Opinião

Como os grandes líderes aproveitam o stress e como as relações públicas o traduzem e potenciam

Clara Armand-Delille, fundadora da ThirdEyeMedia
Foto: Clara Armand-Delille, ThirdEyeMedia

O capital de risco passou décadas a tentar quantificar aquilo que distingue um fundador de excelência. Analisamos métricas como a economia unitária, a eficiência na utilização de capital e o ajustamento entre produto e mercado (product-market fit). No entanto, longe dos holofotes, a verdadeira vantagem competitiva de um fundador resume-se muitas vezes a uma única variável psicológica: a forma como processa, interioriza e canaliza o stress.

Os profissionais de Relações Públicas, por trabalharem de perto com os principais decisores, ocupam uma posição privilegiada para observar aquilo que transforma um bom fundador num líder excecional.

Num artigo recente da Harvard Business Review, os executive coaches Jon Miller e Drew Keller categorizaram as respostas dos líderes ao stress em seis arquétipos distintos. Estes arquétipos distribuem-se segundo dois eixos: a forma como os líderes encaram o stress — como uma ameaça ou como uma oportunidade — e a forma como lhe respondem — com serenidade ou através de uma ação mais dinâmica.

  • O Farol: Projeta calma e clareza — um farol de estabilidade no caos.
  • O Alquimista: Vê a pressão como combustível para o crescimento, inovação e criatividade.
  • O Bombeiro: Alimenta-se de stress agudo, correndo habitualmente em direção às chamas.
  • O Estoico: Opera através de lógica fria, disciplina rígida e autocontrolo.
  • O Diplomata: Foca-se em desarmar conflitos, construir confiança e mobilizar pessoas.
  • O Contentor: Mantém um controlo firme sobre a narrativa através da estrutura, planeamento e foco intenso.

Enquanto os líderes mais reativos tendem a ficar presos num único estado defensivo, os fundadores que conseguem afirmar e redefinir uma categoria revelam maior agilidade psicológica e têm algo em comum: encaram, de forma intrínseca, o stress como uma oportunidade, e não como uma ameaça existencial, operando sobretudo a partir daquele que é o ponto de equilíbrio ideal: o Alquimista.

O ponto de equilíbrio ideal: o fundador Alquimista

O Alquimista não se limita a tolerar a pressão; transforma-a em impulso estratégico, que acaba por se refletir também na equipa e na cultura da empresa. Quando um concorrente lança um produto semelhante ou quando as condições macroeconómicas se tornam mais exigentes, o Alquimista não entra em pânico.

Encarar essa tensão como uma oportunidade para afinar o posicionamento, reforçar a proposta de valor e mobilizar a equipa em torno de uma missão mais ambiciosa faz parte da sua forma de liderar. Um fundador arrojado, mas sereno, contribui para criar uma cultura confiante e de elevado desempenho.

Importa ainda sublinhar que os grandes fundadores são altamente adaptáveis. Conseguem projetar a visão estável e de longo prazo do Farol, mas, quando surge uma crise inesperada, transitam de forma natural para uma maior agilidade operacional, agindo com a rapidez de um Bombeiro e com a serenidade analítica de um Estoico.

O espelho das Relações Públicas: transformar mentalidade em autoridade no mercado

Enquanto consultores de comunicação, ocupamos uma posição privilegiada. Conseguimos observar, em tempo real, estas posturas psicológicas internas e, ao mesmo tempo, participar ativamente na sua construção, consolidação e tradução numa narrativa pública.

Ao longo dos anos, tenho percebido que o arquétipo de resposta ao stress de um fundador influencia diretamente a forma como este é percecionado externamente pelos media.

Por exemplo, quando um fundador encara o stress estrutural — como uma concorrência intensa, os desafios do crescimento ou uma expansão agressiva — como um desafio a superar, o nosso papel passa por traduzir essa postura de Alquimista em posicionamento de mercado. Transformamos a pressão operacional interna em artigos de opinião assertivos, ângulos mediáticos capazes de definir uma categoria e mensagens claras dirigidas aos investidores.

O líder assume o papel de Farol e a estratégia de Relações Públicas garante que o mercado consegue ver essa luz. Por exemplo, quando trabalhámos com a Celo no lançamento de stablecoins na Europa e no Brasil, o nosso papel foi refletir a visão arrojada e de longo prazo do fundador, Rene Reinsberg. Articulámos a sua perspetiva sobre Web3 e moedas digitais de uma forma capaz de informar públicos generalistas e, simultaneamente, reforçar a confiança do mercado na plataforma.

Em sentido inverso, quando surgem ameaças existenciais — como uma violação de cibersegurança, uma falha de produto ou um escândalo público —, o fundador tem de passar temporariamente para um modo de mitigação da ameaça. Nestes momentos, a execução da estratégia de Relações Públicas deve acompanhar essa necessidade de liderança.

Na comunicação com os colaboradores, assumimos o papel do líder Diplomata: ajudamos o fundador a preparar comunicações internas empáticas e tranquilizadoras, capazes de reduzir a ansiedade, restabelecer a confiança e manter a equipa alinhada. Externamente, junto dos media e de outros stakeholders, uma boa estratégia de Relações Públicas deve funcionar como uma estrutura de contenção, construindo uma resposta organizada e altamente controlada, capaz de absorver o pânico do mercado, transmitir estabilidade e estabelecer limites claros em torno da reputação da empresa.

