Inovação, competitividade, a importância dos programas de apoio às empresas, a ligação destas com o universo académico e científico, o impacto da pandemia e o cunho pessoal que gostaria de deixar no seu mandato…Estes são alguns dos temas abordados por Joana Mendonça, a primeira mulher na presidência da Agência Nacional de Inovação, em entrevista ao Link To Leaders.

Professora Associada de Gestão da Inovação do Instituto Superior Técnico (IST), Joana Mendonça foi nomeada presidente da ANI, para o triénio 2021-2023, em março de 2021. É a primeira mulher a ocupar a presidência da Agência, algo que vê “como simbólico, mas muito importante”.

Em entrevista ao Link To Leaders, explicou que a ANI “pretende atuar como uma one-stop shop, uma espécie de balcão único para a inovação com diferentes instrumentos”, acredita que há potencial para “as empresas portuguesas conseguirem, no âmbito do Horizonte Europa, o triplo do financiamento que foi conseguido no Horizonte 2020″, e espera que, daqui a três anos, a ANI tenha conseguido impulsionar mais inovação colaborativa, resolvido alguns dos obstáculos que se colocam ao processo de inovação e, com isso, contribuído para a competitividade do nosso país”.

A inovação tecnológica e a I&D podem ser uma vantagem competitiva para as empresas e para as ajudar a ultrapassar a crise?
A ligação entre inovação e crescimento está estudada há muitos anos e não há dúvida que a inovação é o caminho para a recuperação e para um crescimento sustentado. São, de facto, as empresas mais inovadoras que se revelam mais competitivas e resilientes. Para além disso, a inovação é crítica para fazermos face a muitos desafios da humanidade, como a doença, a fome, as alterações climáticas…. Aliás, a pandemia veio mostrar-nos que a inovação é crítica para nos adaptarmos e contornarmos situações adversas. A inovação tecnológica e a I&D já resultaram nas vacinas contra a COVID-19, em equipamentos de proteção individual, ventiladores, soluções de colaboração digital, entre muitos outros. O conhecimento e a inovação são o único caminho.

(…) ANI pretende atuar como uma one-stop shop, uma espécie de balcão único para a inovação com diferentes instrumentos (…)”.

Atualmente, com que tipo de instrumentos e programas está a Agência a impulsionar a inovação tecnológica nacional? E desses, quais são os programas “bandeira” neste momento?
Na ANI, acompanhamos todo o ciclo de vida da inovação, desde que o conhecimento sai do espetro da ciência fundamental, desenvolvida nas instituições de ensino superior e centros de investigação, até que passa a novos domínios de aplicação e chega ao mercado como inovação. É nesse percurso não linear que a ANI pretende atuar como uma one-stop shop, uma espécie de balcão único para a inovação com diferentes instrumentos, por forma a minimizar o risco e apoiar a transformação do conhecimento em valor económico. Neste momento, este apoio consiste num leque de instrumentos nacionais e internacionais de apoio às empresas e entidades do Sistema Nacional de Inovação, tendo sobretudo um formato colaborativo.

A valorização do conhecimento é apoiada através de mecanismos como os sistemas de compras de inovação, a valorização de tecnologia e o apoio às instituições de interface, centros tecnológicos e laboratórios colaborativos. Queremos poder atuar com uma visão holística, através da qual procuramos gerir os instrumentos de forma integrada, permitindo, por exemplo, que a mesma tecnologia possa ser financiada por apoios nacionais, como o Portugal 2020 ou o Portugal 2030, e por apoios internacionais, como o Horizonte Europa, de acordo com as necessidades e fases de desenvolvimento.

Neste momento também há medidas de apoio à inovação no Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), nomeadamente as Agendas Mobilizadoras para a Inovação Empresarial, a transição digital e a missão interface.

“Temos premiado tecnologias desenvolvidas por investigadores portugueses que não têm concorrência no mundo”.

Através do Born From Knowledge (BfK), por exemplo, a ANI tem apoiado a tecnologia e inovação de muitas start-ups. O que é que esse programa tem revelado do empreendedorismo dos portugueses? Vai no bom caminho?
O empreendedorismo em Portugal cresceu muito nos últimos anos e há, neste momento um número de start-ups comparável a outros países. O BfK é um programa um pouco diferente de outros por ser focado nas ideias que saem diretamente do trabalho científico e por isso é muito direcionado para as nossas instituições científicas. Verificamos que há excelentes ideias, com potencial de disrupção, não só a nível nacional, como internacional. Temos premiado tecnologias desenvolvidas por investigadores portugueses que não têm concorrência no mundo. O BfK tem mostrado que há ideias que saem da nossa investigação com enorme potencial económico.

