Li uma frase que descreve muitas das pessoas que admiro e que também gostava que me descrevesse a mim. É uma frase que um jornalista usou num obituário de Niki Lauda, um antigo piloto de Fórmula 1 que morreu a 20 de Maio de 2019.

O jornalista escreveu que Niki Lauda lutava constantemente para atingir o que ele achava que era capaz de atingir, não pela fama e pela glória, mas para saciar o Niki interior que exigia muito de si mesmo. A parte de que gostei mais foi a parte de “saciar o Niki interior.” Quem é o nosso “eu interior” e que objetivos é que tem para cada um de nós? O que é que cada um de nós exige de si próprio? O Niki Lauda exigia muito. Exigia tudo. E mais.

Este ano fiz um exercício de desenvolvimento de liderança de que gostei muito. Desenhei sete cartões, cada um com um “João interior.” A ideia do exercício era perceber que voz interior é que fala em cada situação que cada um de nós enfrenta enquanto líder. Chamei a um “João interior” que desenhei, o treinador insatisfeito. O treinador insatisfeito, ou pelo menos o meu treinador insatisfeito é o João que me lança sempre novos desafios, alguns mais fáceis, outros mais difíceis. Lança-me novos desafios porque acha que eu sou capaz de os atingir. Mas nunca está satisfeito. Cada desafio é apenas a preparação para o desafio seguinte. É um caminho em que não há sucesso porque o sucesso não faz sentido. A recompensa de ultrapassar um desafio é poder iniciar um outro desafio. Nunca acaba. Nunca para.

Se calhar é por isso que eu gosto de Fórmula 1. Porque na Fórmula 1 a recompensa de ser campeão do mundo é poder ser bi-campeão. A recompensa de ser bi-campeão é poder ser tri-campeão e por aí em diante.

Fiquei triste com a morte do Niki Lauda na terça-feira. Mas fiquei contente por saber que não sou o único que tem um “eu interior” que é um treinador permanentemente insatisfeito. Não sei se é bom. Às vezes não parece. E por isso não penso que toda a gente, nem penso que todos os líderes devam ter um “eu interior” assim. Mas acho que vale a pena parar para pensar em quem é o seu “eu interior” que fala mais alto. Qual é o seu ‘”eu interior” que manda nos outros todos.

O objetivo não é encontrar a sua essência, quem você realmente é. Não há um “verdadeiro eu” à espera de ser descoberto, depois de 1157 horas de ‘mindfulness,’ meditação ou depois de caminhar por cima de brasas ardentes. O que há é uma voz que fala mais alto, uma voz que cada um nós ouve mais vezes. Pode ser uma voz dura, implacável, que apenas premeia desafios difíceis com desafios apenas mais difíceis. Nunca diz, ‘conseguiste!’ Nunca chega. Mas mesmo os treinadores mais exigentes sabem a importância do descanso. E às vezes quando paramos para descansar conseguimos ver tudo o que conseguimos atingir. O Niki Lauda foi três vezes campeão do mundo de Fórmula 1, criou uma companhia de aviação e esteve na liderança de topo da equipa de Fórmula 1 que hoje é a Red Bull e depois passou para a equipa de Fórmula 1 da Mercedes (que já conta com cinco campeonatos do mundo). Uma excelente série de resultados para qualquer pessoa, até para o ‘Niki interior’ mais exigente.

Nota: Caros leitores, quero dar-vos a oportunidade de reconhecerem o meu trabalho quando escrevo um texto de que gostem. É fácil, basta usar a minha página ko-fi, que pode ser encontrada aqui: http://ko-fi.com/joaovc Obrigado

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João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais