponibilização de contactos para obtenção de referências; disponibilidade para participar em entrevistas presenciais; disponibilidade para resolução de desafios técnicos quando aplicável e disponibilidade para trabalhar em equipa e de forma presencial.

Como avalia a vossa política de atração e retenção de talentos?
Bom, não considero que tenhamos uma política especializada ou arrebatadora para o efeito. Aquilo que reunimos para nos tornarmos atrativos passa pela manutenção de instalações muito simpáticas, onde os que connosco colaboram gostam de estar. Passa pela promoção de um ambiente vívido onde como muita regularidade vários eventos de diferentes naturezas ocorrem (formação, workshops, concertos, celebrações de efemérides, ações de responsabilidade social), pelo suporte administrativo muito cuidado e, naturalmente que, o principal motivo de atração passa pela conquista de oportunidades e projetos desafiadores, onde os profissionais sintam que serão inspirados, estimulados e terão possibilidades de evolução – pessoal, profissional e financeira.

Apesar de estarmos a viver na “era do teletrabalho”, a Multivision privilegia o trabalho presencial. Porquê?
Começo por dizer que a abordagem pode não ser a mais admirada, contudo é transparente. Permitiu-nos ultrapassar os últimos dois anos de forma muito coesa, organizada e sem reforço de medos ou ansiedades, e creio que é a acertada para o futuro daqueles que queres fazer acontecer e crescer. Muitas empresas e alguns governantes só olham para o que aparentemente vem a seguir, com um extremo receio de se atrasarem e estarem fora de moda…enfim…atrelam-se ao que está in e é notícia. Olham para a tendência em vez de olharem para a substância…e tomam decisões sem fazerem recurso intensivo a análises e à realidade interna, sem perspetivar os vários planos temporais. Produzem comunicados e escritos em redes sociais, palavrosos, mas sem fiabilidade. E depois, as modas passam…. Sinto que precisamos de mais algum tempo para estudar e definir políticas que sejam funcionais e possam ser adequadas e asseguradas de forma transversal, por todas as áreas. Há que ter esse cuidado.

Continuamos, por agora, a defender o trabalho presencial por questões de proximidade, de construção e manutenção de laços, quer interpessoais quer à empresa, por questões de saúde, de equilíbrio mental e físico. Por outro lado, porque é desta forma que integramos melhor os novos colaboradores, sobretudo os mais jovens. É também desta forma que melhor acompanhamos e integramos aqueles que vêm de fora do país e encontram na empresa rapidamente uma rede de suporte.

Existem ainda crenças relacionadas com produtividade, relações digitais e fadiga digital. Apesar de advogarmos o trabalho presencial pelas razões já expostas, não significa que não exista flexibilidade de horários, que não exista a consciência que por vezes são necessários momentos de isolamento para a realização de determinadas tarefas específicas, que não existam sextas-feiras descontraídas. Na verdade, mantemos a mesma forma de estar que já existia antes de 2020 e que consideramos continuar válida.

Como caracteriza a relação da Multivision com os seus colaboradores? O que vos distingue?
Considero que a nossa relação com os colaboradores prima pela proximidade, transparência e pelo atento suporte. O ambiente no seio da empresa é bastante informal, mas exige-se máxima responsabilidade.  Comunicamos internamente muito bem, de forma transparente e com muita regularidade. Organizamos muitas ações que promovem o relacionamento e interação entre os colaboradores. É muito comum no final das jornadas de trabalho os colaboradores ficarem pelas instalações a confraternizar, quando têm, naturalmente, outras opções fora.

“Serviços de recrutamento e seleção especializados e projetos de transformação digital para empresas de telecomunicações são os serviços mais requisitados”.

Quais os serviços mais requisitados na Multivision?
Serviços de recrutamento e seleção especializados e projetos de transformação digital para empresas de telecomunicações são os serviços mais requisitados.

Qual é a estratégia para Portugal nos próximos dois anos? Áreas prioritárias?
Investir na formação de equipas para a realização de projetos de transformação digital. Queremos continuar a fazer evoluir o nosso produto bandeira – Metric.pt – que se trata de um SaaS de suporte a projetos de transformação digital de redes rádio móveis. Tentar que algum operador em Portugal o entenda. Há 8 anos, quando o apresentámos aos três operadores em Portugal, foi-nos dito que um produto assente em AWS não fazia qualquer sentido por ser demasiado perigosa a externalização dos dados. Talvez a opinião tenha mudado com o que se passou nos últimos 2 anos. Ser-se visionário é ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. E queremos manter o que temos vindo a realizar na oferta de recrutamento especializado e coparticipação em projetos tecnológicos.

Globalmente, quais são os mercados prioritários para a Multivision?
De uma forma geral, todo o espaço europeu.

Como avalia a transformação digital dos clientes, das empresas? São capazes de acompanhar o mercado?
Bom, começo por dizer que na minha visão o conceito não é novo, está apenas acompanhado de melhor comunicação/marketing. Depois, importa destacar que a “Transformação Digital” consiste, de forma sucinta, em transformar processos de negócio e transformar a participação das pessoas, de forma contínua, gradual e incremental, envolvendo ou assentando na introdução de tecnologia atual. Tem como objetivos principais simplificar, retirar burocracias e tornar mais automatizado, resultando em ganhos de eficiência e de vantagem competitiva.

