Opinião
Catástrofes: sem liderança única, o caos!
Portugal tem vivido, de forma quase contínua, sob o impacto de cheias e ventos fortes associados à passagem sucessiva de frentes de baixas pressões com nomes sofisticados: Francis, Goretti, Harry, Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e Marta.
Os nomes são, de facto, fancy. A realidade, porém, é tudo menos elegante. E os combóis de frentes e de nomes começam a ser, no mínimo, irritantes. Onde está o anticiclone dos Açores? A repetição e o teatro de operações no terreno está, no entanto, a expor novamente um problema que não é meteorológico, mas organizacional e de liderança.
Sempre que uma destas crises ocorre, assistimos ao mesmo cenário: populações que se sentem abandonadas; bombeiros exaustos; proteção civil sob pressão; militares, GNR, INEM, hospitais, câmaras municipais e múltiplas entidades a intervir, muitas vezes com enorme dedicação. Isso não está em causa. O problema não está nas pessoas. Está no sistema.
Em contexto de catástrofe (e em muitos outros), não pode haver múltiplas lideranças difusas. Não pode haver vários galos para o mesmo poleiro. Tem de existir uma liderança clara, legitimada e visível, agregadora de tudo e com poderes sobre todas estas entidades, para planear, recrutar, alocar e implementar no terreno. Para tudo, portanto. Que seja responsável por um plano integrado de intervenção imediata, recuperação e reconstrução e, sobretudo, integrado no sentido da ação no terreno. Sem isso, o que surge é o habitual: lutas de galos institucionais, disputas de protagonismo, comunicação contraditória e uma perigosíssima diluição de responsabilidades.
Quando não há comando único, ninguém responde pelo todo. A responsabilidade nunca aparece, os recursos são mal alocados, há duplicações onde não fazem falta e ausências onde seriam críticas. O resultado é previsível: eficácia limitada, soluções pouco sustentáveis e estruturas que se desmoronam a cada nova adversidade.
Isto não é uma discussão ideológica nem política. É uma questão de boas práticas de liderança e de logística, amplamente estudadas e testadas. Em operações complexas, sob pressão e com recursos escassos, a regra é simples: um comando, uma cadeia de decisão, uma prioridade clara. Coordenação não substitui liderança. Cooperação não substitui comando.
O comando único não elimina a autonomia técnica das equipas nem desvaloriza o conhecimento local. Pelo contrário: integra, ordena e potencia. Permite que cada entidade faça o que sabe fazer melhor, no momento certo, no local certo, com objetivos claros.
Enquanto continuarmos a gerir catástrofes como exercícios de concertação permanente, continuaremos a falhar. Crises não são seminários nem fóruns participativos. Podem até ser momentos de aprendizagem. Mas não de experimentação. São momentos de decisão rápida, execução rigorosa e responsabilidade assumida.
Sem liderança clara, não há resposta eficaz. Há apenas esforço desperdiçado. E isso, num país exposto a eventos extremos, cada vez mais frequentes, é o perpetuar de um disparate monumental que já não podemos permitir. Mas continuamos a deixar e a permitir. Só podemos queixar-nos, portanto, da burrice, sublinho burrice, de quem não o entende.








