Entrevista/ “O maior valor hoje está na combinação das pessoas com a tecnologia”

Luís Ribeiro, Chief Technology Officer na KLx
Foto: Luís Rbeiro, Chief Technology Officer na KLx

“Acredito que Portugal deve apostar fortemente neste modelo e criar condições para reforçar a sua competitividade internacional na atração de campus tecnológicos de grandes grupos internacionais, defende Luís Ribeiro, Chief Technology Officer na KLx.

Instalada em Portugal desde fevereiro de 2020, na altura com uma equipa de cerca de 200 pessoas, a KLx é especializada no setor da banca, seguros e serviços financeiros e fornece soluções tecnológicas para resolver os desafios do Grupo Crédit Agricole e dos seus clientes.

Atualmente com uma equipa 1000 pessoas e com a previsão de chegar às 1500 pessoas, até ao final de 2027, este campus tecnológico do Grupo Crédit Agricole em Portugal acaba de assinalar o desenvolvimento de produtos próprios de IA, sendo a primeira vez que a empresa desenvolve e utiliza tecnologia própria.

Como explicou Luís Ribeiro, Chief Technology Officer, em entrevista ao Link to Leaders, a KLx promove a adoção de IA de forma gradual, cuidadosa e sempre validada por quem tem o conhecimento e a responsabilidade: o humano.

A KLx lançou recentemente os seus primeiros produtos tecnológicos de Inteligência Artificial, o KRAFT e o KLAIRE. Em que consistem exatamente?

Os dois produtos, apesar das suas diferenças, têm em comum serem construídos à base de Inteligência Artificial (IA) e estarem a ser usados internamente pelas equipas, a diferentes níveis. Por um lado, o KRAFT apoia as equipas que testam aplicações informáticas, uma vez que, a partir da documentação de uma funcionalidade, consegue gerar automaticamente propostas de requisitos, casos de teste e percurso do utilizador até essa funcionalidade, um trabalho que antes era realizado manualmente.

Por outro lado, o KLAIRE, funciona como um especialista em aplicações mais antigas, como as desenvolvidas em COBOL. Encontra-se disponível 24h, analisa o código dessas aplicações e permite que qualquer pessoa da equipa lhe faça perguntas sobre o seu funcionamento como se faria a uma colega que fosse perito no tema.

Estes dois produtos marcam a entrada da KLx no desenvolvimento de produtos próprios de IA, sendo a primeira vez que a empresa desenvolve e utiliza tecnologia própria. Contudo, para nós, foi muito importante estipular que vamos seguir um modelo human-in-the-loop, em que a IA propõe e sugere, mas é sempre o profissional humano quem valida, corrige ou rejeita antes de avançar e, principalmente, quem detém a responsabilidade final pela decisão.

Qual o impacto das novas ferramentas no dia a dia das equipas?

As novas ferramentas já estão a ser utilizadas e a maior diferença é a capacidade que têm de automatizar tarefas que eram antes manuais. Como exemplo, temos o KRAFT que apoia no ciclo de vida dos testes de software, com a sugestão dos casos de teste, percursos de utilizador e outros. Neste sentido, estão a permitir-nos ser mais produtivos.

Por outro lado, o KLAIRE veio tornar acessível o conhecimento sobre aplicações legacy, isto é, aplicações mais antigas como as que utilizam código COBOL, a qualquer elemento da equipa e não só a quem já as domina. Isto permite-nos uma melhor distribuição da equipa pelos projetos e, acima de tudo, uma melhor gestão do conhecimento.

A integração destas ferramentas no dia a dia vai além de otimizar o trabalho das equipas técnicas, reflete também a filosofia de adoção de IA que promovemos na KLx: gradual, cuidadosa e sempre validada por quem tem o conhecimento e a responsabilidade: o humano.

“É um marco para a nossa história (…) estarmos a desenvolver, pela primeira vez, tecnologia própria”.

O que representa para o campus, para o seu crescimento, esta nova etapa?

Esta nova etapa não só reflete como promove o nosso crescimento. É um marco para a nossa história, enquanto campus tecnológico do grupo Crédit Agricole, estarmos a desenvolver, pela primeira vez, tecnologia própria. Até hoje, a atividade era centrada em prestar competências de Tecnologias da Informação (TI) aos parceiros do grupo e não em desenvolver também produtos próprios. Assim, este é um momento que assinala a nossa evolução e consolida a nossa posição como parceiros de referência do grupo.

