Trabalhar a terra, cultivá-la, para obter fruto, é uma atividade dos primórdios da vida do homem sobre a terra. A observação da natureza fez entender quando e como fazer as plantações, como alimentar e adubar para fortalecer e quando colher os frutos.

Depois, sucessivos progressos e variações sobre os diversos aspetos da vida vegetal, para selecionar as espécies mais saborosas, mais atraentes a vista, mais produtivas, se seguiram. Todo o ser humano precisa de se alimentar, daí ser preciso produzir cada vez melhor, sem esgotar os solos. Os preços das matérias alimentares tenderão a subir de modo a colocá-los a níveis que proporcionem um rendimento aceitável ao trabalhador agrícola.

Uso intenso, racional, recompondo o solo

A agricultura cria riqueza e trabalho, conforme o tipo do cultivo. Pode-se consumir de imediato ou exportar produtos frescos ou, com as devidas transformações, ter produtos horto-frutícolas para consumo em épocas mais dilatadas no tempo.

Com um estudo dos solos, da afluência da humidade, associados às necessidades de consumo, pode-se criar um programa de culturas que melhore a rendibilidade do solo, refazer a sua constituição, sem o esgotar. Em muitos locais da Índia, há como três épocas de plantações e colheita:

– Na época chuvosa, das monções, prepara-se o cultivo do arroz e outros cereais que necessitam de abundância de água. O processo de sementeira em viveiro, preparação do terreno, transplante das plantas, adubação, o espigar, o amadurecimento e a colheita estende-se por cerca de quatro meses: é o ciclo do arroz. Após a ceifa, a palha de arroz é seca e feita em palheiro para servir de alimento ao gado. Nunca é queimada, seria um desperdício, pois é o melhor alimento para o gado. Em muitos locais o gado é deixado à solta no terreno ceifado, para que se alimente dos restos. Assim se aproveitam os adubos orgânicos: os restos das plantas e a defecação do gado.

Nos quatro meses seguintes, vem outra plantação, geralmente de pimenta, de hortaliças (quiabos, repolho, couves, beringela, etc.), de melancias e melões, abóboras, etc., que não necessitam de muita água e são regados com a água dos poços localmente perfurados.

Com um bom sistema de rega, pode-se ainda ter uma terceira plantação e colheita, de espécies que se dão bem com o calor, como são as plantas oleaginosas – como o girassol e outras. Por vezes as culturas de ciclo longo da segunda fase podem entrar também nesta fase, podendo dar mais frutos.

Ao preparar o solo para cada etapa, revolve-se a terra, que faz fixar nitrogéneo. A rotação dos cultivos vai ligada ao que cada tipo de planta precisa, os nutrientes que retira do solo. E na alternância e adubação, o solo vai-se recompondo. Na época das chuvas os terrenos ficam alagados e as matérias aluviais enriquecem os solos.

Das culturas possíveis, as preferidas são as mais ricas, que se pagam melhor. Ao deixar de parte o que sempre se fez para buscar melhor rendimento, pode obrigar a plantar alguma variante ou ir a uma nova espécie, mesmo sem tradição local. Se ela se dá bem e compensa, porque não? É o caso das espécies vegetais trazidas de outros continentes. Há que aproveitar a globalização para que todos provem e se alimentem de vegetais a que não tinham tido acesso, ou que tentem cultivá-los no seu local.

I&D focado: melhorar variedades; novas culturas; mais valor nutritivo

Muito importante é na Índia o setor agrícola, que ocupa metade da população ativa. Tudo quanto aumente o seu valor, dá melhores rendimentos a quem trabalha a terra. Importa ter uma agricultura evoluída e em progresso. É bom perguntar-se sempre se não haverá culturas e/ou variedades que rendam mais. Com alguma investigação aplicada, para melhorar a produtividade, com novas variedades algo é possível. Foi o que aconteceu com a Revolução Verde, que para além de encontrar variedades de arroz com maior produtividade, eram mais resistentes às intempéries; estas variedades distribuídas a toda a população, multiplicaram a produção. Atualmente, a Índia tem um excesso de cereais, podendo cada ano vender perto de 20 milhões de toneladas deles.

Há trabalho de I&D feito que é inspirador! Por exemplo, a manga recebeu boa atenção dos missionários portugueses, em Goa, tendo selecionado qualidades multiplicadas pelo processo de enxertia. A manga de Goa tem muita procura e a reprodução é feita aos milhares, por meios científicos, com base no tecido da planta a multiplicar. Há, assim, a manga Afonso, Malcorada, Monserrate, Fernandina, etc… e quando se quer cultivar um grande pomar delas, em qualquer local da Índia, escolhem-se as de maior valor económico, como a Afonso, com cores atraentes, perfumadas e uma polpa grande e suculenta.

Diga-se o mesmo da rega: vão-se usando técnicas de gastar o mínimo de água, como a rega gota-a-gota, com as oliveiras, no deserto do Rajastan. E novas espécies vegetais: a oliveira não é mediterrânica? Contudo, dá-se bem em climas quentes e secos; a tamara, não é da Arábia? Mas dá-se bem em zonas quentes da Índia, com boas produções anuais, na ordem dos 100 kgs por tamareira. Muito ainda falta fazer no que toca à produção e comercialização de mel de abelhas, de cogumelos comestíveis, de compotas de variados sabores, de preferência todos orgânicos.

Toda a investigação aplicada dá frutos rápidos. Por isso, as dezenas de Centros de Investigação Agronómica da Índia deveriam propor-se desafios ousados para fazer avançar a produção e as características das espécies vegetais em uso.

 

*Professor da AESE-Business School, do IIM Rohtak (Índia) e autor do livro “O Despertar da Índia”

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Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”,... Ler Mais