Entrevista/ “A tecnologia não substituirá o professor podendo antes reforçar o seu papel enquanto mediador, mentor e facilitador”
“A literacia tecnológica não é apenas saber usar ferramentas, é compreender os seus limites, riscos éticos, proteção de dados, enviesamentos algorítmicos e impacto cognitivo”, sublinha Margarida Rebocho, administradora-delegada da Fundação Semapa-Pedro Queiroz Pereira.
A poucos dias da realização do TECH. EDU, um side event da Futurália dedicado às tecnologias inovadoras para o setor da educação, a administradora-delegada da Fundação Semapa-Pedro Queiroz Pereira, um dos parceiros estratégicos da iniciativa, analisa a forma como a tecnologia e educação podem ser aliadas para o progresso do ensino em Portugal, e o papel que esta relação tem nos vários players do setor do ensino, desde professores, a alunos ou educadores. Apesar das vantagens que identifica, deixa um alerta: “a tecnologia deve reforçar, e não substituir, a dimensão humana da escola”.
Que mais-valia espera que a Tech.Edu traga ao mercado nacional da educação, à sua transição digital?
O Tech.Edu pode desempenhar um papel muito relevante na qualificação da transição digital da Educação em Portugal, promovendo uma aproximação entre inovação e realidade escolar e garantindo que esta é pedagógica, estratégica e centrada nas pessoas e não apenas tecnológica.
O estudo “A Voz dos Professores”, realizado em 2025 pela Fundação Pedro Queiroz Pereira, em parceria com a Nova SBE e Universidade do Minho, evidencia que os docentes sentem uma forte pressão administrativa e burocrática, que limita o tempo disponível para preparar aulas, acompanhar alunos e inovar pedagogicamente. Se a tecnologia — e em particular a IA — for orientada para libertar os professores dessas tarefas repetitivas, pode contribuir para humanizar o ensino, devolvendo tempo à relação pedagógica.
O Tech.Edu considera que “a educação do futuro significa antecipar mudanças, compreender novas formas de aprender e ensinar e reconhecer o papel da inovação, da tecnologia e das competências humanas na construção de um sistema educativo mais inclusivo…”. Na sua opinião, as entidades portuguesas do setor estão a conseguir fazer esse caminho?
O caminho está a ser feito, mas de forma desigual. O estudo “A Voz dos Professores” mostra que os docentes reconhecem a importância da inovação, mas sentem falta de condições estruturais: tempo, formação prática e apoio técnico. Existe abertura à mudança, mas também cansaço acumulado. Portugal tem feito investimentos relevantes em equipamentos e plataformas digitais, mas a transformação cultural — que implica rever modelos pedagógicos, avaliar impacto e reforçar competências humanas — ainda está em consolidação. O desafio não é apenas adotar tecnologia, mas integrá-la com intencionalidade pedagógica.
Como vê a relação futura entre a tecnologia e a educação?
Acredito que a tecnologia não substituirá o professor podendo antes reforçar o seu papel enquanto mediador, mentor e facilitador. Uma utilização adequada permitirá que o professor se concentre nas dimensões mais humanas da educação: acompanhamento individual, desenvolvimento do espírito crítico, colaboração e criatividade — competências que a própria Fundação Pedro Queiroz Pereira identifica como centrais para o futuro. A IA poderá tornar o sistema mais responsivo às necessidades de cada aluno ao mesmo tempo que valoriza a dimensão relacional do ensino.
O que é que ferramentas como a IA podem aportar à forma como se faz ensino em Portugal?
A IA pode aportar sobretudo em duas dimensões transformadoras: primeiro, a humanização do tempo docente — automatização de tarefas administrativas e apoio ao planeamento, libertando tempo para acompanhamento individual — uma necessidade identificada pelos professores no estudo; segundo, a personalização da aprendizagem — pode ajudar a adaptar conteúdos ao ritmo e estilo de aprendizagem de cada criança, promovendo uma maior inclusão.