E enquanto Chief Technology Officer da KLx, como avalia o trabalho desenvolvido pela KLx para o grupo Crédit Agricole e para os clientes do grupo?

O trabalho da KLx tem sido marcado, desde o início, pela qualidade e pela nossa capacidade tecnológica. E isso traduz-se na confiança que os nossos clientes depositam em nós. Um bom exemplo é o nosso crescimento: em apenas seis anos de existência, chegámos às 1000 pessoas e prevemos chegar às 1500 pessoas até ao final de 2027. Este crescimento demonstra não só a capacidade que temos de entregar, mas também a confiança que os nossos clientes e o Grupo Crédit Agricole tem em nós.

Somos reconhecidos por termos profissionais com um excelente nível tecnológico, muito focados na qualidade da entrega e, naturalmente, no cumprimento rigoroso das normas de segurança e compliance. Mas, para mim, há um ponto ainda mais importante: a nossa aposta na excelência da engenharia de software. Não procuramos simplesmente aplicar uma determinada tecnologia ou seguir uma tendência. Procuramos perceber o contexto, os objetivos e as necessidades do cliente e, a partir daí, escolher a melhor solução tecnológica para aquele problema.

É essa combinação entre competência tecnológica, qualidade, segurança e capacidade de perceber o contexto que considero ser uma das grandes forças da KLx.

“(…) estamos a apostar em algumas áreas que consideramos estratégicas, nomeadamente Inteligência Artificial e Data”.

Atualmente, quais os setores em destaque na KLx?

A nossa missão sempre foi o desenvolvimento de software e esse continua a ser o nosso principal foco. O que temos feito é evoluir esse foco de acordo com as necessidades do mercado e dos clientes. Nesse contexto, estamos a apostar em algumas áreas que consideramos estratégicas, nomeadamente Inteligência Artificial e Data.

São áreas que complementam o nosso conhecimento de engenharia de software e que nos permitem continuar a criar soluções relevantes, seguras e preparadas para os desafios que os nossos clientes enfrentam.

O desenvolvimento de tecnologia própria KLx vai extrapolar para o mercado? Em que moldes?

A nossa ambição é conseguirmos comercializar os nossos produtos para que sejam também eles adotados pelos parceiros do grupo Crédit Agricole, isto é, uma comercialização interna ao ecossistema em que estamos inseridos. Embora exportar a nossa inovação e tecnologia para que os nossos clientes as utilizem seja um dos nossos objetivos, queremos dar todos os passos de forma cuidadosa e coesa.

Olhando para os seis anos de atividade da KLx, como avalia o percurso e desempenho da empresa e das suas pessoas? Qual o estado de maturidade do projeto?

Ao longo destes seis anos, a KLx teve sempre um crescimento rápido, mas sustentado. Começámos em 2020 com cerca de 200 pessoas e, entretanto, já ultrapassámos a barreira das 1000 pessoas. São precisamente elas que nos ajudam a fazer este caminho de crescimento e que também colhem os frutos, testemunhando na primeira pessoa as novidades e a nossa evolução. Este aumento de equipa e de competências também se tem refletido ao nível estrutural, o que nos exigiu várias adaptações ao longo do tempo. Atualmente, podemos dizer que somos um projeto sólido e que somos um parceiro de referência do grupo.

Qual a abordagem da KLx face ao acentuado crescimento da IA? Quais os desafios que enfrentam no atual cenário? 

Atualmente, a IA é um tópico incontornável. Esta evolução foi muito rápida e vai mudar de forma drástica a realidade que conhecíamos, não só a nível profissional, mas também pessoal. Quero também destacar que esta deve ser uma evolução que deve ser encarada com cuidado e responsabilidade. As boas práticas de engenharia são, neste momento, ainda mais importantes do que eram até agora. Caso estas não existam, com o aumento da produção de código, o que podia ser visto como uma bênção pode transformar-se rapidamente numa maldição, aumentando o caos e a imprevisibilidade da entrega.

