Opinião

Mudanças e novidades no ecossistema de start-ups brasileiro

Daniela Meirelles, empreendedora e business advisor
Foto: Daniela Meirelles

O ecossistema brasileiro de start-ups deixou para trás o tom de diagnóstico que marcou o primeiro semestre de 2026 e passou a registar movimentos concretos a partir de julho. Rondas de investimento, aquisições, iniciativas institucionais e até a construção de infraestrutura física mostram um mercado que saiu do papel e começou a operar com mais intensidade.

No segundo trimestre, o volume investido chegou a US$ 391,6 milhões, alta de 16,6% em relação ao período anterior. O número indica recuperação consistente, ainda que distante dos níveis vistos em 2025. Os totais agregados, no entanto, contam só parte da história. O que realmente define esses meses são as ações que saíram do planeamento.

Uma delas é a Vila das Startups, empreendimento de mais de quatro mil metros quadrados em construção no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp. Com capacidade para abrigar mais de 60 empresas, o espaço responde à procura crescente por infraestrutura de inovação depois que o parque atingiu a ocupação máxima em 2025.

O Ranking NEEX 2026, da Exame, também refletiu esse momento. O principal prémio para empreendedores do país registou um recorde de 838 empresas inscritas, 15% a mais que no ano anterior, e 491 selecionadas. Juntas, elas somaram R$ 42 bilhões em receita operacional líquida em 2025, crescimento de 32%. Minas Gerais ultrapassou Santa Catarina e assumiu a segunda posição entre os estados, com 56 empresas selecionadas.

No Prémio Sebrae Startups 2026, que começou com mais de mil inscritas, a campeã nacional foi a QualityStorm, indtech paranaense que desenvolve uma plataforma de inteligência artificial para controle de qualidade industrial. A empresa levou R$ 250 mil e foi anunciada durante o Startup Summit, em Florianópolis, no final de agosto.

Duas frentes institucionais também ganharam corpo. A Frente Parlamentar Mista das Startups, instalada em junho, passou a operar de fato nos últimos meses, com foco em destravar barreiras regulatórias e dar mais previsibilidade jurídica ao setor. Em agosto, o FIP Conexões Startups, iniciativa conjunta do BNDES e da Finep, recebeu 19 propostas de gestoras interessadas em administrar um fundo que pode mobilizar até R$ 250 milhões para empresas em estágio inicial. A medida busca responder ao histórico gargalo de capital semente.

No Startup Summit 2026, realizado entre 26 e 28 de agosto em Florianópolis, a Darwin Startups anunciou o Batch #15. A aceleradora catarinense, que completa 11 anos, retomou o modelo de turmas abertas após dois anos de investimentos pontuais. A seleção fica aberta até 25 de setembro e prevê até cinco start-ups em estágio inicial, com aporte inicial de R$ 100 mil e possibilidade de investir até R$ 1 milhão adicional ao final das 12 semanas. Pela primeira vez, a Darwin aceita solo founders (empreendedores que conduzem a start-up sozinhos), perfil que antes enfrentava mais ressalvas. O foco agora está no entendimento profundo do problema e do mercado, mais do que no tamanho da equipa. O evento reuniu mais de 200 start-ups e 120 investidores, com intenções de investimento estimadas entre R$ 210 milhões e R$ 412 milhões, e sediou pela primeira vez a etapa oficial da Startup World Cup.

No campo da inteligência artificial, as novidades foram especialmente relevantes. Em agosto, a Enter consolidou-se como o primeiro unicórnio nativo de IA da América Latina, com valuation de US$ 1,2 bilhão, após captar mais de US$ 100 milhões em ronda de growth. A empresa usa inteligência artificial para ajudar companhias a lidar com processos judiciais. No mesmo mês, a PoliHealth lançou o que descreve como o primeiro “prontuário de precisão” do país: uma plataforma de IA que integra exames laboratoriais, sequenciamento genético, histórico familiar e hábitos de vida para apoiar decisões clínicas. A healthtech projeta atender 30 mil profissionais de saúde em três anos e faturar R$ 8 milhões até 2029.

A TideWise, deep tech carioca de embarcações autónomas, iniciou operação na Bélgica. O movimento ilustra tanto o potencial de internacionalização quanto a necessidade de buscar mercados e capital além das fronteiras brasileiras. A start-up planeja acelerar o crescimento na Europa com nova ronda a e ampliar a frota no Brasil. Já no início de setembro, o C6 Bank anunciou a aquisição da Alymente, start-up de benefícios corporativos fundada em 2017. A operação marca a entrada do banco num mercado que movimenta mais de R$ 150 bilhões por ano. A Alymente atende mais de 100 mil beneficiários e oferece cartão multibenefícios com nove categorias.

A descentralização geográfica também avançou. O Sebrae Hacking 2026, realizado em Mato Grosso, reforçou polos no Sul e no Centro-Oeste apoiados por universidades e associações setoriais. Em Goiás, o governo estadual anunciou a construção de um Distrito de Inteligência Artificial com aporte superior a R$ 300 milhões, iniciativa que pode reposicionar o estado como hub de tecnologia na região.