Por exemplo, quando a iZettle — atualmente Zettle by PayPal — sofreu um incidente relacionado com dados em 2013, implementámos rapidamente uma estratégia de crise, recorrendo a declarações de contenção previamente preparadas, enquanto as equipas de engenharia procuravam determinar a dimensão e o alcance da falha. Estas declarações funcionam como poderosos mecanismos de contenção: reconhecem a preocupação pública, evitando ao mesmo tempo que a especulação mediática ocupe o vazio de informação.

O stress como sinal para o mercado

Nos ecossistemas de elevado crescimento, o stress é inevitável. O que distingue empresas voláteis de líderes de mercado duradouros é a capacidade emocional de transformar essa pressão a partir do topo.

Os grandes fundadores não procuram criar ambientes sem stress; procuram dominar a capacidade de alternar entre serenidade e ação. Ao rodearem-se de parceiros estratégicos de comunicação capazes de traduzir essas respostas internas em confiança pública, transformam precisamente a pressão que poderia fragilizá-los na sua maior vantagem competitiva.

Versão em  inglês

How Great Leaders Harness Stress and  How PR Translates and leverages It

Venture capital has spent decades trying to quantify what makes an elite founder. We analyze unit economics, burn multiples, and product-market fit. Yet, behind closed doors, a founder’s ultimate moat often comes down to a single psychological variable: how they process, internalize, and channel stress. PR professionals, who sit close to key decision-makers, have a front-row seat to watch what transforms a founder from good to great.

In a recent Harvard Business Review article, executive coaches Jon Miller and Drew Keller, categorized leadership stress responses into six distinct archetypes. And the archetypes are mapped along two axes: whether leaders perceive stress as a threat or an opportunity, and whether they respond with composure or dynamic action.

  • The Lighthouse: Projects calm and clarity—a beacon of stability in chaos.
  • The Alchemist: Sees pressure as fuel for growth, innovation, and creativity.
  • The Firefighter: Thrives on acute stress, habitually running toward the flames.
  • The Stoic: Operates through cool logic, rigid discipline, and self-control.
  • The Diplomat: Focuses on defusing conflict, building trust, and mobilizing people.
  • The Container: Maintains a firm grip on the narrative through structure, planning, and intense focus.

While reactive leaders often get trapped in a single defensive state, category-defining founders display psychological agility and all have one thing in common: They intrinsically view stress as an opportunity rather than an existential threat – operating primarily from the ultimate sweet spot: The Alchemist.

The Sweet Spot: The Alchemist Founder

The Alchemist doesn’t merely tolerate pressure; they transmute it into strategic momentum, which trickles down into their team and company culture. When a competitor launches a copycat product or when macro conditions tighten, the Alchemist doesn’t panic.

They view the tension as an invitation to sharpen their positioning, re-anchor their value proposition, and rally their team around a bolder mission. A bold yet relaxed founder fosters a confident, high-performing culture.

Crucially, great founders are highly fluid. They can project the steady, long-term vision of the Lighthouse, but when a sudden crisis hits, they seamlessly descend into operational agility – acting with the speed of a Firefighter and the analytical composure of a Stoic.

The PR Mirror: Translating Mindset into Market Authority

As communications advisors, we occupy a privileged vantage point. We get to observe these internal psychological stances in real time and in turn, actively participate in building, consolidating, and translating them into public narrative.

What I’ve noticed over the years, it that s founder’s internal stress archetype directly predicts and dictates their external media perception:

For example, when a founder embraces structural stress – such as intense market competition, scaling hurdles, or aggressive expansion –  as a challenge, our role is to convert that Alchemist stance into market positioning. We take the internal operational pressure and turn it into bold opinion pieces, category-defining press hooks, and clear investor signaling.

The leader acts as the Lighthouse, and the PR strategy ensures the broader market sees the beam. For example, when working with Celo and launching stable coins in Europe and Brazil, our role was to reflect the long term bold vision of founder Rene Reinsberg. We articulated his thesis on Web3 and digital currencies in a way that educated mainstream audiences while instilling market trust in the platform.

Conversely, when existential threats strike – say a cyber breach, a product outage, or a public scandal – a founder must temporarily pivot into threat-mitigation mode. Here, the PR execution mirrors the leadership imperative:

For employee communication, we embody the Diplomat leader: We help the founder draft empathetic, grounding internal communications that defuse anxiety, restore trust, and keep the team aligned. Externally, with the media and other stakeholders, a good PR strategy acts as a container and should construct a structured, highly controlled response that absorbs market panic, projects stability, and establishes a clear perimeter around the company’s reputation. For example when iZettle (now Zettle by Paypal) experienced an early data incident in 2013, we deployed a rapid crisis strategy using pre-prepared holding statements while engineering teams determined the depth and scope of the breach. Holding statements serve as powerful containers. They acknowledge public concern while preventing media speculation from filling the information void.

Stress as Market Signal

In high-growth ecosystems, stress is non-negotiable. What separates volatile companies from enduring market leaders is the emotional alchemy at the helm. Great founders do not aim for a stress-free environment; they master the ability to oscillate between composure and action. By surrounding themselves with strategic communications partners who can translate those internal responses into public trust, they turn the very pressure meant to break them into their greatest competitive advantage.

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Clara Armand-Delille

Clara Armand-Delille

Clara Armand-Delille é fundadora da ThirdEyeMedia, uma agência de comunicação estratégica e de relações públicas para start-ups e empresas de capital de risco. A empresa apresenta um portefólio de projetos de sucesso que envolvem start-ups europeias e que consistem em campanhas de comunicação regionais e globais, lançamentos no mercado e anúncios de financiamento na Europa, EUA e América Latina. Apresenta-se como mentora de negócios e profissional de comunicação com foco em tecnologia e capital de risco. Conta com mais de... Ler Mais..

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