“Um dos programas televisivos de entretenimento que aprecio é o “The Voice”, cujo formato encerra em si vários aspetos que tendem a ser valorizados em matéria de liderança ou gestão organizacional. As “audições cegas”, em particular, são, a meu ver, um verdadeiro hino à equidade humana e social.”

Um dos programas televisivos de entretenimento que aprecio é o “The Voice”, concurso no qual os concorrentes interpretam uma canção à sua escolha, com o objetivo de serem selecionados por um dos quatro elementos que compõem o júri, habitualmente músicos famosos ou de reconhecida craveira.

O acesso a uma miríade de canais internacionais, além dos conteúdos disponíveis nas redes sociais, possibilita a visualização deste programa em diferentes países. Ainda que o talento musical – como aliás todos os outros – não conheça fronteiras, gosto particularmente da forma como este programa é produzido nos Estados Unidos, Inglaterra e França.

O formato da primeira fase deste programa é particularmente interessante e seguramente distinto de todos os outros, na medida em que os elementos do júri não conhecem e não podem estabelecer qualquer contato visual com os concorrentes, mesmo após o início da atuação destes, até ao exato momento em que, eventualmente, decidam selecioná-los para as suas equipas, fazendo girar em 180º as suas cadeiras, até então viradas de costas para o palco.

Esta fase inicial do programa consiste nas chamadas “provas cegas” ou “audições cegas”.

Todos os elementos do júri podem optar por “girar a cadeira”, demonstrando a sua intenção em “recrutar” um determinado concorrente para a sua equipa, cabendo, nesse caso, ao concorrente optar por um deles. Em alguns casos, nenhum dos elementos do júri opta por fazê-lo, daí resultando a imediata desqualificação do concorrente do concurso.

Foram precisamente as “audições cegas” que me inspiraram a escrever este texto.

Porque estas são, a meu ver, um verdadeiro hino à equidade humana e social.

Jovens ou idosos, bonitas ou feias, brancos ou negros, gordas ou magras, baixos ou altos, pobres ou ricas, carecas ou cabeludos, simpáticas ou antipáticas, nada disso importa! Por outras palavras, preconceitos de natureza humana ou social ali não têm lugar (nota: apenas o género da pessoa poderá, em teoria, ser objeto de eventual discriminação, quando a voz seja distinguível).

Por outras palavras, apenas o mais básico e elementar fator na interpretação de uma canção importa – a voz, ou talento, do intérprete, nas suas várias dimensões (tonalidade, profundidade, afinação, entre outras). É tão só nesse fator que se baseia o processo de decisão dos elementos do júri.

Mas o tópico deste texto tem mais a ver com o conteúdo editorial do Link to Leaders do que possa parecer à primeira vista. Com efeito, o formato deste programa encerra em si um conjunto de outros aspetos que tendem a ser valorizados em matéria de liderança ou gestão de organizações, a saber:

  • Humildade dos elementos do júri, nos gestos de atenção, admiração ou elogio que dirigem aos concorrentes, incluindo – talvez o mais emblemático de todos – o aplauso de pé aqueles que conseguem as melhores prestações. Que bonito é ver os “mestres” a aplaudir de pé os “aprendizes”, reconhecendo o talento e desempenho destes;
  • Resiliência dos concorrentes, pela forma como têm de saber gerir a pressão nos dois ou três minutos “mais importantes das suas vidas” (sentido figurado), principalmente quando o “girar da cadeira” não aparece e o final da canção se aproxima, momento em que a capacidade dos concorrentes se reinventarem, “puxar por aquela nota” e manter o máximo foco e determinação é crucial para tentar aproveitar a última réstia de esperança em serem selecionados;
  • Talento dos concorrentes, seja pelo dom com que afortunadamente vieram ao mundo ou pela habilidade que esforçadamente foram desenvolvendo ao longo da sua vida e que, corajosamente, aceitam expor e colocar à prova perante um júri e o público em geral. Como afirmei num dos meus anteriores artigos, todas as pessoas têm algum tipo talento, todas são capazes, muitas apenas precisam do momento e da oportunidade certos para o poder demonstrar; e
  • Desenvolvimento do talento dos concorrentes, por via da aprendizagem e coaching promovido, de forma altruísta, pelos elementos do júri ao longo das várias fases do programa, certamente relevante no aprimoramento desse talento e na potenciação de oportunidades pessoais e de carreira para os concorrentes.

Pois é, quem diria que um mero programa televisivo de entretenimento não pode, mesmo que de forma indireta e descontraída, trazer-nos ou relembrar-nos de algumas lições ou conceitos práticos e úteis em matéria de liderança ou de gestão?

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Sobre o autor

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Tiago Rodrigues conta com mais de dez anos em funções de gestão e administração em empresas de energia, infraestrutura, turismo e imobiliário e oito anos como consultor, tendo experiência de vida, profissional e académica em Portugal, Brasil, Reino Unido e... Ler Mais