Entre as grandes empresas e fundos corporativos, o Google for Startups selecionou 11 start-ups com viés crítico de IA na 13.ª edição do programa e lançou o AI Board Academy para capacitar fundadores. A ABVCAP divulgou a lista de 18 start-ups internacionais aprovadas no ScaleUp in Brazil. Em agosto, a Montreal Ventures, braço de CVC do grupo carioca Montreal, anunciou R$ 30 milhões para investimentos em start-ups, com estratégia que combina aporte e possibilidade futura de aquisição. No mesmo período, a Insi Ventures (ex-Meta Ventures) reorganizou sua estratégia com o programa CALL4TECH, oferecendo até R$ 1,5 milhão por start-up em chamada para empresas de IA e dados.

As rondas que mais chamaram atenção incluem a Decade, que levantou US$ 85 milhões em seed (a maior ronda da América Latina nessa fase), liderada por Benchmark e GreenOaks. A fintech de wealth management foi fundada por ex-executivos do Nubank. A Kesh (empresa que atua com o modelo de “cashback de juros”) captou R$ 550 milhões em growth, liderada pelo Grupo Leste, com participação da Across Capital e BR Angels. A Flash anunciou R$ 150 milhões em Série D liderada pela Battery Ventures, mesmo sem necessidade imediata de recursos, para acelerar produtos e IA. A Jusfy levantou R$ 80 milhões em Série A com Thomson Reuters e Quona. A Ume captou R$ 500 milhões via FIDC, com participação de Itaú, Bradesco, XP, entre outros, e espera movimentar R$ 2 bilhões em transações ao longo de 2026. O Mercado Bitcoin fechou US$ 19,1 milhões em Série C com SoftBank e Tether, enquanto a Brendi, foodtech de IA para atendimento via WhatsApp em restaurantes, levantou US$ 6,6 milhões com a Propel Ventures.

No mercado de fusões e aquisições, o número de transações em tecnologia caiu 33% no primeiro semestre, mas ganhou em seletividade. A inteligência artificial tornou-se critério fundamental de triagem. No geral, o M&A brasileiro movimentou cerca de R$ 166,8 bilhões no período, com menos operações, porém maior valor agregado por negócio. Investidores estrangeiros adquiriram 40% das empresas brasileiras vendidas, e a tecnologia liderou o interesse. A compra da Alymente pelo C6 Bank exemplifica a tendência de grandes players financeiros entrarem em segmentos como benefícios corporativos via aquisição.

Fintechs concentraram cerca de 67% do volume, com destaque para a Kesh e a Decade. O segmento de IA e software respondeu por parcela significativa  há sobreposição relevante, já que grande parte das fintechs também utiliza inteligência artificial, seguido por healthtech, agtech e legaltech. Empresas que combinam IA e fintech receberam volumes expressivos em múltiplas rondas. Entre os fundos que lideraram operações recentes estão Kaszek Ventures, Monashees, Battery Ventures, Benchmark/GreenOaks, Propel Ventures e Valor Capital Group. Pesquisa da Spectra Investments divulgada em julho aponta Kaszek, Monashees, Astella, Valor e ONEVC como as gestoras mais respeitadas pelos empreendedores. Investidores corporativos, por sua vez, contribuíram com US$ 34,1 milhões só em julho, o equivalente a 42% do funding de venture capital no mês.

Apesar dos avanços, obstáculos estruturais permanecem. A Selic em 14,25% mantém o custo de capital elevado, pressiona as captações e alonga os ciclos de due diligence. O acesso a recursos para o early stage continua difícil, mesmo com iniciativas como o FIP Conexões e o Batch #15 da Darwin. A escassez de profissionais especializados em inteligência artificial e ciência de dados limita a escalabilidade de muitas operações.

Quatro tendências devem ganhar força até o fim de 2026. A consolidação via M&A deve avançar, especialmente em benefícios e fintechs, com grandes players preferindo adquirir tecnologia pronta. A IA agêntica no B2B, sistemas capazes de executar tarefas de forma mais autónoma, deve gerar uma nova geração de empresas, com segurança, integração e governança como fatores críticos de adoção. Instrumentos de capital estruturado, como FIDCs e corporate venture, devem ocupar espaço maior no financiamento de empresas em expansão. E a expansão regional tende a aprofundar-se, com distritos de IA, polos no Sul e Centro-Oeste e ecossistemas no Nordeste captando uma fatia crescente dos investimentos.

Os últimos meses trouxeram infraestrutura, rondas e iniciativas institucionais. Os próximos devem mostrar se o movimento se sustenta. O FIP Conexões Startups deve anunciar as gestoras selecionadas até outubro. A Darwin fecha o Batch #15 em dezembro. O mercado acompanha sinais de eventual redução dos juros que possam destravar capital para o estágio inicial. O Brasil de setembro já não é o mesmo de junho: amadureceu, sofisticou-se e se tornou mais preparado para competir globalmente.

A pergunta que fica é quais das start-ups que captaram recursos entre julho e setembro estarão a liderar o próximo ciclo de crescimento em 2027? A conferir!

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Daniela Meirelles

Daniela Meirelles

Daniela Meirelles é empreendedora, business advisor, mentora de start-ups e palestrante (Branding, Empreendedorismo e Liderança). Foi fundadora da DBRAND, consultora de branding, marketing e inovação; fundadora/CEO da Yuppy, start-up de media, marketing e eventos; mentora nos programas Startup Rio, Startup Weekend e Founder’s Institute; palestrante; e também atua na organização do II Chapter da Singularity University, no Rio de Janeiro. Tem 15 anos de experiência em marketing, branding e desenvolvimento de novos negócios. Desenvolveu inúmeros projetos para pequenas, médias e... Ler Mais..

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