“São muitos os fatores que tornam o Porto no centro de atração empresarial que é hoje e potenciam a entrada de cada vez mais empresas e start-ups na cidade, bem como investidores e empreendedores”, afirma o presidente da Porto Tech Hub. Ao Link To Leaders, Luís Silva lembra que a crescente procura por profissionais na área tecnológica não é acompanhada pela oferta de talento qualificado e destaca a importância da formação.

Na presidência da Porto Tech Hub desde 2021, Luís Silva faz um balanço muito positivo da atividade da associação, com  muitas metas já alcançadas e confirma que, passados sete anos desde a sua fundação, a missão de serem uma uma entidade impulsionadora do Porto como centro tecnológico e de inovação de excelência, tanto a nível nacional como internacional, tem vindo a ser alcançada.

Lembra que “existem muito boas ideias, mas para as manter e desenvolver, de forma a tornarem-se negócios consolidados, faltam competências, pelo que é importante olharmos para nós, gestores e empreendedores e percebermos como podemos crescer”.

Foi exatamente a pensar na formação e qualificação de profissionais e potenciais empreendedores, que a Porto Tech Hub se juntou ao Instituto Superior de Engenharia do Porto, para criar a pós-graduação SWitCH QA. Em entrevista ao Link To Leaders, Luís Silva explica em que consiste este curso, traça o perfil do ecossistema do Porto e dos “argumentos” que a cidade tem para atrair e fidelizar start-ups, empresas e investidores.

A Porto Tech Hub está envolvida no lançamento do SWitCH Quality Assurance. Quais as metas a que se propõe esta formação?
O SWitCH QA é a nova pós-graduação criada pela Porto Tech Hub, em conjunto com o Instituto Superior de Engenharia do Porto, que vem dar a possibilidade a novas pessoas de ingressarem numa das carreiras com maior perspetiva de futuro, como Quality Assurance Testers, tornando-se profissionais qualificados e preparados para inovar num setor em constante mudança.

Esta necessidade surge uma vez que, embora a profissão de Quality Assurance Testers seja de extrema procura no setor tecnológico atual, este é um perfil que, na sua maioria, ainda não tem formação específica e conhecimento aprofundado sobre o que realmente o mercado procura. É mesmo por esse motivo que em Portugal estamos ainda atrás do que se pode fazer na vertente de testes do setor tecnológico, tão importante para a evolução e desenvolvimento de produtos de qualidade, ao ser esta ainda muito baseada em sistemas de análise manuais e com maior exposição ao erro humano e é isso que queremos melhorar.

Com vista a esta meta, ao longo do curso a turma aprende as bases da programação, e realiza um projeto no final de cada módulo. O programa proporciona ainda, de forma global, conhecimento acerca da área da programação e como podem os alunos fazer testes mais completos e automatizados, face aos que são realizados atualmente no mercado.

Para os que tiverem interesse neste curso, que é realizado em formato pós-laboral para promover a participação de pessoas que estão a trabalhar, existem 27 vagas em aberto até dia 15 de janeiro de 2023. A duração é de 32 semanas, sendo que após o término os alunos contarão com a certificação de pós-graduação atribuída pelo ISEP e com a possibilidade de realizarem um estágio remunerado, numa das empresas associadas da Porto Tech Hub.

Qual o envolvimento da Porto Tech Hub na pós-graduação?
No que respeita ao papel da Porto Tech Hub na construção do curso, contribuímos para os seus diversos momentos: desde a sua definição, plano de estudos até a avaliação e como promover a integração dos alunos após o término no mercado de trabalho.

Qual o impacto que estas formações, em áreas novas, podem trazer ao mercado de trabalho?
O curso é direcionado a todos os que querem mudar de área e integrar um setor que oferece grandes possibilidades de progressão, pelo que permite promover um mercado de trabalho mais dinâmico, onde os profissionais podem entrar de forma mais facilitada numa das áreas com maior procura por talento atualmente: a tecnológica.

Além disso, é também uma vantagem para os profissionais que atualmente já trabalham com testes manuais de software, permitindo-lhes um upgrade das suas competências e conhecimentos. Assim, a formação vem trazer para o mercado de trabalho novos profissionais qualificados, talento com mais competências e conhecimento e, dessa forma, mais competitivo e capaz de fazer face às mudanças do futuro. Por fim, vem potenciar ainda o emprego tecnológico em Portugal, bem como o aumento dos salários no setor.

