Opinião

BGA, a academia que se assume como alternativa ao ensino tradicional

Luís Brito e Faro, Learning Coach Coordinator

Com um modelo de formação centrado nas capacidades e necessidades individuais dos alunos, os learners, a Brave Generation Academy (BGA) é um projeto educativo, baseado na tecnologia e totalmente em inglês, com poucos meses de atividade, mas que já soma 300 alunos e que continua a crescer além-fronteiras. Luís Brito e Faro, Learning Coach Coordinator, falou ao Link To Leaders da génese desta academia que quer ir mais longe do que apenas partilhar conhecimento. Quer preparar os jovens para mundo real.

Já imaginou uma escola sem professores, sem aulas obrigatórias e em que os alunos fazem, por exemplo, o seu próprio horário e plano de estudos? Esta é a proposta da BGA-Brave Generation Academy, um projeto educativo (em língua inglesa), fundado pelo empresário Tim Vieira e que se apresenta como uma alternativa ao ensino tradicional. Centrada numa plataforma online, a BGA segue um currículo internacional, dá primazia ao ensino de competências e à flexibilidade das matérias e dos horários.

Luís Brito e Faro coordena todos os mentores – learning coaches – da BGA e explicou ao Link To Leaders o funcionamento deste modelo de formação inovador e disruptivo que prioriza o indivíduo e que quer democratizar o ensino, geográfica e financeiramente.

O que é exatamente o projeto BGA?
A BGA é uma solução alternativa de educação. Nasceu de uma ideia do Tim Vieira que, durante a pandemia viu como os filhos trabalharam juntos, apesar de terem idades diferentes, e percebeu que eles gostavam de aprender, o que ele nunca tinha visto na escola tradicional. Viu que conseguiam trabalhar juntos e ter tempo para fazer coisas fora do académico. Ou seja, tempo para ir andar de mota, para jogar futebol, para nadar, jogar futebol, râguebi, aprender música…. e estavam mais felizes do que nunca.

Há muito tempo que muita gente diz que a educação tem de mudar, e esta ideia caiu num visionário que a fez acontecer e que começou a ver como era possível formalizá-la. Começou a falar com várias pessoas e, entretanto, chamou para a equipa o Marcus Schulze que é um dos fundadores e que começou a desenhar o programa.

“(…) havia a visão de tornar a educação acessível a toda a gente, ou seja, democratizar a educação”.

E como é o programa?
Muito à base da flexibilidade, da personalização de acordo como indivíduo, ou seja, o modelo pode ser adaptável às necessidade e objetivos da criança/adolescente. É um programa holístico, isto é, não ser meramente académico, mas conseguir suportar qualquer que sejam as necessidades da criança, desde o lado emocional e psicológico, até ao desportivo. Isto mais a nível individual.

Depois a nível coletivo havia a visão de tornar a educação acessível a toda a gente, ou seja, democratizar a educação. Isto implicou que o modelo pudesse chegar a toda a gente, quer a nível geográfico quer a nível financeiro. Fazer com que uma educação de alta qualidade consiga chegar à aldeia mais remota do mundo e a qualquer pessoa, de qualquer contexto social. Isto começou há cerca de dois anos e depois o modelo foi-se formalizando.

A melhor forma de pensar na BGA é imaginar um espaço de coworking, de 100 a 120 metros quadrados, com  um layout que tem mesas de coworking, uma focus room, onde as pessoas podem estar mais focadas no seu próprio trabalho, uma pequena kitchenette e uma pequena relax zone. E em cada um destes hubs existem dois learning coaches e 25 alunos a que nós chamamos learners.

E depois sustentamo-nos em três grandes pilares, o pilar de knowledge (conhecimento), que é o académico, as skills, que são as competências, e depois a comunidade, ou seja, estar completamente consciente e sensível à comunidade envolvente e a todas as coisas boas e más que acontecem e onde nós podemos acrescentar valor.

Como é que funciona?
Começando pela componente de knowledge, é tudo feito numa plataforma. Os alunos, que tem entre têm entre 12 a 18 anos, vêm para o hub, para este espaço de coworking, trazem o seu computador e tem um curso assíncrono em que têm um número de tópicos, cada tópico tem um quiz, um vídeo, um assignment, textos, atividades, etc. O aluno (learner) sabe a velocidade a que têm de andar para conseguir cumprir os objetivos.

Isto empodera muito aluno que consegue estudar ao próprio ritmo, não está dependente da velocidade de uma turma. Está tudo na plataforma e como esta é assíncrona, é à velocidade dele. Perde todo o tipo de ansiedade. Por exemplo, se eu for muito bom a física, não fico frustrado por ter de andar mais devagar e porque as outras pessoas não conseguem andar ao meu ritmo. Mas se calhar sou mais fraco em inglês, mas estou a ficar com imensos gaps na aprendizagem porque tenho de andar muito mais rápido do que o meu nível de conhecimento, por causa da turma. Isso connosco não acontece, porque esta componente é toda assíncrona e digital e dá toda esta flexibilidade.