O programa Born from Knowledge funciona como um ciclo no qual primeiro premiamos as boas ideias de negócio, através do BfK Ideas; depois capacitamos os promotores destas ideias para desenvolverem o negócio através do BfK Rise; e, quando os projetos já se encontram numa fase de evolução muito avançada e concorrem aos prémios de inovação mais prestigiados do país e dos quais a ANI é parceira, distinguimo-los com o BfK Awards.

“O nosso objetivo é que as empresas, instituições de ensino superior e demais entidades do sistema científico nacional captem pelo menos 2.000 milhões de euros do Horizonte Europa”.

Afirmou há poucos meses numa entrevista que “as empresas podem obter três vezes mais fundos do Horizonte Europa”. Mantém essa análise? De que forma o podem fazer?
Sim, mantenho. É um grande desafio, mas acredito que é possível. No Horizonte 2020, conseguimos captar 1.160 milhões de euros entre 2014 e 2020, mas entendemos que as empresas nacionais ainda concorrem pouco a este programa, ao contrário do que fazem com o Portugal 2020, por exemplo. O nosso objetivo é que as empresas, instituições de ensino superior e demais entidades do sistema científico nacional captem pelo menos 2.000 milhões de euros do Horizonte Europa. Estes concursos são muito competitivos porque as candidaturas vêm de muitos países e não há quotas por nacionalidade, mas também é uma forma de posicionar as empresas em redes internacionais que podem ser importantes noutros contextos.

Para isso, estamos a preparar trabalho de aproximação às empresas para as podermos apoiar de forma mais alargada, nomeadamente através das associações empresariais e das estruturas de apoio regional. É um trabalho que precisa de algum tempo, mas que acredito que nos pode permitir atingir esta meta.

E as empresas nacionais estão verdadeiramente comprometidas com necessidade de transformação? Estão a saber aproveitar os programas de financiamento disponíveis?
Muitas empresas já entendem que a inovação é a chave para promover alterações e para aumentar a sua competitividade e resiliência. Há cada vez mais empresas a fazer atividades de I&D em Portugal. Isso é claro nos resultados das estatísticas de I&D divulgadas pela DGEEC, no aumento de candidaturas ao Sifide e nos indicadores de participação nos nossos instrumentos, onde temos cada vez mais empresas a desenvolver atividades de inovação, quer no lançamento de novos produtos e serviços, quer na incorporação de maior conhecimento e tecnologia nos processos produtivos.

Para além da participação nos nossos instrumentos de incentivos, vemos também um aumento de colaboração com outras entidades, sendo isso particularmente visível nos laboratórios colaborativos, nos quais as empresas representam 46% dos associados, com um aumento expressivo da representação das PME.

Em Portugal, temos um grande número de micro e pequenas empresas e, para essas, o investimento em I&D, a participação em projetos colaborativos e o desenvolvimento de atividades de inovação é um desafio ainda maior tendo em conta a sua dimensão. Mas também pela sua dimensão, a colaboração pode ser uma forma de internalizar conhecimento para os seus processos de inovação. E é isso que observamos nos nossos dados e que nos deixa otimistas.

“A minha preocupação é que consigamos tirar o maior partido possível, para Portugal, dos programas de apoio e financiamento que existam”.

Quais as expetativas da ANI quanto aos programas de apoio e financiamento da UE? São suficientes para preencher as lacunas existentes em Portugal, por exemplo?
A minha preocupação é que consigamos tirar o maior partido possível, para Portugal, dos programas de apoio e financiamento que existam. E o nosso objetivo na ANI deve ser o de facilitar esse processo, assim como apoiar as empresas e instituições a utilizar estes programas de forma estratégica na sua atividade de inovação.

A ANI anunciou recentemente que Portugal captou quase sete milhões de euros do Conselho Europeu de Inovação por 13 projetos em novas tecnologias. Tendo em conta os programas em curso, quais as expetativas de financiamento para 2022?
Acreditamos que há potencial para as empresas portuguesas conseguirem, no âmbito do Horizonte Europa, o triplo do financiamento que foi conseguido no Horizonte 2020. São expectativas ambiciosas, mas sustentadas. Este é o maior programa de investigação e inovação de sempre na União Europeia e temos potencial para passar dos 312 milhões de euros conseguidos no programa-quadro anterior para cerca de 900 milhões de euros no ciclo 2021-2027.

