Opinião

Para cada problema, uma oportunidade

Eugénio Viassa Monteiro, professor da AESE-Business School
Foto © Tiago Caramujo

Com as tensões no Golfo e as dificuldades de obtenção de matéria-prima para a elaboração de fertilizantes químicos, houve quem tivesse dado importância à passagem de produtos químicos para as alternativas orgânicas e naturais, tentando restaurar o papel central de natureza.

Tais condições permitem aos microorganismos da terra realizar o seu papel crucial na fixação do nitrogénio, fornecendo também os nutrientes essenciais para o crescimento e boa produtividade da plantação. Num dos casos de plantação de bananeiras, um cacho de bananas pesava 73 kgs, contra a média de 20kgs anterior.

O mesmo se pode dizer do uso de pesticidas naturais, com árvores que protegem uma certa área, ou com extratos de plantas especiais que dão proteção contra  micróbios e pestes. Caso diferente é o dos solos com défice de algum mineral que tem de ser reposto para criar um equilíbrio.

Em muitos locais da Índia, concluiu-se que fertilizantes naturais e orgânicos não só reduzem gastos na sua aquisição, mas também produzem efeitos positivos na regeneração dos solos para a agricultura. Um agricultor, na região de Gujarate, criou uma empresa de compostagem de materiais orgânicos e inertes que foi crescendo rapidamente. Ao comprovar a sua eficiência e efeito na produtividade e o rápido processo de difusão, ao passar a palavra, mais de 800.000 agricultores do Estado de Gujarate compraram sacos de material de compostagem para fertilizar as suas plantações.

Os materiais de base orgânica e a sua fermentação fazem reativar os microorganismos do solo, preparando-o para fixar elementos da atmosfera, que são essenciais para o crescimento da plantação. Esta decisão mostrou ser acertada, não apenas pela temática dos fertilizantes, que provou ser nociva para a saúde humana provocando doenças, mas sobretudo porque contribuiu para a melhoria de produtividade pela restauração dos solos e reativação do papel dos microorganismos na agricultura.

Desde há tempos, está a avançar uma forte onda de inovações na seleção e melhoria das plantas, com base na produtividade e resistência a situações adversas, como também de encontrar culturas para dar melhores rendimentos, de acordo com os preços do mercado. Para tipificar, citarei alguns exemplos de inovações procedentes da ampla base de agricultores, como também da parte de algumas agências estaduais, que têm maior capacidade de acelerar transformações benéficas para amplas áreas e estratos populacionais.

Por exemplo, o que se fez na área fronteiriça de Ran de Kutch: um deserto, onde 19.000 ha de terra foram cultivados com “tamareiras”, tendo-se facilitado a aquisição de “plantulas”, produzidas de uma árvore-mãe, pelo processo de “tissue-culture”. Uma pequena amostra de tecido da planta é posta num meio altamente nutriente, onde rapidamente ganha raízes, para ser transplantada e levada para o local definitivo. Cada tamareira é uma árvore frondosa, produzindo na sua maturidade, mais de 100 kgs de tâmara. E todas as tâmaras são iguaizinhas ao fruto da planta-mãe. Assim, aqueles 19.000 ha passaram de um deserto para um viçoso oásis, com uma elevada produção e altos rendimentos para os proprietários de pequenas área de terreno.

Algo parecido fez-se com a plantação de oliveiras no Estado de Rajhastan, sob altas temperaturas, utilizando técnicas de irrigação gota a gota, que consome muito menos água. Esperava-se produzir cerca de 1.000 t de azeitonas no último ano e já há marcas a vender azeite de oliveira local.

Um agricultor identificou uma variedade de maçã que se dá bem com temperaturas altas. Já havia produção nas zonas mais frias ou temperadas: nos Estados de Jammu e Kashmir e nos Estados do Nordeste da Índia. Essa nova variedade identificada mereceu da parte de uma Agência de Investigação do Estado a multiplicação e o envio de “plantulas” a mais de 100.000 agricultores interessados no seu cultivo.