Os professores referem com frequência a dificuldade que sentem em gerir turmas cada vez mais diversas. A utilização de ferramentas inteligentes pode ser uma excelente base de apoio na diferenciação pedagógica, na identificação precoce de lacunas e no desenho de estratégias de intervenção. Isto permite que o professor mantenha o centro da decisão pedagógica, mas com melhores instrumentos de diagnóstico e apoio.
“É essencial investir simultaneamente em capacitação técnica e em pensamento crítico digital (…)”
A literacia tecnológica nacional já permite que as pessoas (sejam docentes ou alunos) estejam conscientes dos perigos que as diferentes ferramentas tecnológicas possam ter associados?
Há progressos, mas persistem lacunas. O estudo evidencia que muitos docentes valorizam a formação contínua, mas sentem que esta nem sempre é suficientemente prática ou atualizada. A literacia tecnológica não é apenas saber usar ferramentas, é compreender os seus limites, riscos éticos, proteção de dados, enviesamentos algorítmicos e impacto cognitivo. É essencial investir simultaneamente em capacitação técnica e em pensamento crítico digital — tanto para professores como para alunos.
A digitalização da educação em Portugal está no bom caminho ou ainda há lacunas a ultrapassar?
Está no caminho certo, mas com desafios claros, nomeadamente no que respeita a desigualdades no acesso e na qualidade da conectividade, falta de tempo dos docentes para formação prática, sobrecarga administrativa que limita a experimentação e integração ainda insuficiente entre tecnologia e currículo. “A Voz dos Professores” destaca a necessidade de valorizar o tempo docente e reduzir tarefas burocráticas — condição essencial para qualquer transformação digital sustentável no ensino.
Do seu conhecimento do mercado, acredita que os professores estão disponíveis e sensíveis para a incorporar tecnologia no seu dia a dia?
De forma geral, sim mas reconhecem os desafios associados. O estudo revela que os professores demonstram compromisso com a melhoria do ensino e abertura à inovação, desde que com sentido pedagógico e que não aumente a carga de trabalho. Existe sensibilidade para integrar tecnologia sempre que esta facilite o trabalho, melhore a aprendizagem, venha acompanhada de formação adequada e respeite a autonomia pedagógica.
Globalmente, em que eixos concretos do trabalho educativo a tecnologia pode ser crucial?
A tecnologia pode ser crucial e múltiplas dimensões, das quais destacava: a personalização das aprendizagens e facilitação da inclusão e acompanhamento de alunos com necessidades específicas; a redução da carga administrativa dos professores e o desenvolvimento de competências digitais e críticas tanto em alunos como nos professores. Em todos estes eixos, a tecnologia deve reforçar, e não substituir, a dimensão humana da escola.
“O setor público garante equidade e escala, as empresas e start-ups trazem agilidade e inovação (…)”.
Qual a importância de articular e envolver o setor público, as empresas, as start-ups e as escolas neste trabalho de transição digital da educação?
A transição digital exige ecossistema. O setor público garante equidade e escala, as empresas e start-ups trazem agilidade e inovação e as escolas oferecem o contexto real de aplicação. Também as Fundações podem atuar como ponte independente, promovendo e reforçando a reflexão baseada em evidência. Sem articulação, há risco de soluções fragmentadas ou pouco ajustadas às necessidades reais — algo que o estudo mostra ser crucial considerar: ouvir quem está no terreno.
Qual o papel que Fundação Semapa| Pedro Queiroz Pereira pode desempenhar na sensibilização para estas temáticas e, inclusive, para a modernização dos processos e das ferramentas de ensino?
A Fundação pretende desempenhar um papel ativo no apoio à modernização e reforço de qualidade do sistema de ensino em Portugal, nomeadamente atuando em três dimensões: a produção de conhecimento – estudos como “A Voz dos Professores” dão voz a quem está no terreno e fundamentam decisões políticas e estratégicas; a capacitação docente – desenvolver programas de formação que combinem o reforço das competências digitais, mas também humanas e que promovam a valorização da carreira, transformando cada docente num agente de mudança e transformação nas escolas; e a mediação e sensibilização – promover o diálogo nas e entre escolas, decisores públicos e setor privado, garantindo que a modernização digital está alinhada com uma visão clara do futuro que se pretende para a sociedade portuguesa.