“(…) passados sete anos desde a nossa fundação, esta missão tem vindo a ser alcançada”.

O Porto Tech Hub assumiu como missão promover e desenvolver o Porto como um centro tecnológico global de excelência. Esse objetivo está no bom caminho?
A Porto Tech Hub foi criada em 2015 precisamente com esse objetivo: ser uma entidade impulsionadora do Porto como centro tecnológico e de inovação de excelência, tanto a nível nacional como internacional. Assim, quisemos ter um impacto positivo na criação do ambiente necessário para o crescimento das empresas e profissionais do setor na região, ao promovermos a formação, o networking, a partilha de conhecimento e o apoio às organizações a vários níveis.

Perante o visível desenvolvimento da área tecnológica no Porto, bem como o aumento de empresas do setor presentes na cidade, podemos considerar que, passados sete anos desde a nossa fundação, esta missão tem vindo a ser alcançada.

Logo no início de 2022, ultrapassámos o objetivo de ter mais de 30 empresas associadas, alcançando o maior número de tecnológicas parceiras desde a nossa criação. No final deste ano, a nossa comunidade era quase já constituída por 40 entidades. A esta conquista, juntam-se também iniciativas como a Porto Tech Hub Conference, que todos os anos tem vindo a juntar milhares de profissionais e empresas da comunidade IT do Porto, ou o SWitCH DEV, focado na formação de Software Developers a que agora se junta o SWitCH QA e que já permitiu a entrada de centenas de profissionais no mundo tecnológico.

É através destas e de outras iniciativas que vemos fortalecida a nossa missão de continuar a expandir o ecossistema tecnológico da cidade, promovendo ainda mais a criação e empregabilidade de talento altamente qualificado junto das empresas da nossa comunidade.

“Temos algumas das universidades mais respeitadas do mundo, o que potencia a confiança das empresas que cá se pretendem instalar e procurar talento, bem como dos seus profissionais (…)”.

Quais os melhores argumentos que o Porto ostenta para atrair e fidelizar start-ups, empresas, investidores?
São muitos os fatores que tornam o Porto no centro de atração empresarial que é hoje e potenciam a entrada de cada vez mais empresas e start-ups na cidade, bem como investidores e empreendedores. Entre os vários, surge o facto de se ter vindo a tornar num lugar mais cosmopolita, o que se revela um ponto de interesse para o talento estrangeiro. A isto, alia-se a segurança de todos os que cá vivem e chegam, bem como cada vez os  melhores acessos, maior mobilidade e um custo de vida que, apesar de ter vindo a aumentar, é ainda inferior face ao de outras cidades europeias.

Não posso deixar de fora a reputação da própria educação portuense, sendo que neste ponto o mérito vai para todo o ensino. Temos algumas das universidades mais respeitadas do mundo, o que potencia a confiança das empresas que cá se pretendem instalar e procurar talento, bem como dos seus profissionais, que decidem fixar-se e criar família na região.

A isto, alia-se a forma como é realizada a entrada das empresas tecnológicas no Porto. Esta é uma cidade business-friendly, já que quem chega tem facilidade em entrar em contacto com os seus agentes políticos, bem como com associações de apoio à sua integração, como a Porto Tech Hub, ao sermos um facilitador do ecossistema.

Por fim, mas não menos importante, qualquer empresa que escolha a Invicta tem à sua inteira disposição as suas pessoas, que promovem a proximidade e a ajuda aos que chegam para se instalar.

Quais os perfis tech mais procuradas pelas empresas do Porto?
Atualmente, a escassez de talento está presente em todos os setores de atividade, mas afeta em especial as empresas tecnológicas, que sentem muita dificuldade em contratarem os perfis que precisam para as suas equipas.

É precisamente por isso, e perante o rápido crescimento do setor em Portugal, que acreditamos que são vários os perfis procurados pelas empresas da cidade, desde os mais experientes aos mais jovens. Entre os que considero importante destacar, é de ressalvar a procura por programadores e quality assurance testers, os que estamos a formar com as duas versões do SWitCH. Tal acontece porque estes profissionais se dedicam a frentes presentes cada vez mais em todas as empresas: a criação de produtos tecnológicos e software e, posteriormente, o seu teste – que permitem às empresas avançarem no seu processo de digitalização.

