Entrevista/ “As fundações de maior dimensão têm aqui uma responsabilidade”

João Gama, responsável da Rede Ibérica Fundación Mapfre em Portugal
Foto: João Gama, responsável da Rede Ibérica Fundación Mapfre em Portugal

“É importante que as fundações comuniquem melhor o que fazem e o impacto que geram, mas essa comunicação tem de ser acompanhada de transparência e de uma boa prestação de contas”, sugere João Gama, responsável da Rede Ibérica Fundación Mapfre em Portugal.

Portugal conta com mais de 800 fundações, mas o trabalho desenvolvido por muitas destas organizações continua a ser pouco conhecido pela sociedade. A par do desafio de tornar mais visível o seu impacto, o setor enfrenta dificuldades relacionadas com a sustentabilidade financeira, a profissionalização, a atração de talento e a transformação digital, particularmente entre as entidades de menor dimensão.

É para responder a estes desafios que a Fundación Mapfre lançou a Rede Ibérica, uma iniciativa destinada a apoiar pequenas e médias fundações de Portugal e Espanha. Em Portugal, a primeira convocatória de adesão decorre até 15 de outubro e está aberta a fundações privadas e independentes, com fins sociais ou culturais, especialmente as que desenvolvem a sua atividade fora dos grandes centros urbanos e em territórios de baixa densidade.

Em entrevista ao Link to Leaders, João Gama, responsável da Rede Ibérica Fundación Mapfre em Portugal, dá a conhecer esta iniciativa, analisa os principais desafios das fundações portuguesas e defende que o futuro do setor assenta em três pilares fundamentais: profissionalização, colaboração e sustentabilidade.

O setor fundacional português continua a ter um défice de visibilidade e de reconhecimento junto da sociedade. Na sua perspetiva, porque é que as fundações ainda têm dificuldade em mostrar o impacto que geram?

Creio que é uma situação um pouco paradoxal, porque, embora as fundações tenham um papel muito importante na resposta a necessidades sociais, culturais e territoriais que muitas vezes não encontram resposta por outras vias, para muitas delas continua a ser difícil avançar em aspetos como a gestão, a sustentabilidade ou a profissionalização. E estamos a falar de um setor amplo: Portugal conta já com mais de 800 fundações, segundo o Centro Português de Fundações. Mas quando essas questões não estão suficientemente consolidadas ou quando existem estruturas muito reduzidas, torna-se mais complicado dar continuidade aos projetos, medir bem os seus resultados, adaptar-se a um contexto em mudança e, sobretudo, transmitir à sociedade tudo o que está a ser feito e o impacto que tem.

“Quanto mais claro for para a sociedade o que fazem as fundações, como o fazem e que resultados alcançam, mais fácil será que o seu trabalho seja conhecido e valorizado”.

O estudo do Centro Português de Fundações revela uma confiança globalmente positiva nas fundações, mas também algum desconhecimento sobre o seu trabalho. Estamos perante um problema de comunicação ou existe também uma necessidade de maior transparência e prestação de contas?

Efetivamente, o estudo do Centro Português de Fundações reflete esta realidade, mas creio que aqui não podemos falar de uma questão ou da outra, porque são dois aspetos muito relacionados e que se reforçam mutuamente. É importante que as fundações comuniquem melhor o que fazem e o impacto que geram, mas essa comunicação tem de ser acompanhada de transparência e de uma boa prestação de contas. Quanto mais claro for para a sociedade o que fazem as fundações, como o fazem e que resultados alcançam, mais fácil será que o seu trabalho seja conhecido e valorizado.

O combate às desigualdades e o apoio às populações vulneráveis e a promoção do desenvolvimento socioeconómico e cultural estão entre as áreas em que os portugueses esperam maior intervenção das fundações. Estas expectativas estão alinhadas com a capacidade do setor?