“Há um número significativo de empresas que trabalha próximo desse universo académico, dando incentivos, desafios e apoio de diversas formas (…)”.

Na sua opinião, a transmissão de conhecimento do universo académico e científico para o mundo empresarial está a ser bem-sucedido?
Não existe propriamente uma medida única de sucesso dessa transmissão de conhecimento. Mas podemos observar que a colaboração entre as instituições científicas e o mundo empresarial tem crescido significativamente nos últimos anos. Observamos isso nos projetos que nos chegam com cada vez mais novos participantes, empresas e centros de investigação; observamo-lo nos nossos centros de interface, CITs e Colabs que integram, colaboram e servem um número cada vez maior e mais diversificado de empresas; e observamo-lo nos contactos e visitas que temos feito no terreno a empresas e instituições.

Existe um número significativo de instituições de ensino superior, centros de investigação e unidades de investigação que colaboram de forma cada vez mais intensa com as empresas e que têm gabinetes de transferência de tecnologia (TTO) profissionalizados que podem ajudar essa transferência de conhecimento e gestão dos processos de colaboração. Há um número significativo de empresas que trabalha próximo desse universo académico, dando incentivos, desafios e apoio de diversas formas, podendo assim ter acesso a diferentes áreas do conhecimento, o que sabemos ser crítico nos processos de inovação.

Foi a primeira mulher a ocupar a presidência da ANI. Como está a ser este novo desafio profissional? O seu percurso no universo académico, na investigação e no empreendedorismo está a ajudar na forma como está a liderar a ANI?
Ser a primeira mulher a ocupar a presidência da ANI é algo que eu vejo como simbólico, mas muito importante. A participação das mulheres em cargos de chefia em Portugal ainda é minoritária e por isso os exemplos são fundamentais. Como mãe de duas filhas e como professora, sinto que tenho essa responsabilidade e vejo todos os dias que precisamos de mais.

Esta posição é o resultado da minha atividade nos últimos 20 anos, a estudar inovação e processos de comercialização que me levaram a visitar muitas empresas e refletir muito sobre este processo de valorização. A possibilidade de pôr em prática muito daquilo que estudei é um privilégio.

Na próxima década vamos ver Portugal na lista dos países fortemente inovadores?
Não consigo prever essa evolução, porque ela depende de muitos fatores, e nós, na ANI, não fazemos parte da construção dessa análise que leva ao European Innovation Scoreboard. No entanto, o que podemos dizer é que o resultado de 2021 não significa, no nosso entender, que tenha havido uma diminuição da inovação no país. Este foi um resultado de alterações metodológicas que em nada refletem, no meu entender, a realidade que observamos na ANI.

“Quero que, daqui a três anos, tenhamos conseguido impulsionar mais inovação colaborativa, resolvido alguns dos obstáculos que se colocam ao processo de inovação e, com isso, contribuído para a competitividade do nosso país”.

Qual gostaria que fosse o seu cunho pessoal nesse processo?
A abertura da ANI às empresas e entidades do sistema, a transformação de uma agência que em vez de processar, promove, e ter a ANI como parceira e promotora de ligações. É para isso que temos trabalhado. Fizemos milhares de quilómetros para visitar empresas e entidades do sistema científico desde que tomámos posse, porque entendemos que só conhecendo as pessoas, as necessidades das empresas, a sua realidade, a da região e os mercados em que atuam podemos apoiá-las para inovar.

Quero que, daqui a três anos, tenhamos conseguido impulsionar mais inovação colaborativa, resolvido alguns dos obstáculos que se colocam ao processo de inovação e, com isso, contribuído para a competitividade do nosso país. Para tal, precisamos de uma ANI mais forte e mais cuidada. É preciso apoiar as nossas pessoas. Para além disso, temos que conseguir acompanhar as alterações da sociedade e a evolução tecnológica que nos rodeia. Esta é a ANI que eu gostaria de deixar.

Respostas rápidas:
O maior risco: Ficar parada.
O maior erro: Aquele que não sabemos reconhecer.
A maior lição: Todas as lições contam.
A maior conquista: A confiança

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