Há talentos suficientes para as necessidades?
A crescente procura por profissionais não é acompanhada pela oferta de talento qualificado, levando à atual escassez de talento. Esta tendência tem mesmo vindo a promover a maior competitividade por estes perfis, obrigando as empresas a destacarem-se das concorrentes para atraírem os profissionais que procuram.

É precisamente por isto que é importante fomentar a criação de talento, através de formações como esta que agora lançamos. Além disso, é importante que as empresas fomentem ainda programas com foco no reskilling e upskilling dos seus colaboradores, promovendo a aquisição de novas competências.

“Diria que a principal aposta deve estar no desenvolvimento das próprias competências dos gestores das empresas (…)”.

O que ainda deve ser implementado para fazer da região um centro de atração empresarial?
Há sempre caminho para crescer. Diria que a principal aposta deve estar no desenvolvimento das próprias competências dos gestores das empresas, para que possam identificar as maiores oportunidades de negócio e caminhar rumo ao seu crescimento, potenciando o ecossistema como um todo.

Para isso, é fulcral criar pontos de encontro entre estes e opções formativas pessoais, que promovam a aquisição de novas competências e conhecimento.

Considero mesmo que este ponto faz com que o Porto (e mesmo Portugal), embora em grande crescimento, esteja ainda, no que respeita a tecnologia, atrás de outras cidades e países. Existem muito boas ideias, mas para as manter e desenvolver, de forma a tornarem-se negócios consolidados, faltam competências, pelo que é importante olharmos para nós, gestores e empreendedores e percebermos como podemos crescer.

Por outro lado, para que sejamos ainda mais um centro tecnológico de excelência, não podemos deixar de continuar a apostar na formação académica dos profissionais, ao criarmos talento de qualidade capaz de responder aos desafios do mercado.

Como vai a transformação digital em Portugal? A bom ritmo ou aquém das expetativas?
Nos últimos anos, cada vez mais empresas da área tecnológica têm-se instalado em Portugal, nomeadamente em Lisboa e Porto. Além disso, também o próprio ecossistema empreendedor português se tem vindo a desenvolver com a criação de mais start-ups e projetos inovadores nacionais. Tudo isto, nos permite dizer que a transformação digital em Portugal tem avançado a bom ritmo e assim se prevê que continue.

No entanto, apesar deste rápido crescimento, ainda não chegámos ao nosso pico no que respeita à exploração tecnológica e à transformação digital. Existem ainda inúmeras oportunidades para as organizações se fixarem, desenvolverem e destacarem nos grandes centros empresariais portugueses, aumentando as suas equipas e capacidade de produção, bem como se digitalizarem.

“(…) este [o empreendedor]deve estar sempre preparado para ouvir “nãos”, vendo-os como construtivos. Por outro lado, deve perceber o facto da maioria das pessoas não compreenderem a sua ideia, devido à sua complexidade (…)”.

O que não deve faltar na estratégia de um bom empreendedor?
São inúmeras as características que devem fazer parte da estratégia de um empreendedor, mas são mesmo as soft skills as mais importantes para garantir o sucesso da sua ideia.

Assim, este deve estar sempre preparado para ouvir “nãos”, vendo-os como construtivos. Por outro lado, deve perceber o facto da maioria das pessoas não compreenderem a sua ideia, devido à sua complexidade, bem como se manter preparado para ouvir mais do que falar, assumindo um processo de melhoria e de recolha de feedback.

Por fim, deve estar aberto a encontrar ajuda e financiamento onde menos espera, se esse caminho for benéfico para a sua ideia e negócio.

“As gentes do Porto entregam-se assim às empresas onde pertencem, apoiam o seu desenvolvimento e têm grande abertura à inovação”.

O que distingue a tecnologia que se faz no Porto da que acontece em Lisboa?
Há algo que coloco acima de tudo quando penso no que torna o Porto um dos melhores lugares para desenvolver tecnologia e para a fixação das empresas deste setor, e que considero ainda diferenciador face a Lisboa.

Aqui, refiro-me às suas pessoas: o seu grande motor de desenvolvimento. Apesar da já grande dimensão da cidade, cá ainda reina a proximidade entre as suas gentes, não existindo estranheza face ao estrangeiro, o que permite uma adaptação bastante rápida das empresas e profissionais internacionais. Todos estão disponíveis para receber e dar-se a conhecer. Estas características vêm facilitar uma série de contactos, networking, algo ainda mais importante num setor como o tecnológico.

