Opinião
A curiosidade como vantagem competitiva num mundo de IA
No dia 12 de fevereiro estive numa conferência no ISEG que me fez pensar durante dias. “Educar 2040: o que fica, o que muda, o que importa” era o título, e confesso que, apesar de ter ido pelo interesse que o tema me desperta, saí com imensa curiosidade sobre o que o futuro nos reserva.
O professor Arlindo Oliveira, do IST, partilhou algo que me deixou a pensar. Disse que já começa a notar, nos universitários, uma perda de espírito crítico. Que os estudantes estão mais interessados em ter respostas do que a formular perguntas. E que, neste contexto, os que vão vingar serão precisamente os que mantiverem a curiosidade viva.
Já o psiquiatra Gustavo Jesus, falou do impacto das redes sociais em cérebros em formação. Não foi uma conversa nova, mas ganhou outro peso quando soubemos que, precisamente naquele dia, a Assembleia da República aprovara a proibição do acesso livre a redes sociais a menores de 16 anos. Coincidência ou não, o timing pareceu-me um sinal. Há algo que, coletivamente, finalmente estamos a reconhecer: a atenção é um recurso escasso, e estamos a deixar que ela seja capturada antes de ter a oportunidade de se transformar em pensamento.
Mas houve um relato da investigadora Marta Pinto, sobre experiências com IA no contexto educativo, que aguçou a minha curiosidade. Contou como uma professora pôs os alunos a fazer testes e depois a corrigir os dos colegas — com o auxílio da inteligência artificial. O resultado foi inesperado: os próprios alunos perceberam que a IA pode cometer erros e até tornar as questões mais complexas do que o pretendido. Foi uma aula de pensamento crítico, disfarçada de exercício tecnológico. E foi precisamente isso que me pareceu brilhante. Haja mais professores a seguir este caminho, que não estejam somente focados em evitar a tecnologia em sala de aula, mas sim em discuti-la com os alunos.
Pessoalmente, não sou contra a IA. Longe disso. Uso-a, aprendo com ela, integro-a no meu trabalho. A tecnologia, bem usada, é um acelerador extraordinário. O que me preocupa não é a ferramenta — é o que acontece quando a ferramenta substitui o processo de pensar em vez de o ampliar.
O World Economic Forum, no seu relatório Future of Jobs 2025, é claro a este respeito. Entre as competências que mais vão crescer em importância até 2030, a curiosidade e a aprendizagem ao longo da vida aparecem em destaque, a par do pensamento criativo, da resiliência e do pensamento analítico. Não são competências técnicas — são competências profundamente humanas. E é exatamente isso que torna a curiosidade tão estratégica neste momento: ela é o que a IA ainda não consegue replicar de forma genuína.
A IA responde. A curiosidade pergunta. E é na pergunta que começa tudo — a inovação, o conhecimento, a identidade. Um jovem que sabe usar o ChatGPT, mas que não sabe o que perguntar, está a desperdiçar uma ferramenta muito poderosa. Ao contrário, um jovem curioso, que questiona, que verifica, que cruza fontes e que não aceita a primeira resposta como definitiva, vai tornar-se mais eficaz com IA, não menos.
Trabalho todos os dias com jovens em processos de orientação vocacional e há uma pergunta que me fazem cada vez mais: “Para que é que eu estudo isto se a IA vai fazer tudo?” É uma pergunta legítima. Merece uma resposta honesta. E a minha é sempre a mesma: a IA vai fazer o que lhe mandares fazer. O que ela não vai substituir é a tua capacidade de saber o que pedir, de questionar o que recebe, de decidir o que fazer com esse resultado — e de ter a coragem de seguir um caminho que não foi gerado por um algoritmo.
A conferência terminou e a pergunta continua por responder: o que é que a educação de 2040 vai precisar de garantir? A minha resposta pessoal é simples: que os nossos jovens cheguem a 2040 com a curiosidade intacta. Que não tenham delegado tanto o pensamento em máquinas que já não saibam pensar por si. Que o espanto pelo mundo — por uma ideia nova, por uma descoberta inesperada, por uma pergunta sem resposta fácil — continue a ser uma característica humana que vale a pena cultivar.








