Opinião
Liderar sem saber IA é hoje uma forma de incompetência
O 2026 Global Leadership Study, da Harvard Business Impact, tem um mérito: tira a liderança do território confortável das boas intenções e coloca-a no território dos números. Foram ouvidos 1.139 líderes seniores, em mais de 15 países; 49% trabalham em organizações com receitas superiores a 10 mil milhões de dólares e 46% em empresas com mais de 20 mil colaboradores. Não estamos a falar de teoria. Estamos a falar de terreno.
O primeiro número é avassalador: 80% consideram muito ou extremamente importante saber funcionar em ambientes de mudança permanente, incerteza e stress. Pudera! Basta olhar para o mundo à nossa volta. Em 2024 eram 58%. Em dois anos, de metade passou-se à regra. tornou-se regra.
Depois vem a IA. 51% das organizações respondem que a utilização da IA serve para melhorar práticas de negócio entre as prioridades de 2026; 45% querem automatizar processos; 42% procuram eficiência operacional. Mais importante: 82% dizem já ter IA significativa ou extensivamente integrada no seu trabalho diário.
E aqui aparece a fratura: apenas 35% consideram os seus líderes totalmente preparados para integrar conhecimento produzido por IA, exercer julgamento sobre ele e gerir os riscos associados. Ou seja: a tecnologia avançou muito mais depressa do que a liderança. E, se assim é, liderar sem IA é apenas incompetência.
É precisamente por isso que já não aceito a ideia de que um líder “não precisa de perceber de tecnologia”. Ou de IA. Precisa. Não tem de programar modelos. Mas tem de saber o que é um LLM, porque alucina, o que são contexto e memória, como funcionam agentes, onde entram os dados, que diferenças existem entre automação e autonomia, como se valida uma resposta e onde deve permanecer decisão humana. E, já agora, porque é que a responsabilidade é humana.
Precisamente porque 96% dos inquiridos antecipam funções de liderança em verdadeira fusão humano-IA, então: os líderes terão de orientar, refinar, desafiar e integrar outputs de IA em decisões e processos. E 79% consideram muito ou extremamente importante dotar de sentido ambientes de incerteza para uma transformação bem-sucedida com IA.
É aqui que muda o líder. Menos “dono da resposta”; mais construtor da pergunta. Menos confiança na apresentação impecável; mais obsessão pela hipótese, pelos pressupostos, pela fonte, pelo contraditório e pelo que ficou de fora. A própria Harvard alerta para o perigo de confundirmos uma análise muito bem produzida pela IA com bom julgamento. Se não percebermos isto, pouco percebemos para os dias de hoje e amanhã.
Liderar com IA não é carregar num botão mais depressa. É perceber suficientemente a máquina para saber quando a usar, quando a contrariar e quando se deve desligar.
Porque a literacia em IA deixou de ser uma competência digital. Passou a ser competência de liderança. É bom que isto entre depressa na cabeça e na prática de quem lidera.