Sendo a IA uma tecnologia muito recente, ainda estamos a aprender muitas coisas, quer seja em termos da sua capacidade como dos riscos que acarreta. É exatamente nesse sentido, que procuramos não dar um passo maior que a perna. Queremos elevar as nossas equipas e dotá-las de ferramentas que as ajudam a serem mais produtivas e competentes, mas queremos também responsabilizá-las para que o uso da IA não seja feito de forma despreocupada.

Enquanto campus tecnológico, somos os primeiros a ter os olhos na IA e no mundo de possibilidades que nos pode trazer. Mas também é exatamente por estarmos neste ecossistema que somos cautelosos com a forma como a integramos. E claro, sempre alinhados com o grupo.

“(…) acredito que Portugal deve  (…) criar condições para reforçar a sua competitividade internacional na atração de campus tecnológicos de grandes grupos internacionais”.

O que representa para Portugal, para a inovação tecnológica nacional, ter um campus tecnológico como o vosso?

Para Portugal e para a inovação tecnológica nacional, considero fundamental existirem campus tecnológicos como o da KLx. Em primeiro lugar, porque contribuem para afirmar Portugal como um centro de excelência tecnológica e aumentar a sua visibilidade internacional. Isso ajuda-nos a atrair o investimento estrangeiro de que precisamos para continuar a desenvolver a nossa economia. Em segundo lugar, porque nos permitem reter talento em Portugal e criar oportunidades para os nossos profissionais trabalharem em projetos cada vez mais interessantes, desafiantes e de maior valor acrescentado.

Além disso, estes campus contribuem para desenvolver o ecossistema tecnológico nacional, através da criação de conhecimento, da especialização e da partilha de experiências e competências. Por isso, acredito que Portugal deve apostar fortemente neste modelo e criar condições para reforçar a sua competitividade internacional na atração de campus tecnológicos de grandes grupos internacionais.

No fundo, temos de ambicionar mais enquanto sociedade. Queremos ter talento qualificado, queremos desenvolver tecnologia de qualidade e queremos participar em projetos de maior valor acrescentado. Mas, acima de tudo, queremos transformar essa capacidade em mais produtividade, porque é assim que conseguimos gerar mais valor e criar melhores condições para o futuro do país.

Quais as vantagens dos grupos empresariais terem os seus próprios campus tecnológicos? Esse é o caminho futuro?

Na minha opinião, existem várias vantagens para um grupo empresarial em ter o seu próprio campus tecnológico. Em primeiro lugar, permite criar especialização e otimização organizacional, concentrando competências e conhecimento tecnológico e criando estruturas mais eficientes. Depois, facilita a atração e retenção de talento. Um campus tecnológico com uma missão clara e projetos relevantes consegue criar um ambiente muito mais apelativo para profissionais altamente qualificados.

E há ainda uma questão que considero estratégica: permite manter o conhecimento tecnológico dentro do próprio grupo. Num contexto em que a tecnologia é cada vez mais crítica para o negócio, este conhecimento é um ativo estratégico que não devemos perder. Por estas razões, sim, acredito que este é um caminho com muito futuro.

Qual a chave para inovar e entregar qualidade hoje em dia? Pessoas ou tecnologia?

A resposta tem de ser os dois. O maior valor hoje está na combinação das pessoas com a tecnologia. Ao juntarmos pensamento crítico e sensibilidade humana a competências tecnológicas, conseguimos obter um resultado que é, atualmente, bastante melhor do que no passado.

Quem acredita que são só as pessoas, e deixa para trás a tecnologia, ou que é apenas a tecnologia, e deixa para trás as pessoas, vai falhar redondamente. Não devemos ter uma ambição desmedida nem acreditar num sonho desmedido. Devemos, sim, ser ponderados e não ter medo de dar um passo atrás se assim for preciso. Estamos todos a aprender todos os dias, não só com os nossos erros, como também com os dos outros.

O reforço da equipa tecnológica KLx está nos planos? Em que áreas procuram mais talentos?

Sim, sem dúvida! Continuamos a crescer e estamos regularmente a recrutar talento que venha contribuir para a nossa missão. As vagas atuais podem ser encontradas no website e são bastante diversificadas em termos de áreas.

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