Opinião
As decisões (aparentemente) pequenas que mudam tudo
Quando falamos do tema da igualdade de género no trabalho, sobretudo no que toca aos cargos de liderança, o debate tende a focar-se, naturalmente, nos ainda visíveis fatores estruturais como a falta de representatividade, os processos de recrutamento, os desafios de progressão ou o impacto da maternidade nas carreiras das mulheres.
Esta é uma realidade ainda mais acentuada no setor tecnológico, num momento em que, segundo dados do Eurostat, em 2024 apenas uma em cada quatro pessoas especialistas em TIC eram mulheres.
A relevância desta temática exige uma atenção e discussão contínuas, para que seja possível responder a este desafio da sub-representatividade das mulheres em tecnologia. Ainda assim, há um outro plano – menos visível e explorado – que considero que também molda profundamente os percursos profissionais das mulheres nesta área: o impacto das aparentes micro-decisões.
Muito antes do primeiro cargo de liderança ou até do primeiro emprego, existem escolhas aparentemente pequenas, mas que têm um efeito cumulativo enorme no percurso profissional de uma mulher, sobretudo nos ramos tecnológicos ou científicos. A decisão da área que seguimos na escola, as atividades extracurriculares em que decidimos participar ou os passos que damos nos primeiros momentos da carreira têm um impacto muito mais profundo do que aquele que podemos imaginar.
No que toca ao meu percurso, na chegada ao 10º ano escolhi a área de Ciências por sempre me fascinar a ideia de conseguir compreender como funcionam as coisas. Para mim, foi uma escolha bastante natural e até simples, mas quando chegou efetivamente o primeiro dia, surpreendi-me: a maioria da turma era composta por rapazes, num setor (ainda) amplamente constituído por homens, o que fazia – e faz – com que muitas raparigas não se vejam representadas. Perante esta realidade, percebi que a minha escolha – e a de que qualquer mulher que opte por seguir um percurso nesta área -, não é apenas uma decisão menor: é um passo em direção a um futuro mais representativo. Por isso, decidir avançar por esse caminho, sem ter medo de ser diferente, logo no pico da adolescência, onde o sentimento de pertença é muito procurado, não é fácil, mas é o necessário.
Além da escolha da área ou, mais tarde, do curso universitário, a integração em associações ou projetos académicos pode também ter um impacto significativo na nossa vida profissional. Na faculdade, ao decidir candidatar-me a vice-presidente da JuniFEUP – uma associação de estudantes universitários de soluções de consultoria IT – comecei a ter as primeiras experiências de liderança, o que me permitiu não só desenvolver competências centrais para o meu trabalho, mas perceber que o meu caminho passaria por aí.
Mas estas aparentes micro-decisões não se esgotam após a entrada no mercado de trabalho; repetem-se ao longo da carreira. Candidatarmo-nos a uma função mesmo sem termos a certeza se cumprimos todos os requisitos, aceitarmos um desafio que nos obriga a sair da zona de conforto, ou arriscarmos mesmo quando sabemos que as probabilidades não estão do nosso lado. Às vezes, é só decidir atender a chamada de um colega que se lembra de nós da faculdade e que quer perceber melhor o nosso percurso que nos abre as portas para uma posição que não estava sequer publicada. Esta coragem de arriscar é fundamental para conseguirmos alcançar os nossos objetivos.
Reconhecer o valor destas “micro”-decisões não substitui a necessidade de mudar estruturas, processos e mentalidades nas organizações e na sociedade. Ainda assim, ajuda-nos a perceber melhor como os nossos percursos se formam e como podemos, desde cedo, criar condições para que mais mulheres sigam o caminho que ambicionam, mesmo que não sejam ainda representadas na sua plenitude. Porque, muitas vezes, liderar começa muito antes do cargo: começa no momento em que decidimos arriscar.








