As tecnologias inovam, as sociedades adaptam-se, as culturas mudam… Uma evidência: as organizações políticas e de gestão, decisão e administração pública são as mais resistentes à mudança.

Os motivos são variados e dariam para muitas teses académicas. Deixo o diagnóstico para outros e irei direto ao ponto: as nossas instituições públicas têm de mudar, ser mais eficientes e eficazes. Para tal, é necessário algo que designarei como agilidade institucional.

Concretizo. Temos um mundo cada vez mais incerto, volátil e complexo, em que desafios e ameaças diversas podem colocar em causa as condições de vida em sociedade como nós a concebemos nas últimas gerações. A mudança é intensa, pela aceleração do desenvolvimento humano e ações/ reações da natureza. As respostas das sociedades e dos Estados-nação nos quais estão estruturadas, não podem ter o mesmo ritmo da burocracia dos séculos XIX ou XX.

Pandemias, alterações climáticas, migrações, introdução de tecnologias disruptivas, novos paradigmas no mundo do trabalho…. Desafios que se colocam, uns relativamente previsíveis no tempo, outros que se concretizam em dias/ semanas, sem pré-aviso. Como está patente na resposta a esta pandemia ou nos incêndios de verão. Ou na resposta às vagas migratórias. Ou nas paralisações de cadeias de abastecimento de energia/ combustíveis. Ou na falta de regulação nos modelos de negócio assentes em plataformas digitais.

Sim, sei que misturo vários temas, de essência, gravidades e urgências diferentes, mas com um denominador comum: a incapacidade de resposta eficaz do Estado e suas instituições em tempo útil.

Quando exponho problemas, gosto de avançar com ideias ou soluções. Aqui vão.
Precisamos de uma nova arquitetura de “Governo”, rompendo com o tradicional modelo de ministérios estanques, privilegiando antes uma desejável interação e cooperação interministerial, em função dos desafios globais. Uma composição governamental essencialmente orientada a resultados, a impactos desejados na sociedade. Uma cultura de governo que deverá ser necessariamente colaborativa.
O estabelecimento sequencial de objetivos/ métricas/ metas será a garantia que 1) o governo monitoriza em tempo real o seu desempenho e 2) existirá uma maior transparência e um saudável e transversal escrutínio público sobre a sua ação.

Pensando “em cascata”, precisamos, adicionalmente, de uma administração pública com melhores lideranças, quer de topo, quer intermédias. Com autonomia e fluidez na decisão. Há que capacitar as nossas instituições com melhor governance, gestão da informação e capacidade de análise. Precisamos de novas competências, processos digitais simplificados, gestão com base em dados, sem silos e fronteiras estanques. Uma administração que interaja com a sociedade civil (universidades, fundações, empresas, centros de investigação, sector social), proporcionando-lhe dados e “contexto” para uma saudável entreajuda na tomada de decisões e articulação de ações.  E, claro, envolvimento dos colaboradores públicos numa inovação e mudança constante, tolerante ao risco e ao erro, com os incentivos adequados,

Especificamente, há que voltar a  ter entidades/ equipas de missão focadas no diagnóstico e antevisão de cenários de futuro, de cariz económico, social ou ambiental (com a criação dos devidos planos de contingência); há que desenvolver unidades especializadas e processos dedicados à deteção dos riscos e sua rápida mitigação; há que assegurar a resiliência (ex. alocação de pessoas e recursos) quando algo corre mal na nossa vida em sociedade.

Sim, a mudança aqui exposta é grande. Implica mudar de paradigmas e hábitos seculares. A boa gestão dos nossos bens públicos (segurança, saúde, sustentabilidade) assim o exige.

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Carlos Sezões é, deste 2010, Partner em Portugal da Stanton Chase, uma das 10 maiores multinacionais de Executive Search – também dedicada às áreas de Talent Management e Executive Coaching. Começou a sua carreira no Banco BPI em 1999. Assumiu... Ler Mais