Opinião
A importância dos “soft” num mundo cada vez mais “hard”
Num mundo dominado por tecnologia, disrupção e incerteza, as competências humanas tornaram-se o novo diferencial: difíceis de ensinar, impossíveis de automatizar e cada vez mais valiosas.
O mundo está a mudar a uma velocidade sem precedentes. A inteligência artificial passou de conceito abstrato a realidade quotidiana. A geopolítica está em tensão permanente. As empresas enfrentam disrupção constante, os mercados oscilam, e o futuro, esse, parece cada vez mais incerto. Este é o mundo “hard” em que vivemos: complexo, rápido, exigente. E é precisamente neste contexto que as competências humanas, por vezes tratadas como “soft”, ganham protagonismo – sobrepondo-se, muitas vezes, às tradicionais “hard skills”.
Cruzei-me recentemente com um estudo da Korn Ferry que identifica cinco competências essenciais para o futuro do trabalho (em particular para os líderes): adaptabilidade, colaboração, comunicação, pensamento crítico e empatia. Não podia estar mais de acordo, mas acrescentaria mais 2 absolutamente críticas – a coragem e resiliência; e a capacidade de incorporar as ferramentas. E reforçaria: estas competências não são apenas para líderes – são essenciais para os jovens de hoje e de amanhã.
Nenhuma destas competências se aprende com um tutorial no YouTube, com um prompt no ChatGPT ou a fazer scroll do Tiktok. Todas exigem prática, experiência e consciência. E todas se tornaram ainda mais relevantes numa era em que a Inteligência Artificial consegue fazer cada vez mais tarefas cognitivas, mas continua incapaz de sentir, interpretar ou conectar-se como um ser humano. Aprofundando:
Adaptabilidade | É talvez a competência mais vital do nosso tempo. O mundo muda, muito. As tecnologias mudam. Os contextos mudam. E quem não muda, fica para trás. Tem sido assim no passado, é especialmente assim no presente e continuará a ser no futuro. Como dizia Darwin, “não sobrevive o mais forte, o mais inteligente, mas o que melhor se adapta”. Os líderes têm de aprender a desaprender. E os jovens, a preparar-se para um futuro onde mudar de função, setor ou até carreira será mais norma do que exceção. Dentro das empresas, promover a rotação e o contacto com diferentes desafios dos colaboradores não é já um “benefício” ou quase um luxo: é uma real necessidade de desenvolvimento.
Colaboração | Hoje, quase nada se constrói sozinho. Diz a famosa frase “se queres ir rápido, vai sozinho, mas se queres ir longe, vai acompanhado”. Vivemos numa economia de interdependências, onde saber trabalhar em conjunto é uma das maiores vantagens competitivas. Colaborar é mais do que trabalhar em grupo: é saber ouvir, saber ceder, saber construir em conjunto. As melhores ideias raramente saem de um único silo. E nas organizações, são as pontes que criam valor, não os muros (como defendi no meu texto “Construir pontes como Francisco”. É neste sentido que é importante que os jovens tenham experiências que potencie esse trabalho de grupo: desporto, atividades, clubes, projetos, etc.
Comunicação | Muitas vezes subvalorizada, mas com impacto enorme. Em Davos, Mark Carney deu um exemplo brilhante: influenciou decisores não só pelo conteúdo, mas pela clareza e empatia da sua comunicação. Saber adaptar a mensagem ao destinatário, o formato, o tom, é uma competência crítica e onde tantas vezes falhamos nas empresas.
Quando comecei a trabalhar, um partner que respeito muito disse-me uma coisa que nunca mais me esqueci – “Fazemos apresentações grandes porque não sabemos fazer apresentações pequenas”. A forma como comunicamos com Boards ou administrações tem forçosamente que ser diferente da forma como se comunica com a generalidade da organização, e muitas vezes a mensagem perde-se pela não adaptação da forma. Até escrever bons prompts para IA é uma forma de comunicar com precisão. Muitas vezes mais do que o que comunicamos, importa como o fazemos.
Pensamento Crítico | Num tempo em que a IA responde com convicção até quando está errada, que as fake news são o novo normal e que a própria situação internacional gera tantas dúvidas, pensar criticamente é mais necessário do que nunca. No meio dos inúmeros benefícios que a IA nos traz, emerge também um perigo de sermos algo preguiçosos quanto aos resultados que recebemos dela. Precisamos de saber distinguir factos de opiniões, questionar pressupostos, separar ruído de sinal. A IA pode ajudar-nos a pensar, mas não deve pensar por nós. Cabe-nos fazer perguntas, não apenas recolher respostas. Ler, viajar, debater, interessarmo-nos pelo mundo e pelo que está a acontecer – tudo isso ajuda a formar pensamento crítico desde cedo.
Empatia | Cada vez mais, o toque humano é o que distingue os bons dos grandes líderes. A capacidade de sentir o outro, de criar segurança psicológica, de compreender o que não é dito. Há dois ou três anos escrevi sobre o “Chief Empathy Officer”. Hoje, esse papel é cada vez mais essencial. Equipas cansadas, contextos complexos e vidas aceleradas pedem líderes que ouvem com atenção e respondem com humanidade, e humildade. Num mundo cada vez mais digital e de redes sociais, o toque humano adquire uma importância enorme (e já agora a presença no escritório fomenta isso), e é uma competência diferenciadora.
Coragem e Resiliência | Adicionaria estas competências por serem intemporais, mas com uma importância extrema. Numa sociedade muito mais imediatista, com muitas mudanças e incertezas, a coragem e a resiliência não são apenas virtudes – são competências estratégicas. Coragem para desafiar o status quo e liderar mudanças difíceis. Resiliência para transformar falhas em aprendizagem e continuar a avançar quando tudo oscila. São qualidades que distinguem quem sobrevive de quem evolui – e que se treinam.
Utilização de IA | Finalmente, saber utilizar a inteligência artificial é também por si só uma competência. Não é opcional. Não basta admirar o que ela faz. É preciso saber pedir, interpretar, aplicar, como tirar o máximo partido das suas capacidades. A IA não substitui a inteligência humana — amplia-a significativamente. Mas só o fará para quem souber trabalhar com ela, e não apenas ao lado dela.
Se estas competências são tão essenciais, por que razão continuam ausentes de muitos currículos escolares e universitários? Precisamos de um novo paradigma educativo, que inclua o que de essencial já existe, mas que traga também mais projetos reais, mais trabalho em equipa, mais discussão, mais experiências práticas e com aplicabilidade direta aos desafios reais do mundo e das vidas profissionais (e pessoais já agora), e que trabalhem mais estas competências.
Confesso que sou, e sempre fui, um grande adepto das skills mais “soft”. Sempre as valorizei imensamente. Aliás quando recebo e olho para um CV tendo a começar por lê-lo de baixo para cima, começando pelos interesses, pelo que é diferente, e não pelo que é igual à maioria dos CVs. Normalmente, esse é o início de uma boa conversa e que ajuda a entender melhor estas competências. Aos jovens, a minha humilde mensagem é simples: cultivem o que vos distingue da máquina. O vosso maior trunfo é aquilo que a IA não pode replicar.
Num mundo cada vez mais “hard”, são os “soft” que importam (até porque “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”). E quanto mais rápido e incerto for o futuro, mais humanas precisam de ser as nossas competências. Porque no fim, as máquinas podem aprender quase tudo. Mas liderar, escutar, inspirar, sentir e criar relações verdadeiras – isso continua a ser humano. E decisivo.








