Opinião

A liderança segundo Robert Prevost

Carlos Sezões, Managing Partner da Darefy
Foto: Carlos Sezões

Quem?… poderá questionar, legitimamente, algum leitor mais distraído. Falamos de Robert Francis Prevost, eleito há pouco mais de um ano Papa, sob o nome de Leão XIV. O anúncio apanhou o mundo de surpresa, poucos imaginando que um pontífice nascido nos EUA pudesse liderar o mundo católico.

Mas defini-lo simplesmente como um “papa americano” ignora uma parte importante do seu perfil. A sua formação é profundamente internacional: depois de crescer em Chicago, Prevost passou duas décadas como missionário e bispo no Peru antes de se tornar uma figura importante no Vaticano. Esta experiência parece ter moldado um estilo de liderança menos ideológico, mais pragmático e diplomático e orientado para a escuta, a mediação e a construção de consensos.

Que estilo de liderança vemos em Robert Prevost? Se o Papa Francisco foi, acima de tudo, um líder disruptivo, Leão XIV parece estar a emergir como um líder conciliador. Francisco desafiava frequentemente o status quo através de gestos, formulações provocatórias e um estilo de comunicação empático e pessoal. Leão é mais ponderado e institucional. O seu estilo é tranquilo, mais analítico e menos confrontador. Contudo, isto não deve ser confundido com passividade. Durante o seu primeiro ano, a sua retórica tornou-se mais incisiva e afirmativa em relação à guerra, à desigualdade, à migração e às responsabilidades dos líderes políticos.

Sintetizo aqui cinco traços essenciais da Liderança do actual Papa e suas mais-valias. Primeiro, uma humildade sem derivar na fraqueza. O estilo de Prevost é relativamente discreto. No entanto, humildade não tem significado evitar posições difíceis. As suas tomadas de posição demonstram que um líder pode ser ponderado no estilo, mas forte na substância.

Depois, a escuta activa como fonte de autoridade. A sua ênfase na sinodalidade da Igreja (caminhar juntos com vista a concretizar a missão) sugere que ouvir não é simplesmente uma virtude interpessoal; é uma capacidade de liderança estratégica. Os líderes compreendem melhor os sistemas complexos quando ouvem perspetivas que desafiam as suas próprias ideias. Será a materialização da velha máxima “se queres ir rápido, vai sozinho; se queres ir longe, vai acompanhado”.

Em terceiro, a sua perspectiva global. As suas origens americanas, a experiência peruana e as responsabilidades no Vaticano conferem a Prevost uma uma liderança multicultural e universalista. Denota conforto em navegar por diferentes realidades culturais, em vez de impor uma única perspetiva.

Depois, a transformação centrada no ser humano. Magnifica Humanitas, a sua primeira encíclica, centrada na salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial. demonstra uma clara crença de que a transformação deve, em última análise, ser avaliada através do seu impacto nas pessoas. A questão não é simplesmente “O que pode a tecnologia fazer?”, mas “Que tipo de seres humanos e de sociedade estamos a criar através da tecnologia?”.

Por último, a mais importante de todas: a coragem moral. A sua liderança tem-se manifestado cada vez mais abertamente sobre a guerra, a desigualdade e o comportamento dos poderes políticos e económicos – por exemplo, sem medo de enfrentar Donald Trump e JD Vance, quando tal foi necessário. Ilustra uma distinção importante entre diplomacia e acomodação: um líder diplomático deve estabelecer limites claros e defender princípios fundamentais.

Diria que o modelo de liderança emergente do Papa Leão XIV pode ser resumido numa ideia: liderar a transformação sem perder a humanidade. A sua diferença em relação a Francisco não reside primordialmente nos valores, mas sim nos métodos de liderança. Francisco “agitava as águas” ao confrontar a instituição e o mundo que o rodeava. Leão parece mais inclinado a ligar, integrar e institucionalizar a mudança. Talvez seja isso que se exige – não líderes que saibam apenas provocar disrupção, mas que a consigam transformar num novo equilíbrio sem perder o propósito humano inicial. E sim, pessoalmente, gosto deste estilo!

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Carlos Sezões

Carlos Sezões

Carlos Sezões é atualmente Managing Partner da Darefy – Leadership & Change Builders, startup focada na transformação organizacional/ cultural e no desenvolvimento do capital de liderança das empresas. Foi durante 10 anos Partner em Portugal da Stanton Chase, uma das 10 maiores multinacionais de Executive Search. Começou a sua carreira no Banco BPI em 1999. Assumiu depois, em 2001, funções de Account Manager do portal de e-recruitment e gestão de carreiras www.expressoemprego.pt (Grupo Impresa). Entrou em 2004 na área da... Ler Mais..

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