Visto deste modo, creio que nos parece a todos que esta necessidade e as oportunidades de realizar transformação digital, de forma genérica, existem há dezenas de anos. “Agora”, o termo está na moda e é propalado por todo o lado. Assim, ou os líderes nas empresas conseguem verdadeiramente potenciar mudanças de mindset junto das suas equipas, inspirando, formando, conduzindo e garantindo que estas necessitam mesmo de compreender, cooperar e realizar transições, ou rapidamente os projetos que se iniciarem resultarão apenas em despejo de tecnologia para dentro dos negócios, sendo que nessa condição o que se vai obter são falhas na adoção e utilização, bem como insucessos no retorno dos investimentos realizados.

Importa, para que se façam realmente transformações, que se tenha consciência de que é sedutora a obsessão que as pessoas têm pela aquisição de (novas) tecnologias, em vez de a terem pelos processos de negócio e respetivos ajustes para melhor. Considero, portanto, fundamental conseguir perceber se existe diferencial entre os processos que se têm e aqueles que se querem, e só depois pensar onde e como é que a tecnologia a adotar é simplificadora e potenciadora dos mesmos.

Internacionalmente, que geografias estão no vosso plano de expansão?
O plano, que foi forçosamente interrompido por dois anos, passa por reforçar a presença nos clientes e nas geografias dos mesmos onde já temos estabelecidas relações de parceria: Portugal, Angola, Noruega, Holanda, Fiji. Juntamos às referidas o Brasil, devido a um namoro cujo pedido nos foi endereçado há três meses e que temos estado a avaliar condições para o efeito. Nas últimas semanas se afigura como estando prestes a culminar em parceria matrimonial.

Em todo o caso, ainda que a generalidade das geografias seja interessante, até para que não exista dispersão, mas sim enfoque temos indicado às nossas equipas de prospeção para que aponte, nos próximos tempos, para os países do norte da Europa.

“Agora, decorrido um pouco mais de meio ano, creio que “infelizmente” (face ao desejo), ficaremos “apenas” pelos 13,5 milhões de euros de faturação”.

Quanto faturaram no ano passado e quais as previsões para este ano?
Em 2021 faturámos 10 milhões de euros. Iniciámos 2022, o nosso 15º ano, com o desejo de atingir os 15 milhões de euros de faturação. Agora, decorrido um pouco mais de meio ano, creio que “infelizmente” (face ao desejo), ficaremos “apenas” pelos 13,5 milhões de euros de faturação.

Como vê a Multivision daqui a três anos?
Nos últimos dois anos fomos, sobretudo, todos alvo de uma chamada de atenção que coloca em causa essa tipologia de exercício. Em todo o caso, tenho uma grande convicção de que estaremos mais sólidos porque trabalhamos diariamente para corrigir e melhorar os nossos processos e práticas, com mais e melhores relações de parceria, e a participar em projetos em mais geografias. Teremos com certeza instalações ainda mais agradáveis, que encherão de orgulho os nossos colaboradores e que convidem ainda mais à visita, por parte dos nossos parceiros, familiares e amigos.

Como CEO da Multivision, atingiu todos os objetivos que definiu? Quais são os seus principais desafios?
Não, de forma alguma! Sinceramente, sinto que, apenas nos últimos 4/5 anos passei a estar verdadeiramente à altura do desafio que tínhamos em mãos. Os objetivos vão-se somando todos os dias. Socorrendo-me do nome de um livro do Simon Oliver Sinek, este jogo é infinito. Os meus principais desafios passam por conseguir estar à altura das exigências de condução e inspiração das pessoas que comigo colaboram, que me suportam, e que comungam na generalidade dos mesmos valores, princípios e ideais.

Sinto que conseguimos criar uma empresa bonita no geral e “as coisas” bonitas são raras. Quem connosco se cruza consegue perceber isso. Que somos pessoas especiais pela nossa naturalidade e normalidade, entregues a dar resposta aos desafios de forma atenta, cuidada, profunda e procurando sempre responder com honestidade e excelência. Tornamo-nos, pela demonstração, pessoas confiáveis, e depois disso o negócio ocorre e evolui com extrema naturalidade.

Temos crescido de forma orgânica e gradual, o que nem sempre é fácil, mas é preciso ter paciência até que as pessoas certas reparem em nós e se juntem. Por fim, mas não menos importante, espero que a busca pela definição e resposta de novos desafios não me desvie de, no foro pessoal, conseguir melhorar enquanto homem, marido, pai, filho, irmão e amigo.

Respostas rápidas:
O maior risco:
A globalização, embora também a maior oportunidade.
O maior erro: Foram tantos que não consigo destacar o maior.
A maior lição: “Não te precipites, mas também não percas tempo”.
A maior conquista: Ainda não está terminado, mas o SKY OFFICE que estamos a construir.

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