Opinião

A empresa que trabalha e a empresa que guarda

Joaquim Costa, fundador e CEO da Closedata
Foto: Joaquim Costa, fundador e CEO da Closedata

Há uma coisa que aprendi a olhar de forma diferente desde que construo uma empresa que passa o dia a ler estruturas societárias ibéricas: a forma como uma empresa está organizada conta uma história que os números, sozinhos, não contam.

As contas dizem quanto uma empresa fatura e quanto ganha. A estrutura diz o que os donos pretendem. E, na maior parte dos casos, ninguém está a ler essa segunda parte. Vou tentar mostrar porquê, com quatro ideias que qualquer empreendedor ou investidor beneficia de perceber, independentemente de alguma vez fazer uma aquisição.

A empresa que trabalha e a empresa que guarda

Repare numa configuração que é omnipresente no tecido empresarial português e quase invisível para quem não a procura. Existe uma sociedade que opera, que fatura, que emprega, que faz o negócio. E existe uma segunda sociedade, muitas vezes uma SGPS ou uma imobiliária da família, que detém o edifício, a marca, as participações. A primeira paga renda à segunda. A primeira trabalha. A segunda guarda.

Esta separação não é um truque, é organização. Serve para proteger o património do risco do negócio, para preparar a entrada de sócios, para arrumar a sucessão em vida. Mas tem uma consequência que muita gente ignora: quando se olha só para a empresa operacional, vê-se metade da história. O valor real, o imóvel, a propriedade intelectual, a estrutura patrimonial, está muitas vezes noutra sociedade. Para quem compra, isto é decisivo. Pode estar a adquirir o negócio sem adquirir o sítio onde ele funciona. Para quem constrói, é uma lição sobre o que a sua própria estrutura revela a quem a souber ler.

Ter e mandar não são a mesma coisa

A segunda ideia parece óbvia quando escrita e é ignorada constantemente na prática. Quem detém o capital de uma empresa e quem a gere nem sempre são a mesma pessoa. Há sócios que estão no capital mas nunca aparecem numa reunião. Há gestores que decidem tudo mas não têm uma única quota. E há o caso mais interessante de todos, o sócio com quarenta por cento que manda em absoluto porque os outros sessenta por cento estão dispersos por dez pessoas que nunca se juntam.

Isto importa muito mais do que parece. Falar com quem aparece no organograma, em vez de com quem controla de facto a decisão, é uma das formas mais silenciosas de perder uma negociação, uma parceria ou um investimento. Ter e mandar são coisas diferentes, e a estrutura societária, lida com atenção, diz qual é qual.

A holding que aparece antes da venda

A terceira ideia é a que mais me fascina, porque introduz o tempo. As estruturas não são fotografias, são filmes. E as datas contam uma história.

Quando, por cima de uma empresa operacional com trinta anos de existência, aparece de repente uma nova holding constituída há dezoito meses, isso raramente é acaso. Muitas vezes é o primeiro sinal público de que alguma coisa se prepara, uma reorganização para sucessão, uma separação de risco, ou o início discreto de um processo de venda que ainda não tem nome. O anúncio formal, quando chega, chega meses depois. Mas a estrutura já tinha começado a falar.

Ninguém publica um comunicado a dizer que vai vender. Mas a forma como reorganiza a casa antes de o fazer é, para quem observa, informação pública disponível a quem a souber interpretar.

Grupos escondidos à vista

A última ideia desmonta uma ilusão comum. Olhamos para o mercado e vemos empresas independentes, cada uma com o seu nome, o seu setor, a sua vida. Mas parte delas não é independente coisa nenhuma. Partilham o mesmo dono, a mesma morada, o mesmo gestor, o mesmo grupo de pessoas a decidir. São um grupo económico de facto que o mercado, e muitas vezes os próprios registos, tratam como peças soltas.

Este é o mesmo problema, aplicado a pessoas, que já existe quando classificamos empresas por códigos de atividade que não refletem o que elas realmente fazem. Confiamos na etiqueta em vez de olhar para a realidade. E a realidade, na estrutura societária ibérica, é que muito do que parece separado está ligado por dentro.

Porque é que isto interessa agora

Durante muito tempo, ler estas camadas era trabalho artesanal, feito à mão por quem tinha experiência e paciência para seguir participações de sociedade em sociedade. Era lento, dependia da pessoa, e não escalava. Foi precisamente por aqui que decidimos construir a Closedata, pela convicção de que esta leitura, a da estrutura e não só a dos números, podia ser sistematizada e posta ao serviço de quem decide.

Mas a lição de fundo não depende de nenhuma ferramenta. É esta: a estrutura da sua empresa não é um detalhe administrativo. É uma linguagem. Diz o que você pretende, revela quem controla, marca no tempo o que se prepara, e liga o que aparenta estar separado. Toda a gente tem dados. Toda a gente tem contas. O que distingue quem lê bem um mercado de quem chega tarde é a capacidade de ler também aquilo que a estrutura diz e os números calam.

A empresa que trabalha e a empresa que guarda estão ambas a contar-lhe alguma coisa. A única questão é se está a ouvir.

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Joaquim Costa

Joaquim Costa

Joaquim Costa é líder de produto e empreendedor em série. Atualmente cofundador e CEO da Closedata, plataforma de deal sourcing para mercados privados, foi também cofundador e CPO da BlockBee e Diretor de Produto no KuantoKusta. A sua entrada no ecossistema de produto e startups, em 2015, seguiu-se a uma carreira militar de sete anos ao serviço da Marinha de Guerra Portuguesa e da NATO, marcada por missões internacionais no médio oriente e norte de África, funções em operações e... Ler Mais..

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