Por outro lado, acredito que são precisamente pessoas como as do Porto que cada vez mais as empresas procuram, nomeadamente as tecnológicas, e isso revela-se no momento da sua fixação na cidade. As gentes do Porto entregam-se assim às empresas onde pertencem, apoiam o seu desenvolvimento e têm grande abertura à inovação. São recetivas a novas ideias, mas estão unidas na mudança, através da solidariedade e empatia com o outro.

Por tudo isto, acredito que a tecnologia do Porto é cada vez mais humana e focada nas pessoas, e é isso que nos distingue.

Vamos ver no futuro o Porto como um centro de competências de nível mundial?
Acredito que já o é. Nos últimos anos, mais e mais empresas da área tecnológica se têm instalado na cidade, realidade que vem potenciar o desenvolvimento da região e permitir que a cidade assuma uma posição de maior destaque no que respeita à dinamização tecnológica, tanto a nível nacional como internacional.

No entanto, se o compararmos com outros polos urbanos, é possível afirmar que a sua exploração por empresas tecnológicas é ainda bastante recente. Contudo, acredito que esta realidade só pode ser positiva, já que as oportunidades para as organizações são ainda muitas e visíveis, existindo espaço para se fixarem, desenvolverem e destacarem em grandes centros empresariais como Matosinhos ou a Campanhã.
Por outro lado, existe ainda espaço para criar mais e mais talento e promover a capacitação de novos profissionais, o que vai potenciar este posicionamento da cidade.

Qual papel que a Porto Tech Hub quer assumir neste processo?
A Porto Tech Hub quer e tem vindo a ter um impacto positivo na criação do ambiente necessário e suficiente para o crescimento das empresas e profissionais do setor na região, bem como no desenvolvimento das competências e na criação de talento. Isto, através da promoção da formação e networking, entre outros pontos. Para isso, podemos destacar diversas iniciativas e programas que promovemos e nos permitiram fortalecer o nosso papel. Destacamos também o nosso trabalho na promoção de uma rede de contactos sólida entre as entidades associadas, a ajuda na sua aquisição de talento, entre outras vertentes para promover a tecnologia do Porto no seu todo.

Assumiu a presidência do Porto Tech Hub no início de 2021. Que balanço faz do tempo que está à frente do projeto? Metas atingidas?
O balanço é já muito positivo, uma vez que já neste período, conseguimos alcançar metas de extrema importância para a associação. De mês para mês, registamos, por exemplo, um incremento no número de associados, ou seja, de empresas tecnológicas da cidade que se juntam a nós para nos ajudarem em objetivos partilhados.

Por outro lado, temos vindo a oferecer um leque cada vez maior de serviços aos associados, bem como a criar dinâmicas únicas entre eles. Neste ponto, destaco mesmo a curiosidade de este ano querermos ir além da vertente de negócio e criar momentos de diversão dentro da comunidade, potenciando a conexão entre os profissionais das empresas associadas.

“(…) gostaria de ver os empreendedores a terem mais espaços para poderem experienciar e colocarem em prática as suas ideias”.

Que expetativas tem para o ecossistema empreendedor portuense no ano que agora começa? O que gostaria de ver concretizado?
As expetativas são as melhores. O Porto tem todas as qualidades necessárias enquanto cidade para que o setor tecnológico possa continuar a crescer, já que até chegarmos ao pico temos muito para evoluir. Temos uma ótima localização, excelentes recursos humanos, um sistema político estável e económico, pelo que acredito que tudo isto fomentará um crescimento contínuo.

Para que tal aconteça, gostaria de ver os empreendedores a terem mais espaços para poderem experienciar e colocarem em prática as suas ideias. A isto, junta-se o meu desejo de que a cidade possa ajudar na própria capacitação destes empreendedores, para irem mais longe.

Respostas rápidas:
O maior risco: A incerteza perante o impacto da pandemia na Porto Tech Hub e no setor tecnológico como um todo.
O maior erro: Ter sempre um “sim” pronto aquando do aparecimento de um projeto ou desafio, pensado só depois nas consequências de o aceitar.
A maior lição: Posso ter todos os dados comigo sobre algo e mesmo um conhecimento profundo, mas não sei tudo sobre um assunto.
A maior conquista: Trabalho para que esta ainda esteja para vir.

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