Na produção de fruta, de vegetais e de leite, surgiram com grande expansão, as Cooperativas de produtores, bem como as Farmers Producers Organizations. É o caso da SahyadriFarms, que adquire a produção dos seus associados para depois vendê-la, quer na Índia quer para exportação, se os preços forem compensadores. De notar que a Índia exporta para a Europa uvas de mesa, sem grainha, dos meses de dezembro a maio; na Europa só há uvas em setembro e outubro, pelo que a exportação tem sido muito vantajosa.

A grande Cooperativa que leva uma marca indelével como a de Verguese Kurien e detém a marca AMUL, conta com mais de 3,6 milhões de cooperantes. Vende leite pasteurizado e, com a gordura retirada, produz uma ampla gama de derivados, distribuídos pelo pais inteiro. Atualmente, a AMUL vende leite e seus derivados nos EUA, na Espanha e Portugal.

Esta atitude de melhorar e aumentar os rendimentos teve um grande impulso com a Global Vikas Trust, uma entidade criada por Mayank Gandhi, tentado fazer pensar aos “marginal Farmers” como podem obter receitas mais lucrativas. Os agricultores que aderiram à proposta de substituição das plantações tradicionais como o algodão e a soja, por árvores de fruto, escalonadas pelo tempo da sua produção obtiveram resultados significativos. Entre as culturas de curto prazo, como a banana e a papaia; as de médio prazo, como o ananás, a goiaba, a romã, o limão, a lima doce, o mosambi; e entre as de logo prazo, como a manga, a anona e outras espécies. O resultado foi o de um rendimento anual dos agricultores que cresceu de 25-50.000 rupias por acre, para uma média de 250.000 rupias – um aumento em média superior a 10 vezes, quando comparado com os ganhos obtidos antes da substituição das culturas.

Para ter a certeza do que dizia, pediu uma auditoria ao TISS – Tata Institute of Social Sciences, cujo relatório, depois de uma ampla consulta aos agricultores, constatou que as empresas auscultadas tinham mais de 10 vezes o rendimento anterior à transformação.

A capacidade geradora de bons rendimentos associada a uma certa atitude pedagógica e filantrópica levou muitos graduados em Engenharia e Management, lançados no seu trabalho com grandes organizações, a deixarem-no e a virem trabalhar para a propriedade familiar, na aldeia onde cresceram. Quando ficava demonstrado o seu sucesso, apresentavam-no e ensinavam a toda a vizinhança interessada, como faziam, para que outros pudessem contribuir também para a melhoria dos seus rendimentos.

Com a grande difusão e apoios dos Estados para a cultura de cogumelos, milhares de mulheres do campo estão a criar o seu negócio. É algo muito solicitado pelo mercado, oferecendo bons preços. A febre de produção está a espalhar-se pelo país inteiro.

As culturas tradicionais de árvores de fruta têm um novo impulso científico, para se obter uma produção global maior, sobretudo de produtos que se vendem muito bem: casos da banana, da manga, do melão, das líchias, de batata, de batata–doce, entre outras. A manga, sobretudo a de elevada qualidade, tem já um crescente mercado de exportação para os EUA e Reino Unido, por exemplo, onde, talvez através da diáspora, os cidadãos locais fizeram a descoberta do seu sabor único. A banana vai crescendo na sua produção, sendo a Índia o produtor n.º1, como o é da manga.

Note-se que a Índia passou a ser o 2.º produtor mundial de batata, que exporta, sob as variadas formas, como os “chips”, “french fries”, puré, com uma produção de 60 milhões de toneladas anuais, em crescimento. A batata-doce dá-se muito bem na Índia, podendo ser a cultura a investir logo após as monções, para aumentar amplamente os rendimentos dos agricultores. Falta que as empresas comercializadoras encontrem formas de investigar e vender a um amplo público e de as exportar, à semelhança do que se passa com a batata não doce.

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Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”, publicado em português, espanhol e inglês. Foi diretor-geral e vice-presidente da AESE (1980 – 1997), onde teve diversas responsabilidades. Foi presidente da AAPI-Associação de Amizade Portugal-India e faz parte da atual administração. É editor do ‘Newsletter’ sobre temas da Índia,... Ler Mais..

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