Muda a tecnologia, muda a economia, muda a sociedade. Mudam os hábitos culturais e o modo como nos relacionamos com os outros. Muda a organização do trabalho e as competências-chave dos profissionais. Mas há algo que teima em não mudar: a forma como estruturamos os governos e a sua organização.

Em Portugal e um pouco por todo o mundo, sejam os ditos governos mais à esquerda ou à direita, ainda são estruturados em ministérios que representam áreas de jurisdição herdadas do século XX (ou mesmo do século XIX).

Num mundo em que o denominador comum é a rápida mudança, quisemos transpor uma nova perspetiva para o plano governativo: projetar uma estruturação rompendo com o tradicional modelo de ministérios estanques, privilegiando antes uma desejável interação e cooperação interministerial. Uma composição governamental essencialmente orientada a resultados, a impactos desejados na sociedade. Não temos, contudo, a veleidade de abarcar nesta sede todo o Executivo, que apelidámos, “do futuro”. Continuarão, claro, a ser necessários ministérios que garantam as funções-chave tradicionais e de soberania, como as Finanças, a Defesa, a Justiça ou os Negócios Estrangeiros. Mas quisemos salientar “pastas”, que em nosso entender, deverão merecer adequado sentido de urgência no tempo em que vivemos:

  • Ministério da População – visando desenhar políticas orientadas aos desafios das tendências populacionais, respondendo ao “inverno” demográfico que enfrentamos, pela intervenção nas vertentes que podem atuar e mitigar os impactos da crescente diminuição da natalidade e do envelhecimento populacional, trabalhando soluções no curto-médio prazos, aqui sendo igualmente definidas políticas de imigração/ integração.
  • Ministério para o Capital Humano – visando  atuar em três agendas prioritárias: 1) a mudança de paradigma da aprendizagem educativa tradicional, baseada na transmissão de conhecimento fundada no modelo clássico, para a disrupção de novos modelos que privilegiem competências essenciais para a era pós-digital,  designadamente  sociais e emocionais (soft skills); 2) a aquisição de novas competências e a requalificação de outras, para profissionais ativos e não ativos, que podem ser co-dinamizadores de uma estratégia de combate ao desemprego com base num programa nacional que responda à transformação digital em curso – soluções promotoras de empregabilidade e produtividade e 3) a progressiva adaptação e flexibilização da legislação aos novos modelos de organização do trabalho.
  • Ministério da Segurança – visando reforçar os mecanismos de proteção e de combate a ameaças, físicas e virtuais, que põem continuamente em risco a segurança dos cidadãos, incrementando (novos) níveis de proteção da sua identidade, informação e privacidade.
  • Ministério para a Mobilidade e Comunicação – com foco na implementação de novas infraestruturas de transportes, logística e redes de suporte à promoção da mobilidade de pessoas, bens e dados – fatores preponderantes para a competitividade e melhoria contínua da qualidade de vida, que cada vez mais são diferenciadores no quadro competitivo entre países e ao nível geopolítico.
  • Ministério para a Saúde e Bem-Estar social – visando criar políticas aptas a proporcionar a todos os cidadãos condições de acesso efetivo e tempestivo à saúde, com integração rápida dos novos avanços científicos e tecnológicos, bem como do seu bem-estar físico, psicológico e social face ao aumento expectável da longevidade humana.
  • Ministério para a Sociedade Digital – visando regular e dinamizar a afirmação virtuosa e holística do digital na sociedade e economia nacionais, tornando o país como referência e hub digital – alavancando oportunidades (novas tecnologias como AI, Machine Learning, IoT ou Blockchain) e avanços económicos e sociais com base numa vantagem competitiva nacional.
  • Ministério para a Atratividade e Diversidade – Que reforce políticas integradas de atratividade do País (promoção da marca Portugal como polo de atração de investimentos, de residentes, profissionais e estudantes), pugnando pela adoção de boas práticas transversais que simplifiquem processos e sirvam de catalisador para a atração e captação inteligente de valor para o território nacional.
  • Ministério para a Sustentabilidade Económica e Ambiental – visando implementar uma nova agenda de políticas a favor da proteção da biosfera, descarbonização, transição energética e incentivar uma economia baseada no duplo dividendo – promovendo uma economia circular, com elevado valor e promotora de sustentabilidade ambiental.
  • Ministério da Segurança e Impacto Social – visando adotar políticas de garantia e proteção social, assegurando os direitos elementares dos cidadãos, alocando para tal os respetivos recursos públicos e criando condições para o florescimento de soluções da cada vez mais relevante área da inovação social (na cidadania, cultura, combate à exclusão social, envelhecimento ativo, entre outros).

Na nossa ótica, a cultura do governo deverá ser necessariamente colaborativa, de resultados e de impactos. O estabelecimento sequencial de objetivos/ métricas/ metas será a garantia que 1) o governo monitoriza em tempo real o seu desempenho e 2) existirá um saudável e transversal escrutínio público sobre a sua ação.

Tendo consciência de que este será um trabalho que exige “aculturação” e afinação de prioridades pelas presentes e futuras estruturas governativas, elegeríamos como princípios do Governo “do futuro”, numa ótica de tutela superior do interesse público, os seguintes: sustentabilidade, inovação, capacitação, inclusão, propósito, simplificação e cooperação interministerial, sempre com a tónica na obtenção de resultados e de impactos sociais.

Que assim seja!

*Coordenadores da Plataforma Portugal Agora (www.portugalagora.com)

Carlos Sezões é, deste 2010, Partner em Portugal da Stanton Chase, uma das 10 maiores multinacionais de Executive Search, também dedicada às áreas de Talent Management e Executive Coaching.
Graça Quintas, advogada.
Miguel Leocádio é executivo na Novabase, onde se encontra desde 2010.

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