E depois existe aquilo que nós chamamos os course managers que são os professores, por assim dizer. São os técnicos especialistas que estão a desenvolver o curso, que estão a fazer os assignments. Os alunos podem fazer a submissão desses trabalhos e o course manager dá feedback, faz comentários, fala com eles por mensagens, tem live lessons uma vez por semana e garante que o aluno está a cumprir com o seu progresso académico para, ao fim de x tempo, poder fazer um exame. É um exame externo e no nosso currículo que é o currículo britânico internacional.

Então os alunos sabem que entram na BGA e que vão ter esse exame ao fim de x tempo, dependendo de quando entram. Nós fazemos três programas diferentes deste currículo. O aluno entra na BGA e prepara-se para fazer esse programa. Esta é a bolha académica. Apesar de nos preocuparmos muito com as skills e a comunidade, queremos garantir que os alunos estão preparados academicamente para terminar o secundário e, se quiserem, ir para a faculdade. Terem essa possibilidade porque têm equivalência aos exames nacionais.

Mas continuando os três pilares, temos a componente das skills e da comunidade que é muito importante para nós.

“Aquilo que nós temos de fazer, acima de tudo, é preparar os jovens para torná-los flexíveis, adaptáveis e resilientes”.

Porquê?
A BGA foi criada porque acreditamos que a educação está desadequada ou desatualizada. Principalmente ao olhar para o mercado de trabalho ou para aquilo que é o mundo real dos adultos hoje em dia. O objetivo da escola é preparar um jovem para ter 18 anos e poder enfrentar o mundo. Eu acho que é a melhor forma de resumir a educação.

O mundo mudou nos últimos dois anos, mudou muito nos últimos 10 e mudou muito nos últimos 100. E a educação está da mesma forma. Hoje em dia vivemos num mundo altamente tecnológico e digital, mas o modelo é o mesmo. E é o modelo que tem de mudar. 30 ou 40% dos empregos vão ser automatizados até 2030 e grande parte dos empregos vão desaparecer, estão constantemente a ser reinventadas novas formas de trabalhar… Aquilo que nós temos de fazer, acima de tudo, é preparar os jovens para torná-los flexíveis, adaptáveis e resilientes. Assim, perante qualquer desafio que tenham de enfrentar, vão ser capazes de olhar para o futuro, estabelecer um objetivo e desenhar um plano para atingir esse objetivo.

É isso que nós tentamos ensinar aos nossos alunos: serem autónomos, responsáveis por si próprios e a aprenderem, consoante o desafio que tem à frente ou o objetivo que querem alcançar. E é aí que vem o pilar das skills e quando falo dos skills são quer as core skills quer as skills técnicas. Relativamente ao core skills é aprender a aprender. Diminuímos o gap entre a escola e o mundo real. Não limitamos os jovens a um determinado currículo porque o currículo está lá fora, está no mundo, o currículo não está dentro da escola.

E os restantes pilares de que falou?
E depois temos também a questão da comunidade. Os problemas que enfrentamos também são cada vez mais complexos. Já não são tão previsíveis e dentro da mesma indústria, cada vez mais é preciso ter várias pessoas a trabalhar face a um objetivo e, nesse sentido, tenho que saber colaborar com outras pessoas.

Para isso, preciso de competências sociais e é aí que vem a comunidade também, ou seja, trazer pessoas ao hub e saber fazer perguntas, saber ter uma conversa, conhecer vários temas. A parte da comunidade tem a ver com toda a questão de sensibilidade para as pessoas que me rodeiam, para conseguir ver o mundo da perspetiva deles, e para conseguir sacrificar às vezes um bocadinho do meu bem-estar pelo bem do grupo.

Qual o papel do learning coach neste processo?
Claro que o learner não está sozinho neste processo todo. Tem o apoio do learning coach. São dois por hub para 25 alunos. O objetivo é criar uma relação muito forte com os miúdos. Só para terem uma noção, no final da primeira semana os nossos learning coach tinham passado mais tempo com os seus learners do que um professor tradicional ao fim de 3 a 4 meses.

O hub está aberto das 8 às 18 horas e os miúdos estão mais ou menos 5 horas por dia no hub. O learning coach está lá e acaba por conhecer cada criança melhor que ninguém. Vai conhecer as suas vulnerabilidades, vai conhecer a sua personalidade, os seus objetivos, o seu contexto familiar, social e vai conseguir apoiá-lo nestas perspetivas todas.

Os nossos learning coach tendem a ser pessoas muito novas, entre os 25 e os 30 anos, de forma geral. São pessoas com uma linguagem e com uma forma de estar muito próxima dessas crianças, então criam uma relação especial.

O professor hoje em dia tem um trabalho muitíssimo complicado, tem de ser tanto um especialista técnico como um inspirador. E nós “dividimos” o professor em duas pessoas diferentes, o course manager, que é o especialista técnico que está na plataforma e que é muito bom na componente técnica, e depois temos um especialista humano que é o learning coach, que motiva a criança e que faz com que ela goste de aprender.

Quantos alunos já têm neste momento?
Temos 300 alunos. Abrimos formalmente em setembro do ano passado, com um hub no Guincho, em Cascais. E esse era o único hub, mas entretanto já temos 14 que sustentam esses 300 alunos.

Com que tipo de perfil?
A nível de perfil de aluno, o espectro é infinito, ou seja, não temos um perfil de alunos. Devemos ter umas 30 ou 40 nacionalidades na BGA, de todo o tipo de contextos sociais. É mesmo muito, muito diverso.
Nunca é a questão financeira que impede alguém de entrar na BGA. Nós temos um sistema de bolsas e não queremos que a questão financeira impeça uma pessoa de entrar.

Como é que funciona o sistema de bolsas?
Olhamos caso a caso. Se alguém precisar, falamos com a pessoa, vemos qual é o nível de necessidade, confiamos nessa pessoa e ajustamos a bolsa de forma adequada.

“A única diferença que se pode notar a nível de perfil é que quanto mais para Sul mais pessoas internacionais existem, mais estrangeiros”.

Há alguma disparidade entre quem está no Centro e quem está no Norte e Sul do país?
A única diferença que se pode notar a nível de perfil é que quanto mais para Sul mais pessoas internacionais existem, mais estrangeiros. Por exemplo, no Algarve são quase todos estrangeiros. No Porto já há bastantes portugueses, em Cascais também existem bastantes portugueses, mas muitos estrangeiros também.

Desde grupo de 300 alunos atuais qual é, grosso modo, a divisão geográfica?
Eu diria que 60% está em Cascais e Lisboa. E depois dividiria 12 a 15% zona Norte, 15 a 20% na zona Centro, e se calhar mais 15% no Algarve… algo do género. Cascais é a maior zona de todas e depois Lisboa e Porto. São o Top 3.

Têm um papel desafiante de passar a mensagem de uma escola completamente disruptiva, em relação ao que é habitual, aos pais. Como é que os pais têm a aceitado este projeto, na medida em que são eles que autorizam os filhos a participarem?
É um bocadinho ao contrário, os miúdos é que querem vir e são eles que convencem os pais. E há algo muito simples que é: se os miúdos estão felizes, os pais estão felizes. A forma como a BGA tem crescido é um bocadinho um sistema de embaixadores. São os pais a fazerem o passa palavra.

E na BGA são os alunos que acordam de manhã e que querem vir. Eles fazem os próprios horários, ninguém os obriga a estar aqui às 8.30 e eles estão porque querem, porque é um espaço saudável e onde têm amigos, onde têm espaço para serem quem eles querem ser e onde estão em paz.

Quando um pai vê o seu filho feliz e motivado e a querer fazer coisas, a querer estudar, não porque o estão a obrigar, mas porque ele quer, acho que está vendido.

E como é que sabem que o filho está a aprender?
Temos várias ferramentas. A primeira é a timeline. Os programas são de dois anos. Agora, imagine que entra em setembro de 2022 e quer fazer o exame em maio de 2024. Eu tenho uma timeline, uma ferramenta, que calcula automaticamente para cada dia que tópico é que eu tenho de fazer para não ficar atrasado.

Depois temos os assignment e os quiz que avaliados pelos course managers que dão um feedback qualitativo do nível de conhecimento do aluno acerca dos materiais. E depois ainda há as live lessons. Todas as segundas-feiras, o learning coach senta-se com o learner e refletem sobre a semana anterior, os objetivos que atingiu e, se não atingiu, porque razão. Depois planeia a semana seguinte..

Depois olhamos também para cinco áreas de desenvolvimento do aluno que é o self direct learning, ou seja, a capacidade de aprendizagem autónoma; motivation, que tem a ver com fazer as coisas o melhor que posso com excelência; iniciativa, sair da zona de conforto e experimentar coisas novas; peer to peer learning, isto é não ter problema em pedir ajuda aos colegas; e depois temos o hub participation que tem a ver com o respeitar o espaço, o nível de barulho, limpar o posto de trabalho quando sai do hub.

