“Há sítios, momentos ou pessoas que fazem ou já fizeram parte das nossas vidas e que jamais, para todo o sempre, voltaremos a visitar, a viver ou a estar. Por isso a importância de os desfrutar, porque cada um deles é único e pode muito bem ser irrepetível.”

Uma das etapas mais marcantes da minha vida foi aquela em que vivi no Brasil, na cidade de São Paulo, na companhia da minha esposa e filhos.

Ao longo dessa etapa de cinco anos, felizmente sem a pandemia que ainda há bem pouco tempo tanto nos limitou os movimentos e a vida em geral, tive o grato privilégio de poder viajar e conhecer um pouco da América do Sul, em especial do enorme e lindo país que é o Brasil.

Em meados de 2015 fiz uma das viagens mais marcantes da minha vida, à região do Pantanal, na zona de Poconé, no Estado do Mato Grosso, bem no centro do continente sul-americano, a meio caminho entre a cidade de São Paulo e a famosa região da Amazónia.

O Pantanal é, como o próprio nome indica, uma região pantanosa, que se estende por uma vasta área, equivalente a duas vezes o tamanho de Portugal, onde fazendas podem ter o tamanho de uma região como a do Algarve e onde uma área como a de uma pequena herdade no Alentejo pode, vejam só, ser equivalente ao quintal da casa de um fazendeiro.

Uma região remota, mais remota do que possam imaginar, em que a maioria das estradas não são alcatroadas, algumas localidades não têm ainda, em pleno século XXI, água nem luz, onde alguns dos seus habitantes não sabem ler nem escrever, e pejada de animais selvagens, como jacarés, piranhas, jiboias, jaguares ou veados, entre outros.

Durante aqueles dias, banhar-me numa piscina com jacarés a observar-me a escassos metros de distância, pescar piranhas para a sopa do jantar, cruzar-me com jiboias à porta da estalagem ou fazer caminhadas acompanhado de homens locais armados para nos proteger de eventuais ataques de jaguares ou onças tornou-se uma rotina.

Foi, por isso e como imaginam, uma viagem que muito me marcou e que jamais esquecerei.

À medida que a mesma se ia aproximando do seu fim, uma certa melancolia foi-se apoderando de mim, quando dei por mim a pensar algo que nunca até então na minha vida me havia passado pela cabeça: aquela seria, com certeza, a última vez no que resta da minha vida que estaria naquele lugar ao mesmo tempo tão marcante e remoto do nosso planeta.

Digo última vez, não porque os meus dias estejam próximos do seu fim (longe disso, espero!), mas porque com tantos lugares por conhecer por esse mundo fora, creio ser muito pouco provável que ali volte algum dia.

Foi um sentimento novo e estranho para mim, esse de estar num sítio tão marcante e que seguramente me iria deixar saudades, e saber que nunca, jamais, ali voltaria no tempo que resta da minha vida, por muito longa que esta seja.

Acho que essa melancolia passou, de alguma forma, a fazer-me companhia desde então.

Assim, em cada sítio, mais ou menos remoto ou memorável, por onde vou passando, mas também em cada momento, mais ou menos fugaz ou agradável, que vou vivendo, ou com cada pessoa com quem me vou cruzando, dou por mim a pensar, novamente, se algum dia voltarei a passar, a viver ou a cruzar-me com os mesmos.

Não sei se algum de vós alguma vez já pensou nisto, mas há, certamente, sítios, momentos, oportunidades ou pessoas que fazem ou já fizeram parte das vossas vidas ou carreiras e que jamais, para todo o sempre, voltarão a visitar, a viver, a surgir ou a estar.

É por isso que acredito que nunca é demais ligarmos aos nossos Pais quando ainda temos o maravilhoso privilégio de poder falar com eles. Ou de rever aqueles amigos de longa data com quem há (demasiado) tempo não convivemos (tantos no meu caso…). Ou de regressar aquele local que tanto apreciamos e tantas saudades nos deixou. Ou de aproveitar o melhor possível cada uma das experiências e etapas da nossa vida e carreira.

A viagem que tive a oportunidade de fazer à longínqua e remota região do Pantanal, ajudou-me a perceber que tendemos a ser tão mais felizes quanto mais capazes formos de viver e de desfrutar de cada um dos momentos das nossas vidas, por mais ou menos prazerosos que estes possam ser, porque cada um deles é único e pode muito bem ser irrepetível.

Como essa maravilhosa viagem, certamente, o foi para mim.

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