Opinião

A tecnologia já mudou o mundo. A sua empresa ainda está a aprovar o roadmap?

Rui Ribeiro, Partner Aiteris e professor da Universidade Lusófona/IPLuso
Foto: Rui Ribeiro, Partner Aiteris e professor da Universidade Lusófona/IPLuso

Durante décadas, pensámos a transformação digital como uma viagem entre dois pontos: conhecer o presente, definir o futuro e traçar um plano. Mas há um problema: quando chegamos ao destino, ele já mudou.

Entrámos numa economia de possibilidades, marcada pela velocidade, pela multiplicidade de alternativas, pela interdependência e pela imprevisibilidade. Chamo-lhe Era da Economia Quântica como metáfora de gestão, não como descrição física da economia. Neste contexto, a estratégia já não pode limitar-se a escolher um caminho. Tem de criar opções e capacidade para mudar de direção.

A tecnologia acelera; as organizações, nem sempre. Continuamos com orçamentos anuais, decisões sequenciais, projetos longos e estruturas desenhadas para a estabilidade. A Lei de Martec ajuda a compreender o desfasamento entre inovação e adaptação organizacional. Digitalizar processos sem transformar a forma de decidir pode ser apenas digitalizar a lentidão.

Mas há algo novo. Não estamos perante uma única revolução tecnológica. Estamos perante a convergência de várias tecnologias: inteligência artificial, cloud e edge, dados em tempo real, IoT, automação, gémeos digitais e novas exigências de cibersegurança, incluindo a preparação para a era pós-quântica. O impacto está menos em cada tecnologia isolada do que na sua combinação. Dados de sensores alimentam modelos; modelos antecipam cenários; agentes interpretam resultados e desencadeiam fluxos de trabalho. A fronteira entre o digital e a operação física torna-se cada vez mais ténue.

É aqui que surge outra mudança decisiva: os agentes de IA deixam de ser apenas interfaces de resposta e passam a participar da execução. Podem consultar sistemas, usar ferramentas, repartir tarefas e trocar informações com outros agentes. Protocolos como MCP e A2A, em conjunto com APIs, abrem novas possibilidades de interoperabilidade.

A questão deixa então de ser «que aplicação vamos instalar?» e passa a ser «como vamos orquestrar trabalho entre pessoas, sistemas e agentes?». Quem define objetivos? Quem atribui permissões? Quem verifica resultados? Quando deve um agente parar e pedir validação humana? Uma organização com agentes não é uma organização sem responsáveis. Pelo contrário: quanto maior a autonomia, mais explícitas devem ser as regras, a rastreabilidade e a supervisão.

Esta realidade exige arquiteturas modulares, dados interoperáveis, segurança incorporada e uma camada de orquestração que ligue capacidades tecnológicas a decisões de negócio. Exige também outro perfil para as equipas de TI: menos centrado apenas na entrega de aplicações e mais preparado para integrar ecossistemas, avaliar modelos e agentes, governar riscos e assegurar resiliência. Programar continúa a importar. Saber o que delegar, integrar e verificar ganha importância.

A próxima geração de organizações precisará de um núcleo estável de confiança e princípios, mas também de capacidade permanente para experimentar, decidir e reconfigurar. A governação não pode ser apenas uma fila de autorizações; deve definir os limites dentro dos quais é possível acelerar com segurança.

O futuro não vai esperar até terminarmos o roadmap. A vantagem competitiva pertencerá menos a quem acumula mais tecnologia e mais a quem consegue orquestrar possibilidades, transformar decisões em ação e adaptar-se continuamente, sem perder o controlo do que realmente importa.

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Rui Ribeiro

Rui Ribeiro

Atualmente Partner Aiteris e professor da Universidade Lusófona/IPLuso, tendo tido várias atividades profissionais, entre as quais Head of Consulting & Technology na Auren Portugal, diretor-geral da IPTelecom, diretor comercial da Infraestruturas de Portugal S.A., diretor de Sistemas de Informação na EP - Estradas de Portugal S.A. e Professional Services Manager da Sybase Inc. em Portugal. Na academia é diretor executivo da LISS – Lusofona Information Systems School, e docente da ULHT. Rui Ribeiro é doutorado em Gestão Empresarial Aplicada, na... Ler Mais..

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