Diria que existe alinhamento, mas é parcial. As fundações têm uma capacidade muito valiosa: atuar com agilidade, lançar projetos piloto e procurar respostas concretas para problemas como as desigualdades no acesso à saúde ou a coesão territorial. Mas é preciso ser realista: os recursos de que dispõem são limitados perante problemas estruturais que exigem respostas de longo prazo e, além disso, existem dificuldades em atrair e reter profissionais qualificados e cuidadores. Por isso, o setor tem pela frente o desafio de reforçar as suas próprias capacidades, melhorar o bom governo, assegurar a sustentabilidade financeira, atrair talento e avançar na transformação digital, porque só assim poderá corresponder a necessidades sociais cada vez mais complexas.

“Nos territórios de baixa densidade demográfica, o envelhecimento e a saída de profissionais para cidades como Lisboa ou Porto tornam ainda mais difícil atrair e reter talento”.

As fundações de pequena e média dimensão, sobretudo as que trabalham em territórios rurais, enfrentam frequentemente limitações de recursos e de competências. Quais são hoje os principais obstáculos à sua profissionalização?

Enfrentam um cenário complexo, porque muitas vezes têm de responder a necessidades cada vez mais exigentes com recursos muito limitados. Os orçamentos reduzidos dificultam a contratação de perfis qualificados e talento especializado, enquanto o acesso ao financiamento também não é simples: candidaturas como o Portugal 2030 ou o PRR implicam processos burocráticos exigentes, auditorias rigorosas e, em muitos casos, o adiantamento de recursos que estas fundações nem sempre têm. Nos territórios de baixa densidade demográfica, o envelhecimento e a saída de profissionais para cidades como Lisboa ou Porto tornam ainda mais difícil atrair e reter talento. E continuam a existir carências na digitalização e na conectividade que limitam a sua capacidade de gestão. Tudo isto torna especialmente difícil a profissionalização das fundações mais pequenas.

É precisamente nesse contexto que surge a Rede Ibérica. Que problema concreto pretende resolver e que tipo de apoio poderão encontrar nesta rede as fundações portuguesas que se candidatem?

A Rede Ibérica Fundación Mapfre nasce para apoiar pequenas e médias fundações que, muitas vezes, levam décadas a realizar um trabalho muito valioso e profundamente ligado aos seus territórios, mas que precisam de atualizar as suas ferramentas e a sua forma de trabalhar para responder a uma realidade social e demográfica que mudou muito. A Fundação Mapfre, como impulsionadora desta iniciativa, quer colocar a sua experiência à disposição destas entidades para as ajudar a gerir melhor os seus recursos e a reforçar os seus projetos, mas queremos ir mais longe: criar um espaço onde as fundações de Portugal e Espanha possam conhecer-se, gerar colaborações e aprender umas com as outras. Lançámos a primeira convocatória em Portugal, num ato de apresentação que teve lugar na Fundação CEBI, e estará aberta até 15 de outubro, por isso incentivaria as fundações que cumpram os requisitos a candidatarem-se e a fazerem parte deste caminho desde o início.

“(…) a integração na Rede assenta no respeito absoluto pela autonomia de cada entidade e não afeta os seus órgãos de gestão, as suas atividades ou as suas decisões”.

O que pode uma pequena fundação portuguesa ganhar ao integrar uma rede ibérica que dificilmente conseguiria alcançar trabalhando de forma isolada?

Creio que o mais interessante é que uma fundação pequena pode entrar em contacto com um ecossistema ao qual, pela sua própria dimensão, seria difícil aceder sozinha. Pode partilhar a sua experiência, conhecer de perto o trabalho de outras fundações e encontrar oportunidades de colaboração entre os dois países. E, além disso, algo que considero muito importante é que tudo isto acontece respeitando plenamente a sua autonomia, já que a integração na Rede assenta no respeito absoluto pela autonomia de cada entidade e não afeta os seus órgãos de gestão, as suas atividades ou as suas decisões.

Fala-se muito na necessidade de medir impacto. Mas nem sempre o impacto social é facilmente traduzido em indicadores ou números. Como encontrar um equilíbrio entre demonstrar resultados e não reduzir a missão das organizações a métricas?

Este é um dos maiores desafios das fundações em Portugal, porque a realidade das intervenções nem sempre pode ser simplificada em resultados numéricos. Creio que o equilíbrio está em utilizar os indicadores como uma ferramenta para avaliar e melhorar o que fazemos, mas sem os transformar no único critério para determinar se uma iniciativa teve sucesso. No âmbito social, é preciso olhar para os resultados alcançados, mas também para as mudanças que se produziram nas pessoas e nas comunidades a que cada projeto se dirige. E no âmbito cultural, ao qual também nos dirigimos a partir da Rede Ibérica Fundación Mapfre, o impacto pode estar em aproximar a cultura de novos públicos, preservar o património ou gerar um vínculo mais forte com a comunidade — aspetos que nem sempre podem ser medidos em números.

Muitas destas organizações nasceram muito ligadas à figura dos seus fundadores ou a estruturas de gestão tradicionais. Existe hoje um desafio de renovação das lideranças e de preparação da sucessão no setor fundacional?

É uma questão que o setor tem de abordar, e cada vez com mais atenção, devido ao envelhecimento da geração fundadora e às novas exigências de transparência, digitalização e impacto social. A sucessão não deve ser encarada como uma perda de controlo, mas como uma oportunidade para assegurar a continuidade das fundações e prepará las para o futuro. Mas, para isso, é necessário avançar na profissionalização e na governação, e fortalecer o próprio ecossistema fundacional — e é precisamente aqui que iniciativas como a nossa Rede Ibérica ganham sentido.

“A capacidade de ouvir, trabalhar com outras pessoas, adaptar se a situações novas e manter uma visão humana continuam a ser fundamentais”.

Que competências deverão ter os líderes das fundações nos próximos anos? 

A gestão de uma fundação exige hoje incorporar conhecimentos e ferramentas que há alguns anos tinham menos peso, especialmente em áreas como a digitalização, a inteligência artificial, a sustentabilidade financeira ou a medição do impacto. Mas não creio que isso signifique deixar para trás capacidades que sempre foram importantes na liderança de uma organização. A capacidade de ouvir, trabalhar com outras pessoas, adaptar-se a situações novas e manter uma visão humana continuam a ser fundamentais. Provavelmente, a diferença está em saber combinar essas capacidades com as novas ferramentas e conhecimentos que hoje fazem parte da gestão de qualquer organização.

Num contexto em que empresas, investidores e organizações sociais estão cada vez mais atentos ao impacto, as fronteiras entre filantropia, investimento social e atividade empresarial estão a tornar-se menos claras. Como vê esta evolução?

Creio que estamos a assistir a uma mudança importante na forma de entender o impacto. Durante muito tempo, empresa, investimento e filantropia funcionaram em espaços bastante separados. Mas hoje essa divisão é menos rígida e começamos a ver que rentabilidade, investimento e propósito social podem fazer parte da mesma conversa. Parece-me uma evolução positiva porque permite mobilizar mais recursos e capacidades para projetos com impacto social e, para as fundações, representa também uma oportunidade para trabalhar com empresas e investidores a partir de novos pontos de encontro.

“Estamos a assistir a uma transição para uma filantropia mais estratégica e para fórmulas de investimento de impacto (…)”.

E no financiamento, as fundações portuguesas continuam demasiado dependentes de modelos tradicionais ou já estamos a assistir ao aparecimento de novas formas de mobilizar capital para causas sociais?

As subvenções tradicionais continuam a ter um peso importante, mas as fundações já não dependem exclusivamente desse modelo. Estamos a assistir a uma transição para uma filantropia mais estratégica e para fórmulas de investimento de impacto, e o Portugal Inovação Social 2030 é um bom exemplo: está a impulsionar projetos que procuram novas formas de responder a problemas sociais e que incorporam investimento social e medição de resultados. Para mim, isto demonstra que o ecossistema está a amadurecer e que existem novas formas de mobilizar recursos para gerar impacto. E é aqui que queremos contribuir com a Rede Ibérica: ajudar as fundações, especialmente as de menor dimensão, a adaptarem se a esta evolução, a melhorarem as suas capacidades de gestão e a estarem em melhores condições para aceder a novas oportunidades de financiamento e colaboração.

A transformação digital e a inteligência artificial estão também a chegar ao terceiro setor. Que oportunidades podem estas tecnologias representar para fundações com recursos humanos e financeiros mais limitados?

As oportunidades são enormes, especialmente para as fundações pequenas. A IA pode reduzir muito o tempo dedicado a candidaturas e relatórios, automatizar tarefas administrativas, criar conteúdos e analisar dados para identificar necessidades ou medir resultados. Para equipas muito reduzidas, isso significa ganhar capacidade e libertar tempo para dedicar aos projetos e às pessoas — algo especialmente útil em áreas como a social, onde pode ajudar a conhecer melhor as necessidades de determinados grupos e a acompanhar os projetos, e a cultural, onde pode facilitar a difusão de conteúdos, aproximá-los de novos públicos e melhorar a gestão de fundos e património. Agora, em áreas tão ligadas às pessoas e às comunidades, não podemos perder de vista a visão humana e o pensamento crítico. A tecnologia pode ajudar-nos a trabalhar melhor e a ganhar capacidade, mas é necessário que as decisões continuem nas mãos de quem conhece cada realidade e entende o que está por detrás de cada projeto.

Há, ao mesmo tempo, o risco de a transformação tecnológica aumentar ainda mais a distância entre grandes fundações, com estruturas profissionalizadas, e pequenas organizações locais. Como evitar esse fosso?

Creio que as fundações de maior dimensão têm aqui uma responsabilidade. Se temos mais recursos e experiência, devemos ser capazes de os colocar ao serviço de organizações que não dispõem das mesmas possibilidades e ajudá-las a incorporar ferramentas que podem transformar a sua forma de trabalhar — desde a inteligência artificial até à melhor gestão dos seus dados ou dos seus processos. A Rede Ibérica Fundación Mapfre nasce precisamente para favorecer essa troca e permitir que fundações de diferentes dimensões possam avançar juntas.

Portugal e Espanha têm realidades distintas, mas também muitos desafios comuns, nomeadamente nos territórios de baixa densidade. O que podem as fundações dos dois países aprender umas com as outras?

Somos países vizinhos e, em ambos os territórios, existem experiências muito valiosas que até agora muitas vezes evoluíram separadamente. Espanha conta com mais de 10.500 fundações ativas e cerca de 589.000 empregos, segundo a Asociación Española de Fundaciones, e essa dimensão permitiu acumular muita experiência em áreas como a profissionalização e a gestão. Portugal está a avançar com força na inovação social e em novas formas de colaboração entre as organizações sociais e a Administração. É aqui que uma rede ibérica pode ter verdadeiro sentido: permite-nos aprender com o que já funciona do outro lado da fronteira, colocar esse conhecimento em comum e, ao mesmo tempo, partilhar aquilo que aprendemos no nosso próprio percurso.

Se tivesse de identificar três mudanças essenciais para fortalecer o setor fundacional português nos próximos cinco anos, quais seriam?

A profissionalização parece-me fundamental para que as fundações possam gerir melhor, atrair talento e enfrentar com mais ferramentas uma realidade social cada vez mais complexa. A segunda mudança é a colaboração: muitas entidades têm um conhecimento profundo dos seus territórios, mas precisam de estar mais conectadas para partilhar capacidades, recursos e oportunidades. E a terceira é a sustentabilidade, porque uma fundação que não tem capacidade para assegurar os seus recursos dificilmente consegue manter os seus projetos e pensar a longo prazo. Se conseguirmos avançar nestes três domínios, teremos fundações mais fortes, mais independentes e com muito mais capacidade para transformar a realidade das pessoas que apoiam.

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