Hoje certamente poucos serão aqueles a negar os benefícios da tecnologia. Lembrem-se os avanços na área da saúde (mapeamento genético, telemedicina, rapidez, precisão e eficiência de diagnósticos), na esfera financeira (virtualização de pagamentos, moedas digitais, biometria), no universo do turismo (acessibilidade universal, economia colaborativa, ofertas low-cost), no domínio da educação (e-readers, e-learning, GBL – Game Based Learning) ou no âmbito do mercado de trabalho (e-business, e-commerce, e-marketplace, Indústria 4.0, WEB 2.0).

Na verdade, a tecnologia permite à humanidade (re)criar um mundo melhor, mais sustentável, estruturalmente organizado. Um mundo com menos carros, poluição e destruição, onde (quase) tudo estará disponível através de um qualquer dispositivo de voz, em que a automação premiará os indivíduos com tempo livre para supostas escolhas arbitrárias, autónomas, independentes. De resto, talvez essa seja também uma das grandes questões do amanhã: como preencheremos as nossas vidas quando libertados de tantas tarefas?

Todavia, o advento das tecnologias ditas disruptivas (inteligência artificial, internet das coisas, robotização, blockchain, bitcoin, big data, etc.) trouxe igualmente um grupo de especialistas que anunciam aos quatro ventos uma fratura completa da sociedade tal como a conhecemos atualmente. Recordem-se os alertas de Elon Musk, “é preciso regular a Inteligência Artificial antes que haja robôs a matar pessoas na rua“; de Stephen Hawking, “a menos que aprendamos a preparar-nos para – e evitar – os riscos possíveis, a Inteligência Artificial pode ser o pior evento na história da nossa civilização, trazendo perigos como armas autónomas poderosas ou novas formas que permitam a alguns explorar muitos”; ou do círculo de 26 académicos reunidos em Oxford, autores do relatório The Malicious Use of Artificial Intelligence: Forecasting, Prevention and Mitigation, “é urgente tomar medidas para conter as ameaças relacionadas com estas tecnologias que estão a evoluir a um ritmo sem precedentes, para o bem e para o malPrepararmo-nos para usos maliciosos associados a esta transição para a Inteligência Artificial é uma tarefa urgente”. Ora, permito-me acrescentar: é um desafio hercúleo, mas temos obrigatoriamente de ir a jogo.

As nossas comunidades, essas, e conforme apanágio de sempre facilmente verificável nos compêndios de história, assumem perante estes dilemas comportamentos contraditórios. Um entusiasmo incondicional perante novos serviços, produtos e recursos tecnológicos. Abdicando de liberdade, privacidade e segurança. Consubstanciando o dataísmo do israelita Yuval Harari em que as pessoas são vistas como uma fonte de dados de valor económico. Mas paralelamente uma submissão, sobretudo das elites políticas, à inevitabilidade do devir tecnológico como um determinismo. Influenciando a democracia, a desigualdade e a felicidade das pessoas. Materializando a (onerosa) visão estatística das gerações políticas no ativo. Urge, então, descobrir um equilíbrio saudável que nomeie a ética como esteio da confiança na tecnologia.

Até porque a revolução tecnológica em curso implica inevitavelmente transformações políticas, sociais e industriais. Limita direitos, potencia comportamentos e incrementa a intervenção humana. Rejeita verdades absolutas, estabelece preceitos e questiona dogmas. Quadro de pressupostos apenas conciliáveis mediante regulação, deontologia, códigos de conduta, valores éticos e princípios morais. O Parlamento Europeu, aliás, expôs recentemente algumas recomendações no âmbito da ética tecnológica, nomeadamente no que concerne a questões de educação, trabalho, direitos individuais, responsabilidade civil, licenciamento de robôs, e procedimentos para atividades de investigação, engenharia e ciência, etc. Isto enquanto recomendava uma abordagem gradual, pragmática e ponderada de modo a impedir o asfixiar da inovação.

Efetivamente, existe já um movimento social, empresarial e político claramente voltado para a introdução de regras morais na tecnologia. Uma dinâmica iniciada em certas assembleias científicas que busca a criação, o desenvolvimento e a gestão de tecnologia em bases eticamente plausíveis, controlada de forma transparente, fiscalizada de modo responsável, manuseada dentro de parâmetros e empregue com critério. Onde o primado ético será admitir que aquilo que poderá fazer-se em prol da sociedade nem sempre deverá fazer-se em favor dessa mesma sociedade.

*Associação Nacional das Empresas das Tecnologias de Informação e Eletrónica

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Licenciado em Engenharia de Electrónica e Telecomunicações, pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa (1984/1989), José Pedro Salas Pires é atualmente presidente da ANETIE – Associação das Empresas das Tecnologias de Informação e Electrónica. Isto depois de ocupar outros cargos em... Ler Mais