O conceito de empreendedorismo surge habitualmente associado à capacidade de criar e gerir empresas, de identificar oportunidades de negócio, de investir assumindo riscos, de inovar no desenvolvimento de produtos, de valorizar economicamente o conhecimento…

Mas o empreendedorismo significa muito mais do que isto. É, no fundo, a realização do indivíduo através da criação de valor para si e para os outros, o que pressupõe vontade e capacidade para encetar ações que transformem a realidade.

A escola, por seu turno, é o espaço privilegiado de aprendizagem nas sociedades contemporâneas, desempenhando um papel fundamental quer na formação técnico-científica do indivíduo, quer ainda na sua formação humana e cívica. Por isso, a escola é, à partida, o local ideal para uma educação para o empreendedorismo e para o consequente desenvolvimento do espírito de iniciativa.

Para lá das características inatas de cada aluno, é possível estimular e desenvolver nas escolas um conjunto de comportamentos, atributos e mundividências que habitualmente associamos ao perfil de um empreendedor. Criatividade, determinação, liderança, organização, planeamento, visão e resiliência são qualidades humanas passíveis de serem desenvolvidas em todas as crianças e jovens, preparando-os assim para um percurso escolar e profissional cada vez mais competitivo.

Neste pressuposto, parece-me adequada a introdução de uma disciplina de empreendedorismo nos currículos escolares. Ensinar as crianças a elaborarem planos de negócio, a dominarem as ferramentas básicas de gestão, a terem noção da lógica do mercado, a desenvolverem a sua criatividade, a serem inovadoras, a assumirem riscos e a saberem gerir o insucesso é pedagógica e socialmente pertinente.

A intenção não é, obviamente, que todas as crianças abracem mais tarde a atividade empresarial. Trata-se, sim, de preparar os alunos desde os primeiros ciclos de ensino para os desafios da sociedade do conhecimento e para um mercado de trabalho que, em consequência da revolução tecnológica, exige uma permanente capacidade de adaptação.

Da mesma forma me parece importante a introdução à programação informática logo nos primeiros anos de escola, como, de resto, já está a ser implementado em alguns projetos-piloto. A infância é um período crucial para o desenvolvimento humano, determinando em boa medida a futura aptidão profissional. Importa, pois, garantir que as crianças adquirem competências digitais que lhes permitam, não só um uso consciente das novas tecnologias, mas também a resolução de problemas através do raciocínio crítico e lógico.

A formação escolar deve, portanto, incluir disciplinas adequadas à sociedade em rede, articulando-as com as disciplinas estruturantes, como o Português, a Matemática, a História ou as Artes. E tudo isto sem esquecer, claro, a literacia empresarial e financeira das crianças, que, como vimos, pode ser um importante complemento à formação básica do sistema educativo português.

Tratando-se de crianças, pode parecer excessivo todas estas disciplinas e áreas de estudo. Mas é preciso ter presente que a realidade social e profissional atual exige o domínio de múltiplas competências. A multidisciplinaridade, aqui entendida como a capacidade de relacionar e aplicar conhecimentos de áreas muito diversas, é um atributo fundamental para vencer no mercado de trabalho e no estilo de vida contemporâneos. Por isso, devemos preparar já as nossas crianças para a transversalidade do conhecimento.

* Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais