A atividade das empresas não pode reger-se apenas pelos interesses dos seus shareholders, ou seja, pelos interesses daqueles que diretamente beneficiam do cumprimento dos objetivos financeiros – os acionistas. Isto significa que as empresas têm, igualmente, que cuidar de satisfazer os interesses dos seus stakeholders. Isto é, de todos aqueles que, direta ou indiretamente, são condicionados pela sua atuação.

Por outras palavras, para além de procurarem muito legitimamente gerar lucros para os seus acionistas, as empresas devem ter em consideração as expetativas de clientes, trabalhadores, fornecedores, concorrentes, Estado, sindicatos e toda a comunidade envolvente. As empresas têm, no fundo, uma responsabilidade social a cumprir, o que passa pela promoção dos valores de cidadania, pelo respeito por princípios éticos e pela busca do bem comum.

A responsabilidade social é hoje encarada como um investimento estratégico. As sociedades desenvolvidas já não toleram comportamentos empresariais que desrespeitem a dignidade humana, os direitos laborais, as obrigações fiscais, os ecossistemas naturais ou as tradições locais, por exemplo. Neste sentido, a competitividade também depende do cumprimento de certos valores e princípios com relevância social. Se uma empresa se preocupa com a comunidade onde está inserida, a própria comunidade reconhece esse esforço e recompensa o investimento.

Nos países mais desenvolvidos, o financiamento das universidades e respetivos centros de investigação é, em boa medida, suportado por empresas. Desta forma, as empresas estão a ser socialmente responsáveis, ao mesmo tempo que incentivam a produção de conhecimento que, a prazo, pode ser vantajoso para os seus negócios. Ou seja, para lá dos objetivos imediatos de responsabilidade social, há uma perspetiva mais ampla de promoção do ensino, ciência e cultura tendo em vista o desenvolvimento de um ambiente socioeconómico favorável à atividade empresarial.

Em Portugal, algumas empresas já são sensíveis a esta realidade e procuram canalizar as suas ações de responsabilidade social para a comunidade académica. Mas acredito que o seu número pode e deve aumentar substancialmente. Uma ajuda preciosa neste sentido poderia vir da alteração do quadro fiscal, que é ainda insuficientemente atrativo para constituir um verdadeiro estímulo ao apoio a programas de ensino ou de investigação científica. Urge, portanto, criar uma série de incentivos fiscais e de outra ordem que minimizem o impacto económico que os apoios mecenáticos ao meio académico acarretam para as empresas.

De resto, dada a crescente sofisticação técnica e tecnológica das atividades de I&D+i, o investimento na ciência tende a ser cada vez mais volumoso, tornando-se por isso incomportável para o Estado. Na atual conjuntura, o financiamento público não cobre grande parte das despesas das instituições de ensino superior, sendo por isso necessário apostar na criação de receitas próprias, incluindo a angariação de verbas provenientes do mecenato empresarial.

O financiamento adequado das universidades portuguesas é essencial para o seu saudável desenvolvimento num contexto de forte competitividade internacional e para a sua correta integração no sistema de ensino superior e de investigação científica europeu. Por outro lado, sem músculo financeiro, as universidades não podem contribuir substantivamente para a plena integração de Portugal na economia do conhecimento e, consequentemente, para a promoção da competitividade empresarial e do bem-estar dos portugueses segundo padrões internacionais.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais