Opinião

O panafricanismo infantil e a ilusão de mudar de dono

Adulai Bary, fundador e CEO da BIGTechnologies SARL
Foto: Adulai Bary

Há um clamor ruidoso que hoje atravessa as elites intelectuais e as redes sociais africanas: a rutura com o Ocidente e, em especial, com a presença histórica da França. É o grito de guerra dos novos panafricanistas. No entanto, para quem analisa a geopolítica através da lente fria da estratégia de negócios, este clamor revela uma fragilidade estratégica alarmante.

A minha pergunta a esta geração é direta e despida de romantismo: queremos realmente soberania ou estamos apenas à procura de um novo senhorio?
Romper com a Europa para correr para os braços de Moscovo ou de Pequim não é um ato de libertação; é apenas uma transferência de submissão.

Olhemos para os factos de forma pragmática. Desde quando é que a Rússia desenvolve estruturalmente alguma economia em África? Onde estão as indústrias, os polos tecnológicos ou as universidades financiadas pelo capital russo? Na Guiné-Conacri, após mais de 50 anos de exploração mineira, estimam-se cerca de 30 mil milhões de dólares em recursos brutos extraídos pelo Kremlin, contra escassos 2 mil milhões em investimentos locais tangíveis. No Congo, na República Centro-Africana ou no Mali, o padrão repete-se: as minas são zonas de pura extração de riqueza, nunca de desenvolvimento humano, inovação ou industrialização.

E a China? Está presente nas estradas, portos e caminhos de ferro, sim. Mas quem controla o código, a tecnologia e a margem de lucro real? A infraestrutura é chinesa, a dívida é nossa e o valor final voa de volta para Pequim. Mudámos de parceiro, mas mantivemos o estatuto de colónia extrativista.

A grande diferença entre a nossa retórica e o sucesso de outras regiões é que nações como Singapura, Coreia do Sul ou China nunca perderam tempo a inventar “ismos” contra ninguém. Não existe um “Singapuraísmo”. O que existiu foi disciplina, educação de excelência e pragmatismo de Estado. A Coreia do Sul não venceu erguendo muros ao mundo, mas dominando a inovação tecnológica e a exportação global.

Nenhum destes países alcançou a liderança internacional através do ruído ou do ressentimento histórico. Venceram no silêncio, na preparação tática e na execução. Enquanto nós gritamos contra o “imperialismo”, eles enviaram os seus melhores cérebros para as universidades ocidentais, absorveram a tecnologia do adversário, criaram instituições incorruptíveis e cooperaram estrategicamente com quem criticavam de véspera.

Vejamos o Golfo Pérsico: utilizaram o Ocidente para extrair e valorizar o seu petróleo, canalizando depois esses triliões para criar ecossistemas globais de IA, turismo, finanças e transição energética. Prepararam o futuro enquanto outros se vitimizavam no presente.

África tem excelentes exemplos desse pragmatismo executivo — o Ruanda na eficácia de governação, o Marrocos na liderança logística e industrial, o Quénia no ecossistema tech ou a Nigéria no boom das fintechs. Mas são ainda etapas, não a regra continental.

A dura realidade que o ecossistema empresarial bem conhece é esta: o desenvolvimento não se faz a mudar de “salvador”. Não somos as eternas vítimas da história. Se somos responsáveis pela persistência da nossa pobreza, somos também os únicos responsáveis pela nossa riqueza.

O panafricanismo do futuro tem de deixar de ser uma terapia de grupo baseada na rejeição do colonizador. Tem de se transformar numa disciplina implacável de construção, produção e execução. Caso contrário, continuaremos a ser apenas o terreno fértil onde novos impérios vêm fazer grandes negócios, enquanto nós batemos palmas à nossa própria ilusão de liberdade.


Adulai Bary é gestor e empreendedor com mais de uma década de experiência em engenharia informática, inteligência empresarial, telecomunicações e consultoria internacional. Licenciado em Métodos de Tecnologia e Matemática Aplicados à Gestão, possui um MBA em Empreendedorismo & Negócios e certificações em gestão de projetos, incluindo a qualificação COPC.

Liderou a área de Inteligência Empresarial (BI) numa multinacional de telecomunicações e coordenou iniciativas estratégicas para o Governo da Guiné-Bissau, como os projetos Guiné-Bissau 360 e a participação na Expo 2023 em Doha. É presidente da GwIX, promovendo a infraestrutura digital no país.

Cofundador de várias empresas tecnológicas e de impacto, como a BIGTechnologies (Fundador & CEO), InnovaLab (Cofundador & PCA), Orik Capital, Ubuntu Green Energy e Inunde, tem também colaborado com organizações como a ONU e o Banco Mundial em projetos de desenvolvimento económico e digital. Foi reconhecido como um dos 100 jovens mais influentes da África Ocidental e é Embaixador da Guiné-Bissau pelo One Young World e pelo Next Einstein Forum.

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