Opinião

Agricultura 4.0 em cenário de crise alimentar

Alexandre Meireles, presidente da ANJE*

A guerra na Ucrânia, que envolve dois países que em conjunto representam 30% da oferta global de cereais, fez despertar o debate sobre a autossuficiência alimentar de Portugal.

Segundo dados do Ministério da Agricultura, o nosso país tem um nível de autoaprovisionamento de bens alimentares de 86%, em média. Nível, esse, que apresenta, porém, grandes oscilações entre alimentos:  milho (25%), trigo panificável (4,6%), arroz (62%), óleo de girassol (7,5%), carne de vaca (50%), hortícolas (155%), fruta (73%), vinho (100%), azeite (160%) e leite (105%).

No que toca aos cereais, a nossa capacidade de autoaprovisionamento é de apenas 10%, depois de já ter representado 23%, em 2018. Este decréscimo acompanha, de resto, a redução, nas últimas décadas, da área de produção de cereais em Portugal. No final dos anos 80 existiam cerca de 900 mil hectares para produção cerealífera, valor que baixou para 257 mil em 2016, para 223 mil em 2019 e para 215 mil (dois terços no Alentejo) em 2021.

Ora, devido à invasão da Ucrânia pela Federação Russa, há o sério risco de uma erosão dos stocks de cerais no mundo. Estamos, aliás, a assistir a uma escalada dos preços destes produtos agrícolas, não sendo de excluir o colapso do sistema alimentar global e o consequente agravamento da fome em várias zonas do globo.

Embora não seja um especialista do setor, tenho para mim que a agricultura portuguesa evoluiu muitíssimo nas últimas décadas e encerra um grande potencial de competitividade e crescimento. A agricultura foi um dos sectores mais resilientes na crise financeira (2010-2014) e, em plena emergência pandémica, evoluiu em contraciclo com a restante economia, tendo as exportações agrícolas crescido 5,5% em 2020 e 11,4% (6 920 M€ para 7 709 M€) em 2021 face aos anos imediatamente anteriores.

De facto, o setor agrícola parece hoje mais qualificado, intensivo em inovação e tecnologia e competitivo internacionalmente. Produzem-se muitos mais produtos agrícolas em Portugal e, em resultado disso, o défice alimentar (diferença entre o que consumimos e o que importamos) foi reduzido substancialmente e, como já aqui disse, aumentou o nível de autoaprovisionamento do país. Isto apesar dos agricultores em Portugal estarem a diminuir (-40% entre 1999 e 2016) e a sua média etária ser bastante elevada (52% têm mais de 65 anos), além de se verificar o abandono dos campos em paralelo com o despovoamento do interior do país.

Creio que há massa crítica, recursos e capacidade instalada para corrigirmos os desequilíbrios da nossa produção agrícola, designadamente no que respeita ao nível de autoaprovisionamento de cereais. Como se pode inferir da dramática conjuntura externa, a soberania alimentar tem de ser uma prioridade dos decisores políticos e deve orientar a nossa política agrícola, mesmo que isso signifique sacrificar culturas mais rentáveis no curto prazo. Acresce a questão incontornável da sustentabilidade ambiental, que implica a transição para sistemas de produção extensiva e a promoção do consumo de produtos locais.

A transição verde, a valorização dos circuitos de proximidade e o equilíbrio da produção alimentar são desafios ao alcance de uma nova geração de agricultores-empresários. Assim haja incentivos para atrair mais jovens qualificados para a agricultura, dando-lhes condições para lançarem ou expandirem projetos agrícolas baseados em conhecimento e inovação, em tecnologias e sistemas de precisão e em modelos de economia circular. No fundo, aquilo que define a agricultura 4.0.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles

Alexandre Meireles

Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso Geral de Gestão da Porto Business School. A sua carreira profissional esta ligada a diferentes setores de atividade, entre os quais restauração e saúde. No período de 2009 a 2011 foi energy division coordinator no grupo Mota-Engil, e depois dessa... Ler Mais..

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