Em relação às competências na área académica como é que foram desenvolvidos os conteúdos programáticos? Vão ao encontro do que ensino tradicional, a Direção-Geral de Ensino, preconiza?
O nosso currículo é que o que está no currículo britânico internacional, que está bastante bem estabelecido e tem as maiores equivalências a nível internacional. O que fizemos foi uma parceria com uma empresa que já tinha este currículo e que já tinha materiais desenvolvidos. Ficámos com os conteúdos dessa plataforma digital online. Depois contratámos os course managers, que são os técnicos especialistas, para desenvolverem e melhorarem ainda mais os conteúdos e poderem estar constantemente a dar feedback e a apoiar os alunos.

Além dos 14 hubs em Portugal onde estão?
Temos três hubs na África do Sul, um na Namíbia, um em Moçambique e um no Quénia. E vamos abrir brevemente nos Estados Unidos.

“Enfrentamos o início deste projeto a saber que esta é uma montanha-russa, ou seja, estávamos à espera que houvesse desafios e de aprender com o processo”.

Depois destes meses de atividade, qual o balanço que faz?
Estamos muito felizes com a relação que foi criada entre os learning coach e os learners. Foi excecional. Talvez possa ter havido desafios mais académicos, porque há muitas normas a cumprir, mas temos uma equipa muito forte, com pessoas com uma experiência brutal na área académica e conseguimos contornar tudo isso.

Enfrentamos o início deste projeto a saber que esta é uma montanha-russa, ou seja, estávamos à espera que houvesse desafios e de aprender com o processo. Tínhamos a nossa visão, o nosso modelo, os nossos valores e isso é algo mais imutável. Mas depois, a nível de trabalho prático, no terreno, temos pessoas completamente fora de série a liderar o caminho.

No seu caso, enquanto coordenador de learning coachs, como é feita a captação de talento e depois a retenção? O que é que é preciso para se ser um learning coach?
A nível de captação olhamos muito mais para skills do que para médias e para os cursos. Quando eu olho para um currículo e vejo o curso, se calhar é mais para ver a personalidade da pessoa. Mas quando olho para uma pessoa, olho muito para os desafios a que se possa ter atirado durante a vida. Para o tipo de contexto em que gosta de trabalhar e, claro, se teve experiência com crianças. É algo muito, muito importante.

Mesmo que já fossemos uma empresa super madura, a nível de hub é tudo muito imprevisível. Não sabemos como é que o dia vai ser, os desafios são sempre totalmente diferentes, porque cada pessoa está a ir ao seu ritmo, tudo é muito personalizável. Alimentamos precisamente essa individualidade. Então temos de ter pessoas, learning coach, que estejam confortáveis com essa imprevisibilidade.

E o facto de os learning coach serem tão jovens…não falta uma maior experiência de vida?
O único desafio que uma pessoa jovem pode ter a trabalhar com pessoas muito jovens é um bocadinho ao nível de estabelecer fronteiras, de conseguir limitar. Acho que este é um dos principais desafios que enfrentamos por estarmos a trabalhar com pessoas muito jovens. Mas o facto de estarmos a contratar jovens é precisamente para que esta conexão possa existir.

Claro que às vezes apanhamos pessoas mais velhas e que têm esta energia. Podemos contratar uma pessoa com 55 anos que têm a vida, energia e a visão de uma pessoa de 20 ou de 25. E aí temos o melhor dos dois mundos. Não é meramente um fator de idade, é a forma de ver a vida.

Qual a equipa neste momento?
Temos 18 course managers, vamos ter 53 learning coach e na central devemos ter uma equipa entre 10 a 15 pessoas.

Como vê a Brave Generation Academy dentro de um ano? Em que outros países ou outros mercados podemos esperar encontrar este conceito?
A nível de objetivos, uma das coisas que mais sonho na BGA é precisamente chegar a todos os miúdos. Pelo menos dar-lhes a oportunidade, de chegar a toda a gente. Temos um hub interessante em Espinhal, uma aldeia perto de Coimbra. Deve ter uns 1000 habitantes e foram quatro casais internacionais viver para lá por causa do hub.

Em Portugal, um dos principais problemas neste momento é desertificação e eu vejo o projeto como uma forma de batalhar contra isso e de termos pessoas que, em condições normais, não teriam acesso a uma educação de qualidade e a um mentor e um learning coach que o oriente. Por causa do nosso modo de operação, isso passa a ser possível. E nessa perspetiva quero muito crescer e chegar a toda a gente.

Onde vejo a BGA num ano?  Vejo-a com os mesmos valores que temos agora. Manter as coisas simples, tratar a criança como um indivíduo, evitar muita burocracia que é o que se vê nas escolas hoje em dia. São os meus objetivos, manter as coisas simples, pôr o aluno em primeiro lugar e manter o foco naquilo que é prioridade.

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